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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28413: Historiografia da presença portuguesa em África (547): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (15): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Era esperável, nesta fase da narrativa, que o capitão Brosselard nos desse mais detalhes sobre o que apreendeu da economia do Geba e nos desse um quadro mais aprofundado de Bissau. O que aconteceu é que nos veio contar as peripécias da viagem do seu colaborador pelo rio Corubal, onde foram apanhados pelo macaréu, acha que este rio, ao entrar no estuário do Geba, devia continuar a chamar-se rio Corubal, e, abruptamente, a narrativa já está em Ziguinchor, fala de Carabane com bastante pormenor e vai depois visitar a ponta Zozor. Iremos ver adiante quais foram as razões políticas e económicas que levaram a França a teimar em ficar com o controlo de Ziguinchor,mesmo sabendo da presença portuguesa ali há séculos.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 15
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Recapitulando, o Capitão Brosselard descreve Bissau e as potencialidades económicas do rio Geba e dá-nos a saber que o senhor Galibert deixou o Kandiafara, viaja com uma lancha desmontável, enviou por via terrestre o seu intérprete e dois volumes de carga, impossíveis de transportar numa embarcação tão frágil, a lancha comporta um piloto, cinco homens e uma bagagem de 200Kg.

Damos novamente a palavra ao oficial francês. Na primeira parte da sua exploração, o senhor Galibert caiu num rápido do rio e correu grande perigo, vencido este foi surpreendido pelo macaréu que varria a foz do Corubal. Graças a um bloco de pedra no qual se puderam refugiar, os exploradores do Corubal escaparam a uma morte certa. Mas as águas não paravam de subir: foi um salve-se quem puder geral; os homens agarraram-se atrás do barco, que flutuava e ameaçava ser arrastado descontroladamente, abandonando no meio das ondas os cinco náufragos. Privados de víveres e de água doce há mais de um dia, os viajantes chegaram a Gã-Matjetja onde vive um rendeiro da Casa Blanchard que tem neste lugar uma casa telhada.

Mal chegados, acorreram de todas as direções ao mesmo tempo crianças, mulheres e velhos. Queriam ver a embarcação, olharam para ela como se fosse um ídolo, sem ousar aproximar-se. Quando se desmontou o barco e cada um dos viajantes guardou as partes desmontadas na roupa, as pessoas do lugar recusaram acreditar no que os outros diziam ter visto. Foi preciso prometer que se iria remontar o Breton para os deixarem sossegados. O batuque ressoava pelos arredores. Acorria gente das povoações Biafadas onde a notícia se espalhara.

No dia seguinte o senhor Galibert entrou no estuário do Geba onde se espraia o Corubal com uma largura de 1500 a 2000 metros. É, portanto, este rio que continua pelo estuário falsamente denominado de Geba (?). Em Bissau, o nosso companheiro organizou a coluna de abastecimento, de acordo com as instruções que recebera, e dispôs-se a cumprir a segunda parte da sua missão.

A 13 de março, ele embarcou acompanhado de todos os franceses bem como das autoridades portuguesas no veleiro Jean-Baptiste. Este afilado veleiro, célebre pelas viagens do senhor Olivier, Visconde de Sonderval, tinha nos seus porões os abastecimentos das comissões que o senhor Galibert devia fazer chegar à povoação de Geba.

Ele pensava ter de percorrer um rio imensamente largo, como vem indicado nas cartas geográficas. Não encontrou no princípio mais do que um leito de 300 metros, bordejado de lamas cobertas por arvoredo próprio do tarrafe, depois curvas e mais curvas, de modo que o Jean-Baptiste, veleiro de 30 toneladas, não podia navegar a não ser rebocado por uma canoa.

Em Fá, o senhor Galibert, ao tomar conhecimento que o barco tinha mais duas marés até chegar a Geba, partiu a pé com um guia da região.

Comentário meu: a narrativa dá surpreendentemente um salto, o Capitão Brosselard vai de imediato falar de Ziguinchor.

Uma curta navegação conduziu a comissão francesa à foz do Casamansa. Percorrendo um território de aluviões, este rio tem larguras bastante diferentes: até à altura de Selho, elas variam de uma a três milhas. As margens, até a uma curta distância da foz, são constituídas por uma série de ilhas sulcadas por bolanhas; elas diminuem à medida que sobe o rio, estão rodeadas de enormes mangueiras e de banhos de lama muito extensos; são muitas vezes cultivadas com arrozais. Ao longe, despontam florestas impenetráveis.

