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terça-feira, 24 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27853: (De)Caras (246): Memórias do meu braço direito no PEL CAÇ NAT 52, em Missirá e Bambadinca: O Furriel João Manuel Sousa Pires (Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Foi mais um reencontro, moramos em ruas paralelas, ambas a desaguar na Avenida de Roma ou no Campo Pequeno. Encontramo-nos muitas vezes na rua, sempre com promessas de reencontro, desta vez aconteceu, pedi-lhe para trazer os seus álbuns e que me desse licença para tirar algumas imagens, falei-lhe do blogue, ele é assumidamente info excluído, prometi-lhe que no dia da publicação lhe iria telefonar, ele encontraria uma solução para ver as imagens. Devo-lhe imenso, como explico no texto, foi de uma dedicação sem limites, confessou-me que fez muitas vezes um esforço enorme para não se zangar com a minha hiperatividade, com tantas obras nos quartéis de Missirá e Finete, emboscadas e aquelas malditas viagens quase diárias a Mato de Cão. Agora somos octogenários, um tanto especiais, não falámos das maleitas, mas das lembranças da Guiné.

Um abraço do
Mário



Memórias do meu braço direito no PEL CAÇ NAT 52, em Missirá e Bambadinca:
O Furriel João Manuel Sousa Pires


Mário Beja Santos

Quando cheguei a Missirá e Finete, em 4 de agosto de 1968, os meus colaboradores diretos no Pelotão de nativos eram os Furriéis Saiegh e Ferreira, estavam de partida até ao final do ano. No ano seguinte, a conta-gotas, chegaram os furriéis Sousa Pires, Luís Casanova e Pina.

Depois de muitas promessas para encontros prometidos, em 4 de setembro de 2025 houve nova troca de recordações ao vivo, antes pedi-lhe para trazer os seus álbuns e licença para fotografar algumas imagens, o que me foi concedido.

Voltei a dizer em João Sousa Pires que lhe estava profundamente grato, dera-me uma ótima colaboração, apoiara-me em momentos decisivos, por exemplo, contava sempre com ele para as contas e pagamentos, a burocracia dos autos de abate, a resposta expediente, até as escalas de serviço. Nunca esqueci o apoio indefetível que me deu quando caí na cama e o médico do Batalhão, David Payne Pereira, determinou que eu ficasse vários dias no estaleiro, socorri-me do Sousa Pires para mandar correio à família; também ele me apoiou do princípio ao fim quando me foi aplicada uma pena de dois dias de prisão simples, esbracejei junto de todas as instituições militares possíveis, isto independentemente de, na data em que era punido, o comandante do Agrupamento de Bafatá me louvava e me dava como exemplo pela mentalidade ofensiva e de liderança das forças a meu cargo.

O João Sousa Pires desembarcou em Bissau em setembro de 1968, foi colocado temporariamente na CCS do Quartel-general, deram-lhe trabalho no Serviço Postal Militar, só mais tarde é que foi despachado para o regulado do Cuor, começou aí uma cooperação que forjou a minha estima e elevada consideração pelo apoio que dele recebi.

Só nesta conversa é que me apercebi que ele estivera mobilizado para Moçambique, nas marchas finais, numa noite escura como breu espetou-se no arame farpado de uma propriedade rústica, estatelou-se e fraturou o ombro, hospitalização no Porto, regresso a Tavira e daqui mobilização para a Guiné. Fez-me companhia em Bambadinca até qualquer coisa como junho de 1970, foi então destacado para a secretaria do BART 2917, eu regressei em agosto e ele em outubro. Foi com maior satisfação que lhe redigi um louvor que lhe foi dado pelo Comandante do Batalhão.

Fotografei algumas imagens alusivas aos nossos tempos, tenho muito orgulho que fiquem no blogue:

Este era o nosso balneário primitivo, espaço tenebroso, aquelas chapas afiadas ensanguentaram muita gente, meses depois o Batalhão de Engenharia forneceu um novo conjunto de bidões e mandou material para renovarmos o balneário, entretanto chegou sanita e criou-se um espaço sanitário que acabou com a degradação da fossa. Quando fui castigado com dois dias de prisão simples, bem aleguei, mostrando cópias da documentação que mandava para Bambadinca, que pedia materiais para renovar o quartel, grande parte dos abrigos estavam podres, nada feito. Foi preciso haver a destruição de 19 de março de 1969 e eu ter ido a Bissau para fazer uma operação que me permitiu uma conversa com o Capitão Rui Gamito e o Alferes Emílio Rosa, ganhei uma carrada de materiais e duas grandes amizades, entre os benefícios veio o novo balneário.
Este espaço era conhecido pelo nome pomposo de parada, por detrás do Sousa Pires estava o abrigo do morteiro 81 e as suas granadas encaixotadas, era aqui que eu trabalhava nas noites de flagelação auxiliado pelo Cabo António da Silva Queirós, ele metia uma braçadeira resistente às altas temperaturas e ali estávamos até a força do PAIGC nos deixar em paz.
Não escolhi esta fotografia por mero acaso. O Sousa Pires pousou para a fotografia no limite do porto de Bambadinca o que permite ver ao fundo uma canoa no Geba a caminho da bolanha de Finete, havia depois um caminho acidentado com cerca de quatro quilómetros, enchíamos o burrinho (Unimog 411) com os nossos haveres, primeira paragem Finete, dezasseis quilómetros depois Missirá. Quando voltei pela primeira vez a Missirá, vinte anos depois, tinham encerrado aquele caminho, tudo se resolvera com uma ponte a atravessar até Bambadinca, chegava-se a Finete de autocarro, mota, bicicleta, automóvel, camião, mas nada de atravessar a bolanha de Finete.
Não é a primeira vez que aqui se publica esta imagem, não escondo que me comovo profundamente quando a revejo. É dia de Natal de 1969, no ano anterior, nesse mesmo dia, vivi a festa mais emocionante que a vida me proporcionou, irrepetível. Neste ano estamos na ponte do rio Undunduma, um dos sítios mais horríveis pelas condições deploráveis, pelos riscos de ali estar sem os meios de defesa combatíveis. Fui tomar banho ao rio, chegou o condutor com a comida e também se foi molhar, é ele que está à direita. Estes são os meus fiéis companheiros, Sousa Pires está no centro, o Alferes encolheu-se, não se quer mostrar em cuecas, exibe despudoradamente a patorra de quem calça 45, feliz pela companhia, tristonho na relembrança, a generalidade destes homens já partiu para as estrelinhas, mas eles só morrerão quando deles não se falar, por isso deixei o nome de todos eles escrito num dos meus livros.
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Nota do editor

Último post da série de 22 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27845: (De)Caras (245): cap inf Carlos Alberto Cardoso, cmdt, CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e S. Domingos, 1967/69): levou a esposa, tal como pelo menos três outros oficiais

segunda-feira, 23 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27850: Notas de leitura (1907): "Os Descobrimentos Portugueses, Viagens e aventuras", I volume, por Luís de Albuquerque, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Editorial Caminho, 1991 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Não resisti a fazer uma recensão ao volume I do bem-sucedido projeto em que estiveram envolvidos o eminente historiador Luís de Albuquerque e duas escritoras consagradas principalmente na chamada literatura infantojuvenil, mas que também atingem outras camadas jovens. 

Será o caso deste livro aliciante na escrita, bem ilustrado por Emílio Vilar, descreve acontecimento históricos numa linguagem altamente acessível, com boas tábuas cronológicas e ilustrações de navios e instrumentos de navegação, mostrando igualmente os primeiro navios portugueses, as armas e as armaduras que se usaram na conquista de Ceuta, etc. 

É evidente que possuímos boas histórias dos Descobrimentos Portugueses, mas nada se compara com este projeto que aponta para as camadas mais jovens, não foi por acaso que esteve incluído no Plano Nacional de Leitura. Leitura oportuna para os nossos netos, digo-vos eu.

Um abraço do
Mário



O grande talento de saber contar a jovens a saga dos Descobrimentos Portugueses

Mário Beja Santos

Um eminente historiador, o Professor Luís de Albuquerque, duas notabilíssimas escritoras do infantojuvenil, e muito mais, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, um ilustrador altamente qualificado, Emílio Vilar, entraram numa aventura que comportava tremendos riscos de insucesso: fazer uma História dos Descobrimentos Portugueses sugestiva para as camadas mais jovens. Assim surgiu "Os Descobrimentos Portugueses, Viagens e aventuras", I volume, Editorial Caminho, 1991.

“Concebemos uma estrutura simples e incluímos alguns aspetos geralmente omissos como, por exemplo, armas e instrumentos musicais utilizados na conquista de Ceuta, povos que habitavam no Norte de África, peripécias curiosas que por um motivo ou por outro não passaram à História. E pusemos de lado certos mitos que falseiam a verdade. Decidimos ainda escrever para cada período aquilo a que chamamos ‘Uma história possível’. Essas histórias, embora enquadradas nos parâmetros da época, são pura ficção. Destinam-se a permitir ao leitor um contacto mais direto com outras maneiras de viver, sentir, de pensar. Fizemo-las porque entendemos que o relato de conquistas, viagens e aventuras proporciona uma ‘visão exterior’ e as ‘histórias possíveis’ de uma ‘visão interior’ dos Descobrimentos Portugueses.”

O renomado historiador e as duas grandes escritoras ganharam a aposta, é um livro invulgar em termos didático-pedagógicos, assim até apetece aprender. E vamos ao essencial das suas mensagens.

Primeiro, o que era o mundo antes dos Descobrimentos, para se sair do lugar onde se vivia era preciso navegar no mar alto. 

“E o mar era um grande desconhecido. Ninguém lhe sabia os limites. Ninguém lhe sabia os segredos. E quando assim é torna-se fácil inventar. As histórias que circulavam enchiam as pessoas de pavor e de espanto. O desafio começava para além da linha do horizonte, onde se imaginava existir a boca do Inferno, ondas gigantescas de água a ferver, remoinhos borbulhantes, monstros terríveis, sereias e tritões. Todas as estas coisas assustavam a faziam sonhar, de modo que uns se agarravam cada vez mais ao lugar onde viviam enquanto outros ansiavam partir ao encontro de tais maravilhas. Só no século XV começou a grande aventura que permitiu desvendar o mundo. A iniciativa coube aos portugueses.”

Segundo, enquadra-se Portugal nas vésperas da aventura, as supostas razões dadas para conquistar Ceuta, seguem-se desenhos sugestivos com as armas e armaduras no tempo da conquista de Ceuta, as bandeiras e os instrumentos musicais usados na guerra, conta-se como foram as primeiras viagens dos portugueses, como fomos às Canárias, Madeira e Porto Santo, como se processou o povoamento destas duas ilhas, seguiu-se o povoamento dos Açores, entremeiam-se histórias maravilhosas para prender a atenção dos jovens.

Terceiro, como se pensava e como se representava a Terra, em planisférios e livros de geografia e viagens, como foram as primeiras viagens ao longo da costa ocidental africana, como foi fundamental a passagem do Cabo Bojador; como, depois do desastre de Tânger, se avançou para o Sul. 

Em 1441, o Infante D. Henrique mandou armar um navio capitaneado por Antão Gonçalves, ele levava a incumbência de capturar lobos-marinhos, aproveitaram a circunstância para tentar capturar gente. Foi Antão Gonçalves quem fez os primeiros cativos na costa ocidental africana. Prosseguem as viagens, chega-se ao Golfo de Arguim, Lançarote de Lagos capturou 235 homens, mulheres e crianças. No seu regresso, fez-se a partilha em lotes equivalentes, o cronista Zurara dá-nos um relato dilacerante.

Quarto, o quadro das viagens abria as portas ao Novo Mundo, seguem-se as expedições à procura de novas terras e novas gentes, morreu Gonçalo de Sintra, comandava uma nova expedição ao golfo de Arguim, Dinis Dias atingiu o Cabo Verde, Nuno Tristão chegou ao rio Senegal; e tem lugar a primeira viagem pelo interior africano, no rio do Ouro, João Fernandes pôs-se ao caminho, regressou sete meses depois, trazia muitas histórias para contar.

Um veneziano, de nome Cadamosto, contacta o Infante, e partiu rumo ao Sul, visitou a Madeira, as Canárias, o Golfo de Arguim, a zona do Cabo Branco, o Senegal, o reino de Budomel, Cabo Verde continental, o rio de Barbacins, visita o reino de Budomel, irão ser achadas as ilhas de Cabo Verde. E faz-se um balanço dos Descobrimentos henriquinos. 

Enquanto isto se passa há mais conquistas no norte de África. Entra-se numa nova época no reinado de D. Afonso V, faz-se um contrato com Fernão Gomes, ele pode comerciar por aquela costa africana, mas foi comprometido a descobrir pelo menos 100 léguas de costa por ano. Os seus navios descobriram a faixa de terra desde a Serra Leoa até ao Cabo de Santa Catarina, incluindo as ilhas de São Tomé e Príncipe e Fernão do Pó. Edifica-se o Castelo da Mina.

Quinto, é época dos Descobrimentos joaninos, as viagens de Diogo Cão, os contactos com o Reino do Congo, a Viagem de Bartolomeu Dias e a descoberta da passagem para o Índico. Inevitavelmente que se fala do gigante Adamastor e vamos saber um pouco mais quem eram Diogo Cão, Diogo de Azambuja e Bartolomeu Dias, não é esquecida a viagem venturosa de Pêro da Covilhã.

Neste tempo já há outros intervenientes à procura de comércio e riqueza pelo mar fora. Cristóvão Colombo, ao serviço dos Reis Católicos, atingiu em 1492 as ilhas da América Central e convenceu-se de que chegara à Índia. Surgiram delicados problemas político-diplomáticos entre D. João II e os Reis Católicos. O desfecho para resolver todas as tensões foi o Tratado de Tordesilhas, em 1494, Portugal e Espanha dividiram o mundo ao meio, ficando metade para cada um. 

No século XV, os monarcas ibéricos sentiam-se no direito de proceder assim e não reconheciam a nenhum outro país a autoridade para lhes disputar o Novo Mundo: todas as terras descobertas a oriente pertenceriam a Portugal, e as terras descobertas ao ocidente pertenceriam a Castela. 