Todos os navios que entram no Casamansa param em Carabane, onde está instalada a alfândega. Estando o barco ancorado, o aspeto é bastante pitoresco: à esquerda, um belo estabelecimento pertencente à Casa Marcel e Prom, e um cais que permite a acostagem de pequenas embarcações; alguns belos poilões bordejam esta parte do rio; temos depois a escola do padre missionário e, contígua, a capela em madeira.

Na proximidade destes edifícios, há habitações contruídas à europeia representando os estabelecimentos das Casas Blanchard, Irmãos Maurel e Cª; as casas dos indígenas perfilam-se atrás; alguns conjuntos de palmeiras dominam todo este ambiente e, mais adiante, perto da direita, o posto de Carabane destaca-se pela brancura luminosa das suas paredes.

Uma alameda plantada de poilões e palmeiras bordeja o caminho que vai do posto à margem do rio. A natureza dos fundos obriga a que os navios fiquem ao largo para fazer as operações de carga e descarga em Carabane; e o estado do mar, raramente calmo, torna muitas vezes difícil o transbordo das embarcações para terra.

Na ponta Zozor, cuja beleza é admirável, os pescadores instalaram o seu aldeamento à sombra de uma maravilhosa floresta de palmeiras. Do rio vê-se um tipo de casa quadrangular contruída em madeira sobre estacas, estas têm cerca de dois metros de altura. Tendo sabido que esta habitação pertence à patroa e proprietária do lugar, chamada pomposamente pela gente da terra a rainha do Zozor, desci a terra para a cumprimentar. Acompanhado do Tenente Clerc, fui bater à porta da casa senhorial. Foi necessário subir por uma escada sobre a plataforma que dá acesso à habitação. Uma negra fez-nos entrar na casa. A princesa de Zozor é uma mulata possante, casada, ao que parece, com um funcionário de quem vive separada. As linhas do seu rosto mantêm-se bonitas, apesar de bem fornecidas de carnes.

Mandou-nos sentar nuns miseráveis escabelos e sentou-se num sofá que estava em cima de um pequeno estrado. É evidentemente ali que esta representante do regime feudal faz justiça.

Após cumprimentos, despedimo-nos desta Alteza e fomos explorar a região vizinha do domínio de Zozor.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Porto de Ziguinchor
Imagens e bilhetes postais antigos de Ziguinchor, retirados do Google França
O Casamansa no contexto da República do Senegal

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 30 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28391: Historiografia da presença portuguesa em África (546): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (14): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28404: Notas de leitura (1968): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 2 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Foi bom revisitar esta obra pioneira da literatura da guerra colonial. Dos autores escolhidos, alguns irão figurar como figuras proeminentes da literatura contemporânea, caso de António Lobo Antunes, Carlos Vale Ferraz, Lídia Jorge, Álvaro Guerra ou João de Melo. Este último, o organizador da antologia, deu também voz a escritores nacionalistas que se iriam impor como nomes sonantes, caso de Luandino Vieira ou Pepetela. Ninguém ignora que de 1988 à atualidade este subgénero literário cresceu desmesuradamente, falta-nos um João de Melo para nos dar uma panorâmica atualizada da evolução desta literatura, na multiplicidade das suas vozes. Porque é indispensável ir acompanhando tudo quanto se escreveu em Angola, Guiné e Moçambique, e se os diferentes candidatos a organizadores não se sentirem com traquejo de se meterem na empreitada a uma só voz, então que façam a organização a três vozes. Precisamos de, como de pão para a boca, de tal iniciativa.

Um abraço do
Mário


Revisitar uma obra de referência sobre a história da literatura da guerra colonial – 2

Mário Beja Santos

Os levantamentos de obras literárias relacionadas com a guerra colonial são poucos e estão perfeitamente identificados. A primeira iniciativa coube ao escritor e ex-combatente João de Melo, a primeira edição de Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os portugueses em África, Crónica, Ficção e História, data de 1988 e abarca obras que se prendem com a preparação militar, os teatros de operações da Guiné e Angola, obra em dois volumes com edição do Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote. Como é óbvio, a edição está completamente esgotada, mas ainda é possível através de vendedores online conseguir adquiri-la por cerca de 30€, tanto a edição do Círculo de Leitores como a de Publicações Dom Quixote.

Este segundo volume abre uma apresentação histórica da guerra em Moçambique feita por Joaquim Vieira, e desse teatro de operações vamos retirar um texto assinado por Carlos Vale Ferraz, que está inserido na obra-prima deste escritor intitulada Nó Cego, primeira edição em 1972; muda-se de direção e Joaquim Vieira contextualiza os acontecimentos da Guiné, há belas páginas de Álvaro Guerra, como também de José Martins Garcia, autor de uma obra de referência, Lugar de Massacre; de novo Joaquim Vieira apresenta uma exposição sobre as forças armadas portuguesas, irão intervir escritores como Lobo Antunes, Lídia Jorge ou João de Melo.

Carlos Vale Ferraz recenseou admiravelmente o modo como terá sido apresentada a operação Nó Górdio, parecia ser a solução mágica para acabar com a guerra de guerrilhas em Moçambique:
“Meus senhores, hoje é um dia histórico! – assim começou o general antes de prosseguir:
- Vamos dar início ao planeamento final da operação que desequilibrará decisivamente a situação sociomilitar em Cabo Delgado a nosso favor. Vamos dar a estocada de morte no coração do inimigo no planalto dos Macondes. – Sorriu a observar o efeito das palavras na assistência e continuou:
- Nome de código: Nó Cego, classificação de segurança: muito secreto. Com esta operação inauguraremos a época da guerra de grandes meios em ordem ao aniquilamento total do IN. Vamos concentrar o nosso esforço aqui!

Quando o general pronunciou ‘aqui!’, um coronel atarracado, de barba cerrada numa queixada tetraédrica a fechar uma cabeçorra demasiado grande em relação ao corpo, apontou com uma lapiseira extensível três círculos desenhados a cores sobre a mica que cobria os mapas que ele próprio destapara anteriormente, com gesto de contrarregra a correr a cortina do palco.

- Graças aos esforços conjugados das repartições de informações militares e da DGS é agora possível saber a localização exata das três grandes bases IN no planalto dos Macondes: a Gungunhana, a Moçambique e a Nampula. Graças às essenciais modificações em comandos, com a vinda do senhor brigadeiro para o setor de operações e do senhor tenente-coronel para o Batalhão de M., a situação alterou-se profundamente para melhor. – O General fez uma pausa, que o coronel aproveitou para colocar novos mapas, e prosseguiu:
- O conceito da operação é o seguinte: cerca-se esta zona – o coronel apontou -, aproveitando as estradas existentes e construindo com a engenharia as que faltam, para fechar um quadrado de cerco que será guarnecido com emboscadas permanentes realizadas por tropas normais e patrulhamentos regulares com esquadrões de reconhecimento. Quando a ratoeira estiver montada, quando ninguém puder entrar ou sair, lançaremos ao assalto das bases as nossas companhias de tropas especiais, os comandos para a base Alfa, nome de código de Gungunhana, os paraquedistas para a Bravo, a Moçambique e os fuzileiros, em segunda fase, para a Charlie, a Nampula. – Os oficiais do Estado-Maior e os civis das informações abanavam a cabeça de aprovação. – Há dúvidas? - Perguntou o general sem as esperar, continuando:
- Dentro deste quadrado tudo o que mexer é inimigo, será a guerra total! Nesta guerra, meus senhores, não existe a clássica divisão estabelecida entre povos civilizados de cultura cristã ocidental, que distingue combatentes e civis não beligerantes, nesta guerra as próprias populações, de acordo com a estratégia marxista, são o sustentáculo de subversão. Assim, todo o ser vivo encontrado é um inimigo a abater. Esta é uma luta de vida ou morte!”


Recorda-se ao leitor que João de Melo entendeu fazer esta antologia a quatro mãos, ou seja, introduziu alguns textos de escritores africanos ligados às chamadas lutas de libertação nacional.

Antes das suas publicações em livros, Álvaro Guerra publicou um conto intitulado “O Tempo Em Uane” em Antologia do Conto Ultramarino, organização de Amândio César, em 1972 e, anteriormente, em Histórias Breves de Escritores Ribatejanos, Antologia organizada por António Borga, Lisboa 1968. A obra consta neste volume de Os Anos da Guerra, mas preferi escolher um texto de um dos seus primeiros livros, intitulado O Disfarce, que teve a sua primeira edição em 1978:
“Sugeriram-lhe que deitasse fogo à aldeia antes de se irem embora e ele recusou porque a sua guerra não era a mesma em que se estava a bater, a sua ainda não tinha começado, seria uma guerra de ganhar ou perder e não aquela, se bem que duvidasse que essa outra guerra alguma vez chegasse. O mais rapidamente que puderam iniciaram a corrida desigual através das picadas traiçoeiras, corrida contra a surpresa que estaria montada algures no seu caminho (…) Foi logo a seguir. Caiu em cima deles a surpresa, uma chuva de ferro, estampidos e silvos de ar vergastado e quedas e ramos partidos e pragas e explosões e o gargalhar fantasmagórico das rajadas matadoras e o homem ao lado dele com o sangue no ventre e nas mãos que disse ‘Ai, mãe!’ e morreu.