“No Tratado ficou escrito também que astrólogos e pilotos se deviam deslocar à zona de demarcação, viajando os espanhóis em navios portugueses e os portugueses em navios espanhóis. Se por acaso lá houvesse alguma ilha ou ‘ponta de terra firme’, construía-se uma torre ou muralha que marcasse o limite de forma bem visível. Incluiu-se também uma cláusula autorizando os navios espanhóis a circularem pelo mar português para se dirigirem À zona que lhes coubera.”

Finda este belíssimo livro que pertenceu ao Plano Nacional de Leitura referenciando navios e instrumentos de navegação e fazendo-se um balanço dos Descobrimentos joaninos e temos ainda uma cronologia que vai do reinado de D. Dinis ao reinado de D. João II. O II volume deste belo empreendimento foi também publicado na Editorial Caminho em 1996, inevitavelmente começa com a viagem de Vasco da Gama.

Doutor Luís Albuquerque
Isabel Alçada
Ana Maria Magalhães
O Castelo da Mina
Os primeiros contactos
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Nota do editor

Último post da série de 20 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27840: Notas de leitura (1906): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (7) (Mário Beja Santos)

sábado, 21 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27843: Os nossos seres, saberes e lazeres (727): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (248): Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Não sei que preguiça me deu para não ter oportunamente dado uma notícia útil sobre este acontecimento cultural de gabarito que foi a exposição dedicada a Rogério Ribeiro e o neorrealismo intitulada Fazer Crescer a Vida, que estava patente no Museu de Vila Franca de junho a outubro do ano passado. Mais absurdo ainda é o meu comportamento por ter voltado mais duas vezes para desfrutar da arte do mestre que tanto venero. O Museu contou com o património em poder dos herdeiros de Rogério Ribeiro onde está este labor de sua juventude e que comprovam que o artista plástico só tinha por cânone as representações de um povo. O seu ativismo social assim se exprimiu, ele é um companheiro de ideias neste período de comunistas e homens sem partido que agitavam a bandeira do realismo social. Vendo estes trabalhos, sente-se já a sua grande abertura a experiências, tudo o que se irá metamorfosear na cerâmica, na litografia e linogravura, nas artes da gravura, no desenho de ilustração, algo culminará num projeto maravilhoso que ele dirigiu no Almada velho, a Casa da Cerca.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (248):
Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 1


Mário Beja Santos

Tenho uma profunda admiração por todo o legado artístico e poder criador de Rogério Ribeiro (1930-2008). Quando era responsável por uma página inteira do Jornal de Notícias, nos tempos do grande formato, havia uma secção dedicada a eventos artísticos e culturais a quem eu reconhecia confluência para os arquétipos da sociedade de consumo de massas; entrevistei então Rogério Ribeiro que dirigia a Casa da Cerca, hoje um património cultural de onde se tem, a partir do Almada velho, a mais bela vista de Lisboa fora de Lisboa. Mestre Rogério Ribeiro distinguia-se pela construção de um património artístico, onde primava uma importantíssima coleção de desenho contemporâneo, a realização de exposições envolvendo grandes figuras da arquitetura e das artes plásticas, isto num ambiente envolvido pelo chão das artes, isto é, uma natureza viva onde está implantada alguma da matéria-prima com que os artistas plásticos trabalham, enfim, uma originalidade na articulação da natureza com a arte feita pelo homem.

Decorreu no Museu do Neorrealismo uma exposição intitulada Fazer Crescer a Vida, Rogério Ribeiro e o neorrealismo, aconteceu entre finais de maio e outubro do ano passado. A tudo assisti na inauguração, uma apaixonante apresentação feita por David Santos, o diretor científico da casa, lá voltei duas vezes, e sabe-se lá por que negligência ou inércia fui demorando a intenção de pôr por escrito a chamada de atenção para este acontecimento cultural de gabarito, ainda por cima acompanhado de um catálogo de referência. Penitencio-me da minha falta, o que se segue não passa de uma tentativa de redenção.

Naqueles anos de 1950, eram múltiplas e divergentes as vanguardas artísticas, os princípios ideológicos primavam ou eram contestados. Houvera a rotura com o figurativismo graças ao cubismo, ao futurismo, ao construtivismo, ao expressionismo e o abstracionismo; entrar em cena uma estética figurativa assente num outro modo de ver o realismo, aí assentaram artistas do comunismo e do socialismo, ou não comprometidos explicitamente, mas companheiros de ideias. Um realismo social que conheceu debate interno, aconteceu em Portugal no fim da década com a chamada polémica interna do neorrealismo, isto numa altura em que também se impunham novas correntes estéticas, caso do surrealismo e as expressões abstratas. Rogério Ribeiro era então um jovem artista que irá abraçar o real, será tocado do trabalho dos sargaceiros e das sargaceiras.

Como se escreve no catálogo, ele cumpre em 1951 e em 1952 serviço na Administração Militar da Póvoa de Varzim. Nas praias da região observa a recolha do sargaço, trabalho duro que do mar recupera algas e limos para fertilizar as terras agrícolas. Tais atividades irão preencher um dos módulos da exposição intitulado Mar e Sargaço. A imagem da capa do catálogo é exatamente uma sargaceira, olha-nos de frente, como se tivesse interrompido o trabalho árduo, exibe umas mãos quase másculas, excessivas, o que nos remete para a dimensão dos volumes físicos desproporcionados, caso de O Gadanheiro, pintura de Júlio Pomar.

O que podemos apreciar é que o artista não está confinado a um só cânone, o conteúdo, a grande mensagem é o trabalho e em que condições, ele não se limitará ao óleo ou ao desenho, espraia-se pela cerâmica, pelas ilustrações, será um grande animador da gravura, um apaixonado pela linogravura e litografia, um eterno experimentador da ilustração. O conteúdo é sempre o povo, acrescenta-se aos gestos quotidianos do trabalho o lazer, há uma linha poética constante, entre a vitalidade desses trabalhos duros, como ele revela com as debulhadoras, os construtores de naus, a apanha da azeitona. Pois bem vamos entrar num território de mar e sargaço.

Texto sobre o módulo Mar e Sargaço
Temos pescadores, mulheres cosendo redes, sargaço e sargaceiras, naus, e falando de naus veja-se a agilidade das formas, é uma plasticidade que nos remete para um traço que torce e retorce e distorce, mas que não nos deixa olhar hesitante, são mesmo barcos.
Falando sobre o seu pai, e quanto ao período de 1947-1953, a filha, Ana Isabel Ribeiro, revela documentos do pai sobre este período. Retenho só um parágrafo:
“A convicção da possibilidade de a pintura poder, em determinados momentos, como os revolucionários, ser portador de um sentido aglutinador e mobilizador de vontades, foi algo que o meu pai jamais esqueceu. Foram dezenas os murais que pintou com outros artistas, um pouco por todo o país, após a revolução do 25 de abril. Lembro-me bem dos baldes de água que lhes levava para poderem lavar os pincéis, ou de quando perguntava ao meu pai o que podia fazer, e ele me passava uma trincha para as mãos e dizia: ‘Enche isso aí de azul!’.” Retive este parágrafo porque acho que há qualquer coisa de muralista nas debulhadoras acima, como iremos depois ver em pastores e podadores e mondadeiras, é uma verdadeira épica pastoril onde não se esconde a apologética do social.