Atrás da sua árvore levou a mão ao bolso e tirou-a, a reluzente granada com quem os seus dedos andavam calhados de amor e vício, puxou a argola amarela num repente de furor e ficou um momento a mirá-la, a cavilha apenas presa pelos dedos brancos de força enquanto, desfocado, o cadáver do ventre sangrento o olhava fixa e friamente; jogou-se para a luz, para lá do escudo eleito, e atirou-a para de onde vinha a morte sonora e invisível que semeava surpresas de sangue. Por um momento foi a rainha da metralha e da luz ondulante de calor e do inacessível outro lado da estrada e foi esperança também, soturna esperança subindo numa nuvem de pó castanho após deflagrar e se desfazer como um velho astro em meteoritos escaldantes. Mas já não estava sobre o coração, nem à cintura, nem no bolso, e ele ficou terrivelmente tranquilo, monstruosamente tranquilo e sozinho, a pensar na mulher de quem gostava, na adolescência provinciana e em certos lugares seus preferidos e em como eles seriam se e quando lá voltassem, enquanto, tranquilamente, disparava a metralhadora. Tudo estava aviado, até o esquecimento.”


Outro autor que se impôs nas décadas de 1970 e 1980 foi um ex-oficial que teve comissão na Guiné, José Martins Garcia, irá ter obra extensa e variada, mas houve um livro que então ganhou notoriedade e ainda hoje é motivo de estudo académico, intitulado Lugar de Massacre, com primeira edição em 1975, distingue-se por uma inteira rebeldia, quadros de regabofe, com tiradas delirantes, atmosferas surreais, fica aqui uma amostra dessa trama que oscila entre a sátira e o truculento:
“Eram sete, na camarata, todos por conta da Neuropsiquiatria, no Hospital Militar de Bissau, no mês de maio de 1968, gozando os benefícios do ar condicionado e da desintegração psíquica. O maior falador chamava-se Barnabé e fora enlouquecido por problemas alimentares. Contava as suas desventuras várias vezes por dia, amaldiçoando o ex-comandante do batalhão, um diabético insuportável, cujo ódio aos saudáveis atingira a demência, a ponto de punir com alguns dias de prisão todo aquele que ousasse levar para a mesa qualquer iguaria além da ementa.

- Estou vingado! – rematava o Barnabé.

Vingado pelo novo Governador, de quem já circulavam notícias contraditórias: para alguns tratava-se de mais um louco; para outros, de um justiceiro. Chegara ao batalhão do comandante diabético, vira o descalabro da unidade e prevenira: ‘Faça as malas’. Dez dias de prisão. Justiça.
- Há um mês que estou aqui, nos malucos – disse Barnabé. – Ao fim ao cabo, não se está mal. Vais ver como te habituas…

Desciam para a consulta, empijamados. Mostravam-se atulhados os corredores do hospital. Desde as pernas partidas às chagas repugnantes, desde as bochechas inchadas por abcessos dentários até às vítimas trémulas do paludismo. E havia os que, de muletas, entravam para a grande lista das vítimas das minas, sem pés, às vezes sem pernas. Um bafio monstruoso, agora acentuado pela chuva (…) – Não tenho nada contra o seu riso – disse o psiquiatra. – O riso liberta. Mas, quando puder, fale.

Voltou à camarata, ao entardecer, e reconheceu que os helicópteros eram reais. Foi até à varanda e pôde certificar-se da existência de um grande inseto acionado por hélices. Do bojo eram retirados os feridos envoltos em ligaduras. Depunham esses montes de carne humana em macas de cabos luzidios de tanto serem percorridos por mãos suadas de maqueiros. O hospital absorvia toneladas de carne esfacelada, múmias recentes, arrobas de membros partidos, porque a estação das chuvas trazia o aumento dos desastres bélicos.