Texto que abre a secção Terra e Campesinato

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 14 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27821: Os nossos seres, saberes e lazeres (726): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (247): A câmara clara e a câmara escura de manhã ao anoitecer: Acasos e descasos de exultação do fotógrafo remendão (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 20 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27840: Notas de leitura (1906): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (7) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Aqui se discorre sobre os antecedentes do Ultimatum, a precariedade dos nossos argumentos para defender o Mapa Cor-de-Rosa, o corolário de tensões e hostilidades, a importância de personalidades como Livingstone ou Cecil Rhodes que tudo fizeram para denegrir o nosso argumentário, as tensões chegaram ao rubro com a expedição de António Maria Cardoso ao Niassa e a expedição de Serpa Pinto que teve de empregar a força para se defender dos Makololos assim se chegou ao dia e a hora da humilhação que o Ultimatum provocou, a reparação diplomática só chegará a 27 de junho de 1891 com o Tratado que irá demarcar as fronteiras anglo-portuguesas; aqui se discorrerá também sobre as relações luso-alemãs e depois o regime dos Prazos e em implantação de companhia de teor majestático na África Oriental Portuguesa. A etapa seguinte será dedicada aos tempos da ocupação e uma vez mais o Marquês do Lavradio mostrará como era pura falácia andarmos a falar que estávamos há 500 anos em África.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 7

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi ditado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência.

Caminhamos agora para a Conferência de Berlim. Cecil Rhodes trabalhara bem para ter o máximo de apoio de Londres para gerar ambições não só no Zambeze nem na África do Sul, mas para encontrar apoios para negócios que podiam ir desde a cidade do Cabo ao Cairo. Não se pode dizer que Portugal estivesse inteiramente inativo, prosseguiam as viagens científicas, fora assinado o Tratado de limites com o Transvaal, fizera-se a concessão do Caminho de Ferro Lourenço Marques, foram criados os distritos de Manica e Zumbo, pacificava a Zambézia, por exemplo. Lutava-se contra o tempo. A Conferência de Berlim iria estipular quais as condições essenciais para as novas ocupações do continente africano e como elas seriam consideradas efetivas. As tensões com os britânicos eram permanentes.

O Governo britânico, logo que tivera conhecimento do mapa cor-de-rosa anexo aos Tratados português-francês e português-alemão de 1886, reclamara contra este espaço colorido compreendendo toda a região que se estende entre Angola e Moçambique, não reconhecia a soberania portuguesa nestes territórios, as relações diplomáticas agravaram-se dia-a-dia. A expedição de António Maria Cardoso ao Niassa, destinada a firmar influência portuguesa na região, veio dificultar as negociações; a expedição de Serpa Pinto foi olhada com desconfiança, multiplicaram-se os incidentes.

Em março de 1889, o Major Serpa Pinto saiu de Lisboa com destino à África Oriental, levava a missão de firmar o nosso domínio em território dos Makololos, conquista que se deve a João de Azevedo Coutinho. Novos protestos britânicos. O Ministro dos Negócios Estrangeiros Barros Gomes apelou para arbitragem, propondo que a contenda fosse decidida pelas potências signatárias da Conferência de Berlim; o Governo britânico estava escaldado com as arbitragens que tinham sido favoráveis a Portugal tanto na questão de Bolama como na de Lourenço Marques, preferiam entregar à força, e assim surgiu a nota de 11 de janeiro de 1890 que respondia à proposta de Barros Gomes, estava declarado o Ultimatum, era completa insensatez tentar resistir à primeira esquadra do mundo que tinha já concentrado navios em Zanzibar, Gibraltar e nas águas de Cabo Verde, resistir traria como consequência a perda de Cabo Verde, de Lourenço Marques e igualmente de todo o Moçambique. Seguir-se-ão negociações difíceis e demoradas, dar-se-ão numerosos incidentes na Europa e na África, o Tratado que demarca as fronteiras anglo-portuguesas será assinado em 27 de junho de 1891.

Importa vir um pouco atrás para perceber um outro nível de contenda, as ambições imperiais alemãs. Aquando da questão do Zaire, procurou-se definir diplomaticamente com Berlim o limite meridional da possessão portuguesa de Angola. Os alemães propunham em 27 de junho de 1886 um convénio nas seguintes bases: traçar-se uma linha que partindo da foz do Cunene, seguisse pela margem esquerda o curso deste rio até a um ponto fronteiro ao domínio português do Humbe, até chegar ao Zambeze, proposta considerada inaceitável por Portugal que apresentou uma contraproposta que naturalmente não agradou os alemães. A diplomacia portuguesa lembrava que a região do Cubango fora explorada por Serpa Pinto, Capelo e Ivens, houvera recentemente uma expedição militar que consolidara o domínio português Cunene e Cubango até à região dos Ambuelas.

Em 30 de dezembro desse ano assinava-se em Lisboa o Tratado que delimitava as possessões portuguesas-alemães na África Oriental, garantia-se a Portugal a livre expansão comercial nos territórios situados entre as duas províncias de Angola e Moçambique. Como se procurou pormenorizar, o Ultimatum deitou por terra o sonho português.

Uma das consequências da Conferência de Berlim deixava claro que já não era possível continuar a possuir centenas de quilómetros quadrados africanos sem nada fazer, impunha-se um plano colonial, mostrar às outras potências que éramos capazes de dominar o que era nosso, de civilizar o que descobríramos. Era na Costa Oriental que a nossa ação mais necessária se tornava, até porque era aí que as ambições estrangeiras mais se faziam sentir.

Os territórios da antiga Capitania dos Rios de Sena haviam sido divididos no século XVII em grandes porções, denominadas prazos, distribuídos ou concedidos a particulares, com o fim de povoar e enriquecer a Capitania, desenvolver a sua agricultura e aumentando a sua população. Os prazos não deviam ter mais de três léguas quadradas e o concessionário devia residir na Província, os filhos sucediam nos prazos dos pais. A lei não foi cumprida, a fazenda pública ficou seriamente afetada. O autor desvela as trafulhices cometidas. Em vista de tais arbitrariedades, tornava-se indispensável acabar com um sistema tão vicioso, em dezembro de 1854 um decreto abolia o antigo regime dos Prazos da Coroa.

Os Prazos passaram a ser concedidos por arrematação em hasta pública, por um espaço de tempo mais ou menos limitado, e os arrendatários deviam cultivar áreas de terreno proporcionais ao número de indígenas que habitavam os Prazos. O autor não deixa de tecer um elogio a resultados havidos no antigo regime dos Prazos:
“Não deixaremos de notar que ao regime dos Prazos deve a Zambézia o desenvolvimento de uma admirável colónia agrícola, que é a esse regime que se devem os maiores palmares do mundo assim como os maiores campos de cana sacarina e que à sombra desse regime se criou a mais bela obra económica da Província de Moçambique.”

Ao tempo em que o autor escreveu este livro o regime de Prazos já fora abolido. Ao tempo da alteração do regime de Prazos atrás referida havia uma atmosfera favorável à criação de companhias majestáticas. Foram criadas algumas que faliram por falta de capital. Em 1891 concedeu-se à Companhia de Moçambique a administração e exploração dos territórios entre o curso do rio Zambeze e a fronteira do distrito de Tete, faz o autor o reparo sem esta companhia os territórios de Manica e Sofala não teriam tido o desenvolvimento que hoje (década de 1930) têm. Também no ano de 1891 foram concedidos à Companhia do Niassa direitos majestáticos e no ano seguinte concedeu-se à Companhia da Zambézia a administração dos Prazos da Coroa.

Na Costa Ocidental não se seguiu nem o regime dos Prazos nem o das companhias majestáticas, mas sim um sistema de concessões mais ou menos extensas que deram lugar à formação de companhias ou à exploração de terrenos por simples particulares.

O autor irá seguidamente debruçar-se sobre a época da ocupação, vai deixar bem claro que custou sangue, suor e lágrimas, deixando também demonstrado como era pura mistificação o argumento imperial insistentemente teclado durante o Estado Novo de que estávamos em África há 500 anos.

D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)
Imagem alusiva aos debates sobre a questão do Congo, marcam preponderância da Bélgica e das ambições francesas, britânicas e alemãs.
Mapa de África em 1886, fazem-se referência às expedições e à questão da Bacia do Congo, veja-se a superfície que então se atribuía a Angola e Moçambique.

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 13 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27818: Notas de leitura (1904): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (6) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 16 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27826: Notas de leitura (1905): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (6) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 19 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27836: Antologia (101): "Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", a publicar brevemente (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Março de 2026, trazendo em anexo um texto intitulado "Agradecimentos e Dedicatória", no qual reproduz as razões curriculares que o conduziram ao lançamento do seu próximo livro "Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", cuja data de lançamento será anunciada oportunamente.


Agradecimentos e dedicatória

Permita-me o leitor que reproduza no Tomo II as razões curriculares que me conduziram a este empreendimento, tal como as escrevi na obra anterior:

O país que é hoje a Guiné-Bissau foi o local onde combati entre 1968 e 1970, matéria que tratei em dois volumes diarísticos, agradecendo penhoradamente as lições recebidas do povo amável com quem convivi, nomeadamente nos regulados do Cuor e Bambadinca; motivado por conhecer melhor os antecedentes deste território em décadas anteriores, meti mãos a um outro empreendimento, uma digressão um tanto romanesca à volta das memórias de uma nonagenária que casou com um administrador colonial, nos alvores da década de 1950 e conheceu os primeiros sinais da insurreição, assim escrevi A Mulher Grande; participante regular naquele que é, sem margem para dúvida, o blogue mais influente para antigos combatentes na então Guiné Portuguesa, Luís Graça & Camaradas da Guiné, senti impulso de ali regressar para me despedir dos meus soldados guineenses, e assim urdi A Viagem do Tangomau; ao longo desses anos de íntima relação com a realidade guineense, fui também procurando ler tudo quanto era literatura da guerra colonial, fundamentalmente do lado português – assim nasceu Adeus, Até ao Meu Regresso.

Os anos passavam, a Guiné continuava sempre presente, no coração, na memória, no desejo de melhor compreender o seu passado e até os seus tempos atuais. Em parceria, enveredei numa tentativa de fazer o arco cronológico entre dados fundamentais da Guiné Portuguesa até à Guiné-Bissau, assim nasceu o livro Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: Um Roteiro. Estava dado o balanço para intensificar as pesquisas, nos anos seguintes apareceram as História(s) da Guiné Portuguesa e História(s) da Guiné-Bissau.

Quis um feliz acaso que batesse à porta do então Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino (de saudosa memória) em busca de um livro ricamente ilustrado, fui não só compensado por o ter folheado demoradamente como surgiu a oportunidade de ter acesso a documentação inédita, e assim escrevi Os Cronistas Desconhecidos do Canal de Geba: O BNU da Guiné. A saga teve uma nova deriva, encontrei num alfarrabista o livro de um poeta popular, antigo combatente na Guiné, ali fez comissão entre 1963 e 1965, o seu poema galvanizou-me e deu-me a ideia de escrever um livro em que ia respondendo taco a taco às suas itinerâncias desde a recruta à passagem à disponibilidade, de novo aproveitei referências da imensa literatura produzida sobre aquela guerra, desde romance, conto, novela, poesia, memórias, e nesta parceria foi dada à estampa Nunca Digas Adeus às Armas.

Mais recentemente, novo surto para a deriva romanesca, desta feita na cidade de Bruxelas dois cinquentões apaixonam-se, ele vai regularmente a esta sede europeia, ela é intérprete e aceita o repto de passar a escrito as memórias de guerra, cronista amorosa num romance feito fundamentalmente de cartas, Rua do Eclipse, a Guiné atravessa-se nas suas vidas, do princípio ao fim.

Quando tudo levava a crer que estavam esgotados os filões sobre a Guiné, apareceu de rompante um projeto um tanto ambicioso: elaborar, por seriação do século XV ao século XX, um género de antologia com peças umas determinantes outras possuidoras de vigor testemunhal, sobre a presença portuguesa desde o tempo em que os navegadores e cartógrafos denominavam a região por nomes inconclusivos e até bizarros como Etiópia Menor, Rios da Guiné de Cabo Verde, Terra dos Negros ou Senegâmbia, termo que curiosamente foi usado e abusado até ao século XIX, sobretudo para referir uma costa ocidental africana entre o Cabo Verde e a Serra Leoa. Devo advertir o leitor que muitos outros textos aqui poderiam caber, mas creio não ter omitido intencionalmente nenhum que me tenha parecido essencial para a natureza desta obra de divulgação.

Esta antologia decorre de um processo laborioso, escrevi bastantes textos, de forma avulsa e um tanto ao corroer da pena no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, recebi sugestões de mãos amigas, caso dos investigadores António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias, um sem número de sugestões; jamais poderia esquecer as ajudas ou propostas de leitura que recebi da Helena Teotónio Pereira, então à frente da biblioteca do CIDAC, um espaço onde há relevante documentação histórica, e o mesmo podia dizer dos incentivos que tive no Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino (de saudosa memória); não esqueci a estimulante parceria que tive a felicidade de encontrar para escrever Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: Um Roteiro e também naquele outro livro a quatro mãos Nunca Digas Adeus às Armas.

Sendo eu um infoexcluído, tive a dita de receber uma admirável prestação na colaboração de Linda Sioga, vai para mais de três anos que andamos em belíssima colaboração intermediada pelo Skype/Teams. Naturalmente que agradeço e a junto a esta dedicatória.

Este livro, tal como o anterior, é dedicado a todos aqueles que se iniciam num estudo das relações luso-guineenses, seja em que local for; bem gostaria de lhes ser útil, porventura abrindo-lhes portas, dando-lhes dicas, o que aqui aparece ordenado pela cronologia de há muito foi investigado, ou nunca obteve tratamento público, caso dos documentos que consultei nos Reservados da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa. Dedico, igualmente, o livro a duas figuras da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, Helena Grego e José Carlos Silva; ao longo de todos estes anos em que frequento tais instalações históricas, possuidoras de fascinante documentação, eles tudo têm feito para ter acesso a livros, revistas, relatórios, e, fundamentalmente, a papelada que consta dos Reservados, aqui encontrei textos fervilhantes ou esclarecedores, que o leitor agora vai encontrar deste período histórico em análise dos séculos XIX e XX.