Mas quem não perdia uma só de tais cenas ensanguentadas era o alferes Jardim, um novato que, antecipando-se à sorte, chegara à Guiné já absolutamente desequilibrado. Tinha amado a tal ponto os estudos de Engenharia que não lhe escapava manivela, maquineta, alavanca ou válvula sem verificação das possibilidades funcionais. Adorava a eficiência do helicóptero. Mal lhe ouvia o rumor, corria para a varanda, envergando o pijama mais porco de todo o hospital, porque a paixão pela técnica o levava a oleosos sítios, onde chafurdava, feliz, em porcaria de toda a sorte, limpando em seguida mãos sumárias ao pijama já de cor indefinida. Ficava fascinado pela máquina. Assistia, soprando entusiasticamente, à descolagem. Seguia com olhos piscos até à confusão da máquina com a bruma. E suspirava, saudoso, na despedida, todo entregue à esperança da próxima carnificina.”


Assim se põe termo a uma importante obra que se revisita com prazer, obra pioneira, com enquadramento histórico de Joaquim Vieira e uma antologia variegada de onde emergiram vultos literários como João de Melo, Álvaro Guerra, Carlos Vale Ferraz ou José Martins Garcia.

João de Melo
Carlos Vale Ferraz (1946-2025)
José Martins Garcia (1941-2002)
Álvaro Guerra (1936-2002), imagem dos Arquivos da RTP, com a devida vénia
Duas imagens retiradas do livro "Os Anos da Guerra", organização de João de Melo
Capa da edição de Os Anos da Guerra, Publicações Dom Quixote
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Notas do editor:

Vd. poste de 28 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28382: Notas de leitura (1966): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 1 (Mário Beja Santos)

Último post da série de 2 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28394: Notas de leitura (1967): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 2 (Mário Beja Santos)

domingo, 4 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28401: Agenda cultural (933): Convite para a sessão de apresentação do livro "La Bohème, Vasco de Castro, Conversas havidas com Mário Beja Santos", a levar a efeito no próximo dia 15 de Outubro, pelas 18h30, no Museu Rafael Bordalo Pinheiro, Campo Grande, 382, Lisboa (Mário Beja Santos)

Convite de Mário Beja Santos

Sessão de apresentação do livro La Bohème

Museu Rafael Bordalo Pinheiro, 15 de outubro, pelas 18:30h


Dois desenhadores de imprensa portugueses consagraram-se em França, no século XX: Leal da Câmara e Vasco de Castro. O primeiro era um fugitivo da polícia real, em Paris teve acesso às mais notáveis publicações do seu tempo. O segundo partiu para Paris em 1961 e regressou a Portugal em 30 de abril de 1974, viveu quase sempre em Montparnasse e foram-lhe franqueadas as portas da grande imprensa: Le Monde, Figaro, Canard Enchaîné, Harakiri/Charlie Hebdo, entre outras. Colaborou, lado a lado, com os maiores desenhadores que trabalhavam na grande imprensa parisiense. Além disso, fez cinema, foi ativista político, andou nas barricadas do maio de 68.

É este Vasco que será o motor do livro que ora se oferece ao leitor.

Mantivemos uma amizade de quatro décadas, aí por 2011, insisti teimosamente que era tempo de um dos mais importantes desenhadores portugueses de imprensa deixar documentado o seu itinerário, não bastava as lembranças e páginas de memória que espalhara pelos jornais. Não sem relutância, acedeu à iniciativa, acordámos na metodologia. 

Durante cerca de ano e meio, tomava o comboio em Roma-Areeiro até à Portela de Sintra e daqui um autocarro até Fontanelas. Sete horas de conversa com direito a uma pausa para amesendarmos com sandes e fruta e água. Uma conversa perfeitamente diacrónica: dados do nascimento, a infância, o colégio em Vila Real, as passagens por Coimbra e Lisboa, as lembranças de Lisboa noturna e do grupo coral, as peripécias da tropa, a viagem para Paris, e um nunca mais acabar de estúrdia, a revolução do desenho de humor, uma vida de boémia, os muitos amores, a militância esquerdista. Dirá um dia, em jeito de confissão, falando desses inesquecíveis anos parisienses: “Daqui nunca devia ter saído”.

La Bohème será apresentado por António Valdemar, escritor e decano dos jornalistas portugueses, que trabalhou em projetos com o Vasco, e Rui Cardoso Martins, professor universitário e escritor, que teve durante anos uma rúbrica no jornal Público com ilustrações do Vasco.

Pode, pois, perceber a natureza deste convite e a alegria que me dará pela sua presença. Para chegar ao Museu Rafael Bordalo Pinheiro (Campo Grande 382, 1700-097 Lisboa) autocarros não faltam com paragem à porta, o metro é a Estação do Campo Grande e há parqueamento na Lusófona, com entrada antes do edifício da universidade, como se fosse para o cinema Fernando Lopes.

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Nota do editor

Último post da série de 22 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28367: Agenda cultural (932): Feira do Livro de Fafe, Biblioteca Municipal, 24/9/2026, 5ª feira, 16h00: apresentação do livro do Jaime Bonifácio Marques da Silva, "Não Esquecemos os Jovens Militares do Concelho da Lourinhã Mortos na Guerra Colonial"

sábado, 3 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28399: Os nossos seres, saberes e lazeres (753): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (273): Passeio por Idstein, à tarde assistirei a um concerto memorável no Festival de Música do Reno, amanhã sigo para Trier, já tenho saudades de voltar - 8 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Setembro de 2026:

Queridos amigos,
Não é a primeira vez que vos falo das belezas de Idstein, é aqui que moram os amigos que amavelmente me recebem em regime de cama, mesa e roupa lavada, a que posso adicionar outra dimensão da hospitalidade que passa pelo cuidado de visitas diferentes, incluindo espetáculos. Graças a eles, estou a reconciliar-me com a música de câmara de Johannes Brahms, durante décadas Brahms para mim era a música sinfónica (mas sempre quanto baste), os seus dois concertos para piano e o concerto para violino e muitas vezes o seu espantoso Requiem Alemão, as peças camerísticas sempre as tomei como uma choradeira. Precisei de vir ao Festival de Música do Reno para mudar de opinião, mas sempre com reservas. Percorrer Idstein é sempre um enlevo e aquela Igreja da União é de facto extraordinária, voto muito bom. Com muito pesar , inicio amanhã a viagem de regresso, primeiro Trier, visita com alguma desenvoltura, depois percorro o Luxemburgo de comboio, o destino é Lisboa.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (273):
Passeio por Idstein, à tarde assistirei a um concerto memorável no Festival de Música do Reno, amanhã sigo para Trier, já tenho saudades de voltar - 8


Mário Beja Santos

O passeio hoje circunscreve-se a uma pequena cidade histórica, Idstein, no Hessen, situada do Taunus, Médio Reno, foi cidade residência dos Nassau, uma das grandes famílias principescas da história alemã e europeia, foi um dos centros territoriais destes condes e soberanos e sua residência no século XVII. Só dá para visitar o castelo e residência dos Nassau pelo exterior, a sua arquitetura é de transição entre o Renascimento tardio e o Barroco. Agora é escola, não era acessível a visita ao interior, consta que tem estuques e pinturas de teto de grande beleza.
Fachada da residência dos Idstein/Nassau, também chamado castelo
O edifício central é a Câmara Municipal. A cidade velha conserva um conjunto excecional de casas com estruturas de madeira preenchidas por alvenaria, é aquilo que em português se podem chamar as casas de enxaimel. Muitas delas datam dos séculos XVI e XVII, há fachadas artisticamente elaboradas.
Outra vista do centro da cidade, o que mais impressiona o visitante é a variedade de cores, o estado de conservação, não só da vista como a memória medieval e fortificada.
Uma das imagens que tirei ao teto da igreja da União, é um monumento artístico mais extraordinário de Idstein, o seu nome agrega o do Criador, sua Mãe e São Martinho, foi construído no século XIV sobre estruturas anteriores, teve importantes transformações no século XVII e mais recentemente no século XX conheceu obras de conservação e restauro. O que torna o interior absolutamente excecional são os 38 quadros a óleo, colocados nas paredes e sobretudo no teto. Os dois pintores usaram modelos e soluções provenientes da pintura flamenga e da tradição de Rubens. Algumas composições baseiam-se diretamente em obras de Rubens. Este espaço interior funciona quase como uma enorme Bíblia pintada, cenas do Novo Testamento e da vida de Cristo.
Temos aqui a escultura de Sansão como se estivesse a segurar o púlpito, uma impressionante obra que usa mármore de Lahn, aliás este mármore aparece em colunas, arcadas, altar, pia batismal e monumentos funerários, o que dá ao interior aspetos verdadeiramente cenográficos.
Falando de aspetos verdadeiramente cenográficos veja-se a ligação entre a arquitetura barroca, o mármore, a pintura do tipo flamengo, o programa bíblico e o facto de ter sido uma igreja da corte dos Nassau.
Reunimos nestas cinco imagens a associação entre aspetos da arquitetura religiosa e o fenómeno desta igreja ser de União protestante. Durante muito tempo a igreja era designada como igreja do Estado, passou a ser da União em 1917, pare recordar um acontecimento ocorrido em Idstein em 1817. Neste ano, luteranos e reformados do ducado Nassau entenderam-se para fazer a União. De algum modo, esta igreja é uma síntese de um longo processo histórico, inclusivamente é Panteão dos Idstein/Nassau. A igreja foi construída inicialmente em 1340, no fim do século XVII tornou-se igreja de predicação e da corte. Assume-se como espaço de tolerância religiosa, veja-se nas imagens a qualidade do trabalho em torno do altar-mor, veja-se o esplendor da igreja-salão, o quadro alusivo às bodas de Caná, e a torre sineira, que é o mais importante vestígio do período medieval.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 26 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28378: Os nossos seres, saberes e lazeres (752): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (272): Heidelberg, do castelo para o centro histórico da cidade, amanhã vou passear em Idstein e depois assistirei a um concerto memorável no Festival de Música do Reno - 7 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28394: Notas de leitura (1967): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 2 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 7 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
É agora a ocasião se sabermos algo mais sobre o proprietário do estabelecimento fotográfico Foto Câmera, Álvaro de Barros Geraldo, um bom conhecedor da Guiné, trabalhou com a imprensa e a RTP, é autor de um filme até agora não localizado e foi um fotógrafo que trabalhou assiduamente com o Governador Spínola, terá fixado residência em Bissau em meados da década de 1950, foi responsável por uma primeira exposição fotográfica de Usos e Costumes da Guiné as suas muitas milhares de imagens repartem-se pela atividade social, a chegada e partida de unidades militares, acompanhar o comandante-chefe em operações, imagens que depois iam ser transmitidas para a metrópole, um sem número de tranches fotográficas que nos revelam até a excisão feminina, vêem-se slides de brancos em festa, a alegria da inauguração do cinema de Bolama, Spínola a falar com um guerrilheiro, o jovem capitão Salgueiro Maia, porventura no Cumeré, à sua chegada em 1971. Um belíssimo livro/catálogo que merecia um maior destaque editorial.