A minha dívida com estes bibliotecários é impagável. Tanto mais que quando disse à Dr.ª Helena Grego que chegara ao fim da linha, nada mais havia para remexer nos arquivos, depois deste tomo II, ela desenganou-me: “Nem pense, agora vai começar a ler o Boletim Oficial do Governo Geral de Cabo Verde e depois o Boletim Oficial da Guiné, Colónia e Província, tem ali trabalho para os próximos anos.”
É o que presentemente está a acontecer, pelas minhas contas será o adeus neste vasculhar que levo à presença portuguesa na Guiné entre meados do século XV e primeiro quartel do século XXI.

"Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo I, A Presença Portuguesa na Senegâmbia", de Mário Beja Santos, lançado em Setembro de 2024(*)
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Nota do editor

(*) Vd. post de 10 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26371: Agenda cultural (876): Apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade", de Mário Beja Santos, dia 13 de Janeiro de 2025, pelas 14h30, na Livraria Municipal Verney, Rua Cândido dos Reis, 90 - Oeiras

Último post da série de 20 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27652: Antologia (100): Uma caçada ao elefante em... Canjambari há mais de 100 anos (Conto publicado em "O Mundo Português", em 1936, da autoria de Artur Augusto Silva, 1912-1983)

quarta-feira, 18 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27834: Historiografia da presença portuguesa em África (521): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1964, 1.º semestre (79) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Se bem que ainda com a separação de Governador de Comandante-Chefe, o Boletim Oficial não escamoteia novas realidades advindas da luta armada. São cada vez mais existentes os créditos extraordinários e o reforço de verbas, o elenco de louvores atribuídos por Vasco Rodrigues revelam a intensidade da luta armada, sobretudo no sul, mas também no norte. Quanto ao mais, crescem os serviços, o Boletim Oficial não para de engordar pois a legislação promulgada pelo Ministério do Ultramar contempla todas as parcelas, há concursos, nomeações de autoridades gentílicas e outras mais, a produção de mancarra passa a ser mais vigiada, intensifica-se o controlo policial dos hotéis às casas de pasto, cresce igualmente a vigilância nas migrações, o estado de sobressalto é enorme. Procurei através da leitura do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa ver se encontrava alguma explicação cabal para a partida de Vasco Rodrigues, que governou a Guiné durante 16 meses. Lê-se nos discursos de despedida que os quadros da administração, o setor comercial e outros ficaram surpresos com a decisão de Lisboa, a pequena elite guineense sentia-se bem com Vasco Rodrigues, porventura o conflito com o Comandante-Chefe passava-lhes à margem.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1964, 1.º semestre (79)


Mário Beja Santos

1963 é o primeiro ano da luta armada, a economia e o sistema financeiro da Guiné revelam debilidades que ninguém suspeitava. Para colmatar défices sucessivos, o Boletim Oficial refere com frequência o reforço de verbas, créditos especiais e o II Plano de Fomento inclui tabelas extraordinárias que constituem recursos para financiamento de programas: verbas para projetos de agricultura, silvicultura e pecuária, eletricidade e indústrias, comunicações e transportes, instrução, equipamento dos serviços públicos.

O Boletim Oficial n.º 1, de 4 de janeiro, insere a Portaria n.º 1609, prende-se com a necessidade de adensar a ocupação administrativa, são criados postos administrativos. No concelho de Catió em Tombali, com sede na povoação do mesmo nome; Como, com sede na povoação de Cauane, abrangendo todo o território da ilha do Como; Cabedú, com sede na povoação do mesmo nome, desintegrado da área do posto administrativo do Bedanda; Guileje, com sede na povoação do mesmo nome, desintegrado da área do posto administrativo do Bedanda. Na Circunscrição de Fulacunda: em Forreá, com sede na povoação da Aldeia Formosa, desintegrada da área do posto administrativo de Buba; Darsalane, com sede na povoação do mesmo nome, abrangendo parte do território da península de Cubisseco, desintegrado da área do posto administrativo de Cubisseco. Como se vê as decisões políticas já aparecem marcadas pela ilusão da ocupação do território.

Em 11 de abril, constante do Boletim Oficial n.º 15, anuncia-se a chegada de um chefe de Brigada da PIDE e da apresentação de dois radiotelegrafistas da mesma corporação. É patente o poder de que o Governador dispõe de nomear ou promover autoridades gentílicas, nesse mesmo Boletim Oficial são nomeados José de Sá, Regedor de Bissá, do regulado de Biombo, alferes de 2.ª linha e Amadu Baldé, alferes de 2.ª linha, promovidos a tenentes de 2.ª linha. Também é nomeado o chefe geral dos Mancanhas de Bissau, Cambanco Sanca, natural de Có, e residente nesta cidade nomeado alferes de 2.ª linha.

No Boletim Oficial n.º 17, de 25 de abril, atenda-se ao significado da Portaria n.º 1639, onde se diz que se encontrava dispersa a legislação que regulava o funcionamento dos hotéis, pensões, restaurantes, tabernas e casas de pasto. E diz-se que na previsão do constante acréscimo populacional da província, nomeadamente da cidade de Bissau, se venha a criar atividades comerciais, estas devem ficar sujeitas ao controlo policial. É assim aprovado o Regulamento Policial da Província da Guiné e pode ler-se que nenhum estabelecimento poderá abrir ao público ou funcionar sem que se tenha munido de uma licença passada pelo Comando do Corpo da Polícia de Segurança Pública, quando situado no concelho de Bissau ou pela autoridade policial respetivamente quando situado nos restantes concelhos.

Vejamos agora o Boletim Oficial n.º 17, de 29 de abril, o Governador, em vias de o deixar de ser louva gente com comprovada bravura e atos de heroísmo:
“Cumprida a sua missão na marinha privativa da Guiné, recolheu à metrópole o marinheiro fogueiro-motorista António da Silva Barroso. Como encarregado do navio-motor Corubal, cujas obras-vivas se achavam em estado deficiente, navegou em más condições de tempo e esteve sob acção de fogo intenso de grupos de terroristas, emboscados nas margens dos rios e canais do sul; nunca hesitou, contudo, em cumprir pronta e pontualmente todos os serviços que lhe foram determinados, dando exemplo vivo de como se enfrenta o perigo com simplicidade, valentia e decisão, e contribuindo valorosamente para que pudessem ser mantidas as carreiras regulares de navegação nas águas da província.” E recebe louvor.

Novo louvor: “No dia 17 de dezembro de 1963, quando conduzia a vedeta J dos Serviços da Marinha da província em operações de cooperação com as forças armadas, o patrão n.º 68 dos mesmos serviços, António da Silva, teve procedimento que se considera merecedor do relevo adequado. Devido a circunstâncias fortuitas a referida embarcação encalhou próximo do desembarcadouro de Fulacunda, ficando sujeita a nutrido tiroteio parte dos terroristas emboscados nas margens; foi, por isto, evacuada pelo pessoal que transportava, a fim deste procurar melhor abrigo. Todavia, o patrão manteve-se a bordo sozinho, em situação extremamente crítica e enfrentando graves riscos.” E recebe louvor.

Terceiro louvor: “No dia 21 de fevereiro de 1963, quando comandava uma diligência policial, foi mortalmente atingido, perto da povoação de Branol, área da circunscrição de S. Domingos, pelo fogo de um grupo de bandoleiros vindos do território vizinho, o Cabo da polícia administrativa Mamadu Conté.
Condecorado com a medalha de cobre de dedicação e mérito pela conduta que teve durante os acontecimentos de Ingorei, em 1949, o Cabo Mamadu Conté foi sempre um elemento de grande valor, cumprindo com acerto, decisão e lealdade todas as missões que lhe foram confiadas. É louvado e promovido a título póstumo ao posto de alferes de 2º linha.”


Quarto louvor: “No dia 21 de fevereiro de 1963, quando tomava parte numa diligência policial, foi mortalmente atingido, perto da povoação de Branol, área da circunscrição de S. Domingos, pelo fogo de um grupo de bandoleiros vindos do território vizinho, o guarda da polícia administrativa João Manjaco.
Considerado que o guarda João Manjaco, embora de recente nomeação, foi sempre activo, leal, cumpridor e disciplinado, e atendendo a que se declarou voluntário para o serviço em que viria a perder a vida, é louvado e promovido a título póstumo ao posto de Cabo.”


Quinto louvor: “A povoação de Fulacunda tem sido alvo de ataque de grupos terroristas na reacção aos quais é de salientar o comportamento da polícia administrativa, que vem atuando com firmeza, valentia e decisão. O Governador manda louvar os Cabos Artur Lamine Sané e Fodé Turé e os guardas de 2.ª classe Bucari Baldé, Abdulai Camará, Mamadu Candé, Mamadu Sera e Amadu Baldé, todos da polícia administrativa e em serviço da circunscrição de Fulacunda, pela firmeza, valentia e decisão que têm demonstrado no cumprimento dos seus deveres, revelando, de baixo de fogo, grande coragem, iniciativa e espírito de disciplina.”

Sexto louvor: “O administrador de posto Fernando Rodrigues Barragão vem exercendo, por substituição, as funções de administrador do concelho de Catió, em cujo desempenho evidenciou qualidades e prestou serviços que merecem ser destacados. Conhecendo bem todos os aspectos da função administrativa, da qual possui larga experiência, servido por inteligência lúcida, coragem, energia, decisão e desassombro, o administrador Barragão, a despeito das dificuldades decorrentes das condições de insegurança reinantes na sua área, desenvolveu actividade incansável na colheita e prestação de informações, na recuperação de populações, na salvaguarda de vidas e bens, na preparação e execução de medidas conducentes à melhoria da situação económica social do concelho que lhe está confiado.” E recebe louvor.

Sétimo louvor: “No dia 18 de julho de 1963, cerca da meia-noite, quando um numeroso grupo de terroristas atacou a sede do posto administrativo de Encheia, o respectivo administrador, José Avelino de Sousa, teve conduta corajosa pois, apenas coadjuvado por empregado comercial e por um guarda administrativo, repeliu pelo fogo os assaltantes, tendo capturado uma pistola metralhadora, além de outro armamento e munições, e causando ao inimigo um morto e vários feridos.” É louvado pelas notáveis qualidades de valentia.

Oitavo e último louvor: “O adjunto de administrador de posto Carlos Augusto da Cunha desempenhou, em grau de interinidade, por longo período e por forma que merce relevo o cargo de administrador do posto de Cubisseco.
Embora em condições extremamente difíceis, decorrentes da insegurança reinante na área que lhe esteve confiada, no cumprimento dos seus deveres, sendo muito de salientar o trabalho realizado para a protecção e recuperação das populações e as providências tomadas para alojamento e manutenção de quantos se acolheram à sede do posto. Os melhoramentos públicos tiveram nele um esforçado realizador, destacando-se o novo cais e respectivo acesso, a iluminação eléctrica de Empada, o prolongamento da avenida principal e a construção de casas para abrigar os que perderam as suas por acção dos terroristas.”
Louvor pela muita competência profissional, coragem e espírito de sacrifício.

Pelo Boletim Oficial n.º 22, de 30 de maio, foi aprovado o Regulamento para a atribuição do Prémio Revelador da Guiné, para galardoar os cidadãos portugueses que se distingam por atos de abnegação ou heroísmo, praticados na Guiné em defesa da integridade da Nação.

Ficamos em maio, juntamos junho ao 2.º semestre.

Partida do Governador Vasco Rodrigues, esteve na Guiné cerca de 16 meses
Chegada do novo Governador, Brigadeiro Arnaldo Schulz
Mancebo Felupe com um dos seus penteados característicos: cabelo empastado em azeite de palma e lama, formando uma carapuça, guarnecida de discos metálicos em cruz; no topo, um carro vazio de linha
Dançarino com a máscara Nimba
Rapariga Felupe com a dentadura limada
Armadura do tubarão serra
Mulher Pajadinca

Estas cinco imagens foram retiradas de números da Revista do Centro Cultural da Guiné Portuguesa, 1964

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 11 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27812: Historiografia da presença portuguesa em África (520): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1963, 2.º semestre (78) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 16 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27826: Notas de leitura (1905): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Faço juz ao intenso trabalho de pesquisa e leitura a que José Alvarez procedeu. A grandiosidade de Cabral supera o desastre que se seguiu, revela que aquela geração de políticos e guerrilheiros se revelou incapaz de pôr em prática um plano patriótico de desenvolvimento e de democracia participativa, mesmo quando esta, na ótica de Cabral, se aparentava a um tipo de democracia vigiada por uma elite dominante. 

Ele advertiu que a chegada a Bissau e o acomodamento da direção do PAIGC à atmosfera existente traria corrupção, vigarices, apadrinhamentos, uma completa adulteração das ajudas internacionais, como aconteceu. 

É expectável que este trabalho de José Alvarez suscite novos avanços na investigação e que esta não se confine exclusivamente tanto à luta nascionalista como aos acontecimentos da guerra colonial. Já passou o centenário de nascimento deste líder revolucionário, se podemos lamentar que poucas obras de estofo sobre Cabral foram editadas na efeméride, é de crer que este impulso dado por uma biografia romanceada abra caminho a novos olhares sobre o fundador da Guiné-Bissau.

Abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 6

Mário Beja Santos

Salazar toma a decisão de escolher um militar prestigiado para substituir o Governador e Comandante-chefe Arnaldo Schulz que regressara em abril de 1968, visivelmente doente e desmotivado. 

Em 19 de fevereiro desse ano, um grupo armado do PAIGC, chefiado por André Pedro Gomes e Joaquim N’Com atravessou o rio Mansoa perto de Bula e alcançou a proteção de arame farpado do aeroporto de Bissalanca, abriu fogo e atingiu edifícios aeroportuários e pistas. 

A conversa havida entre Salazar e Spínola consta de numerosa documentação, José Alvarez releva algumas das alegadas tomadas de posição de Spínola, bem como a sua exposição de motivos numa reunião havida na Cova da Moura.

Entretanto Salazar sofre um traumatismo craniano que o irá incapacitar por completo, ocorre, entretanto, em Madina do Boé, um julgamento em que Honório Sanchez Vaz e Miguel Embaná serão condenados à morte por provado envolvimento numa tentativa de negociar a rendição de vários elementos do PAIGC, sob o seu comando, e conversações havidas com um dirigente da PIDE. 