Abraço do
Mário



O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 2

Mário Beja Santos

A exposição e livro sobre trabalhos de Álvaro Barros Geraldo constituiu um acontecimento, revelava-se a obra de alguém que parecia encoberto pelo nome de um estabelecimento fotográfico sediado em Bissau que legou um acervo monumental que está depositado no Arquivo Histórico Ultramarino.

No texto anterior, vários autores pronunciaram-se sobre a problemática arquivística, o legado deste importantíssimo espólio de Álvaro de Barros Geraldo, o historiador Pedro Aires Oliveira contextualizou a governação de Spínola que o fotógrafo acompanhou com a maior das regularidades, vamos agora ver alguns dados biográficos deste fotógrafo até agora pouco analisado. Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993) viveu e trabalhou na Guiné-Bissau entre, pelo menos, 1955 e 1974. Poucos elementos biográficos transparecem do espólio. O seu nome não consta no Arquivo Histórico Militar. Terá fixado residência em Bissau, onde realizou, entre 1955 e 1956, a primeira Exposição Fotográfica de Paisagens, Tipos, Usos e Costumes da Guiné Portuguesa, no Museu da Guiné, e era o proprietário da loja e laboratório Foto Câmera, pelo menos desde 1964. Realizou o filme Guiné, Princesa Africana, uma obra cujo paradeiro permanece até hoje desconhecido.

Foi chefe do departamento de fotografia e cinema do Centro de Informação e Turismo da Guiné, correspondente da RTP e chefe do Gabinete Fotográfico do Jornal Voz da Guiné, fundada em janeiro de 1972. Terá também colaborado com a Agência Geral do Ultramar. Ele tornou-se o fotógrafo de confiança do General Spínola. Barros Geraldo regressou a Portugal um pouco antes do 25 de abril. Em Portugal exerceu atividade como fotojornalista no Jornal do Comércio e, mais tarde, no Jornal de Notícias. As curadoras da exposição procuraram obter informações junto de pessoas que com ele trabalharam. José Manuel Barroso, assessor de imprensa do General Spínola, e João Egreja, fotocine ao serviço do exército português convergem na descrição de um homem de trato difícil.

Após a morte do fotógrafo, o seu acervo foi adquirido pela Fundação Gulbenkian, que o doou, em 2000, ao Arquivo Histórico Ultramarino.