Chegado à Guiné, Spínola inicia uma serie de remodelações que inclui a atividade das tropas especializadas, surge a consigna Por Uma Guiné Melhor, no fundo uma vasta campanha para a conquista social das populações. A PIDE vai informando Spínola que existem divisões no seio do PAIGC, e que ela própria os incrementa. A questão cabo-verdiana continua a ser uma dor de cabeça para Amílcar Cabral, os soviéticos davam apoio militar ao PAIGC, mas reconheciam a inviabilidade de guerrilha no arquipélago.

O autor também põe em destaque o descontentamento de guerrilheiros guineenses quanto ao tratamento que Cabral dava aos cabo-verdianos, refere uma reunião havida em Ziguinchor em que já se pede a morte de Cabral. 

Dentro da nova lógica de só haver destacamentos onde há população civil, abandona-se Madina do Boé, toda a região do Boé fica despovoada, abrindo novas oportunidades a incursões do PAIGC, que irão surgir em 1970, o desastre de uma jangada no Corubal vitimou na região de Cheche quarenta e sete homens. 

No secretariado do PAIGC analisa-se a política de Spínola, a libertação de presos políticos, com Rafael Barbosa à cabeça, o apoio do Governador aos régulos e o aparecimento de um lema perigosíssimo “A Guiné para os Guinéus”

O Comité Executivo de Luta reúne-se em Conacri para analisar os efeitos da política introduzida por Spínola, recorda-se os efeitos sempre devastadores da Força Aérea, Cabral fala nos mísseis e nas unidades de artilharia antiaérea, reclama-se a presença do líder do PAIGC no interior do território, ao que Cabral responde que não há ninguém que o possa substituir no relacionamento com o estrangeiro.

É o relato de uma reunião onde não faltam tensões: a colónia de refugiados no Senegal era um fator de destabilização para os combatentes do PAIGC; continuava-se a alcatroar estradas, com destaque para o Chão Manjaco, os fuzileiros especiais apreendiam embarcações do PAIGC na fronteira sul. 

O autor sublinha que é visível uma certa hostilidade de Osvaldo e Nino Vieira nas reuniões presididas por Cabral. Os foguetões do PAIGC marcam presença no ataque a Bolama em 3 de novembro de 1969, embora com estragos mínimos. 

Numa reunião no sul do Senegal presidida por Luís Cabral e em que estão presentes comandantes e comissários políticos também há muitas críticas desde falta de munições a falta de comida, é nisto que irrompe um ataque das tropas portuguesas àquela posição de Kumbamory que obriga a evacuar Luís Cabral e os comissários políticos da frente norte.

Cabral continua o seu imparável roteiro internacional; perante a tentativa portuguesa de negociar com bigrupos do PAIGC do Chão Manjaco, é decidida emboscar a força negociadora, supunha-se mesmo que viria Spínola em pessoa, massacraram-se três majores, um alferes e outros membros da comitiva, caía na água a operação de aliciamento de guerrilheiros do PAIGC. 

Cabral encontra-se com a sua filha mais velha em Moscovo por ocasião do centenário do nascimento de Lenine, a filha faz-lhe saber que se conspirava contra ele e contra os cabo-verdianos, o pai pede-lhe para ela não se preocupar com ele.

José Alvarez elenca eventos que dão conta ressentimentos dos guerrilheiros guineenses. A reunião em Roma dos três líderes dos movimentos de libertação com o Papa Paulo VI é uma vitória para os revolucionários e crispa as relações de Lisboa com a Santa Sé. Segue-se a Operação Mar Verde, um verdadeiro desaire diplomático para a política portuguesa, a repressão de Sékou Touré é sanguinária, com fuzilamentos e encarceramentos.

Entre 9 e 16 de agosto de 1971 ocorre em Boké uma reunião do Conselho Superior de Luta do PAIGC, reacendem-se as críticas e as reclamações: resistência dos pais em deixar sair as crianças para a escola, desaparecimento de equipamento hospitalar, a falta de médicos, a má gestão dos Armazéns do Povo, Cabral não esconde o exagero. Começam a ser tomadas medidas para efetuar em 1972 eleições gerais por sufrágio universal e secreto para a constituição da primeira Assembleia Nacional Popular. A PIDE/DGS obtém informações do que se passa nestas reuniões de Direção do PAIGC, a rede de infiltrados era fértil em informações.

O processo dos mísseis Strela fica concluído entre a URSS e o PAIGC, constituiu-se uma equipa que foi receber formação na URSS. Esse ano de 1972 foi de uma enorme azáfama para Cabral, o reconhecimento do PAIGC era cada vez maior, Portugal perdera aliados na ONU; independentemente de andar muito tempo no estrangeiro, Cabral estava notificado de atos de corrupção e negociações de guerrilheiros com as forças portuguesas.

E assim chegamos aos acontecimentos do assassinato de Cabral, Alvarez ficciona conversas de Cabral com Osvaldo Vieira e com outros protagonistas com quem conviveu ao longo do dia de 20 de janeiro de 1973. E há uma última palavra para as cerimónias fúnebres de Amílcar, a 31 de janeiro de 1973, em Conacri. Segue-se uma referência aos devastadores acontecimentos de Guidaje, Guileje e Gadamael.

Alvarez termina a sua biografia romanceada dizendo:

“Cabral foi, sem dúvida, uma das mais notáveis figuras nacionalistas de África e um incansável lutador pelas causas que acreditava. Era um ideólogo marxista, um carismático defensor dos negros, brilhante como estratega militar e genial na condução da política externa. Foi o pai da independência da Guiné, promovendo a integração social, o ensino e o respeito pela mulher, mas acabou traído pelos camaradas guineenses do partido, tendo sido assassinado na condição de cabo-verdiano.

Desconhece-se quem ordenou a sua morte, sabendo-se apenas que quem o assassinou e os seus cúmplices eram todos elementos da fação do PAIGC que pretendia afastar os cabo-verdianos da direção. Também se ignora o grau de responsabilidade da PIDE no homicídio, apesar de a sabermos interessada na divisão do PAIGC.”


Há que reconhecer o intenso trabalho em leituras e consultas que José Alvarez efetuou para nos dar a primeira biografia romanceada de Amílcar Cabral. Como é compreensível, não esgotou todas as temáticas do estratega, do líder revolucionário e até do visionário.

 Cabral terá sido demasiado complacente quanto ao relacionamento de guineenses e cabo-verdianos, tinha uma fé inabalável, digamos cega, de que as duas nações iriam entrelaçar-se para benefícios comuns, terá sido este sonho que o levou a uma vitória onde ele não pôde participar. E suficientemente visionário para saber que a entrada da direção do PAIGC em Bissau sem um rigoroso e ponderado projeto de regionalização e descentralização redundaria num desastre. Tal como aconteceu.
24 de setembro de 1973, o PAIGC declara unilateralmente a independência em local da região do Boé
Casa de Amílcar Cabral em Conacri
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Notas do editor:

Vd. post de 9 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27807: Notas de leitura (1903): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 13 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27818: Notas de leitura (1904): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (6) (Mário Beja Santos)