Caracterizando a essência deste espólio, diz-se previamente que a exposição não pretendeu ser o resultado de uma investigação exaustiva, é uma seleção de imagens dos tais 82.300 negativos, centenas de provas de contacto, diapositivos, bobines de película etc. etc. A exposição também mostra jornais onde o fotógrafo colaborou. O foco incidiu sobre a Guerra Colonial, mostrou imagens do programa psicossocial Por uma Guiné Melhor, onde se tentou o empoderamento de chefes locais; não faltam imagens de prisioneiros políticos, de armamento apreendido ao PAIGC, fotografias de chefes islâmicos regressados de Meca, acampamentos da Mocidade Portuguesa, abertura de um novo edifício da PIDE/DGS, a presença de Rafael Barbosa, então presidente do Comité Central do PAIGC, a apoiar o programa político Por uma Guiné Melhor.

As curadoras observam:
“Ainda que de forma involuntária, as imagens denunciam a escassez de realizações concretas e expõem a incapacidade estrutural do Governo português em consolidar o seu domínio. Através deste espólio, percebemos como, em plena Guerra Colonial, foi precisamente o conflito que obrigou o regime a tentar efetivar a sua ação colonizadora. Por sua vez, a incapacidade do regime em responder eficazmente à prolongada guerra acabou por catalisar a formação do MFA.”


Referem as mesmas curadoras que a colonização da Guiné só se tornou uma realidade efetiva com o início da Guerra Colonial, apreciação que não aceitamos, pois em período anterior, correspondente ao mandato do Comandante Sarmento Rodrigues foi encetado um esforço administrativo integral, digamos que o General Spínola, em termos de desenvolvimento socioeconómico e cultural deu impulso, com invulgares meios recebidos, ao ímpeto desenvolvimentista impulsionado por Sarmento Rodrigues.

Não se partilha igualmente a opinião das curadoras quanto às imagens dos corpos das mulheres, sugerindo que aparecem em poses manifestamente de dominação, revelando uma posição de autoridade colonial, bem como outros testemunhos que não uma apropriação do olhar etnográfico que não passa de mero protesto de documentação científica.

Se tomarmos em consideração o importante volume de João Loureiro sobre os bilhetes postais da Guiné Portuguesa, constata-se que há um longo histórico, a partir do século XIX de mostrar mulheres seminuas, como, aliás, homens de todas as idades e crianças de todas as idades. Admitamos, em retrospetiva, que esta enormidade de imagens exige reflexão. Aquando da Exposição Colonial do Porto, em 1934, as senhoras protestaram com as mulheres africanas de peito ao léu, acontecimento que deu origem a muitas excursões no Norte para ver um acontecimento nunca visto. Henrique Galvão, o comissário da exposição, foi perentório face ao protesto ético das ditas senhoras e até membros da clerezia: é assim que estes povos vivem, não se pretende esconder a realidade.

A exposição inclui também o período revolucionário, as curadoras recordam a força de elite que era o Batalhão de Comandos Africanos:
“Estes combatentes negros permaneceram à margem das narrativas dominantes sobre o fim da guerra. Foram não só secundarizados neste espólio, como também foram excluídos tanto das celebrações das independências da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, quanto do novo regime democrático que então se instaurava em Portugal. A última fotografia do espólio do fotógrafo tem a ver com um incêndio em barracas de cabo-verdianos em Algés de Cima, 1975, o que nos remete para as condições de habitação degradantes destes migrantes que desde o início da década eram uma das forças motrizes da construção civil e dos novos equipamentos urbanos."

“No contexto das comemorações dos 50 anos das independências das antigas colónias portuguesas em África, debruçamo-nos sobre um espólio fotográfico inédito que coincide com o período da guerra colonial e das lutas de libertação. Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo português a viver na Guiné-Bissau desde meados de 1950, registou de perto este período marcado por tensões e profundas transformações sociais e políticas (…) Este livro, tal como a exposição homónima, constitui um contributo para a problematização crítica dos legados do colonialismo português. Através da fotografia e de investigação histórica, propõe-se revisitar a memória do passado colonial e refletir sobre o forjar de identidades nacionais, assim como o contexto pós-revolucionário em Portugal.

Para além de imagens de Álvaro de Barros Geraldo – que oferecem um olhar singular sobre a construção de narrativas visuais –, este livro reúne contributos de investigadores que questionam a história, a memória e a continuidade de estruturas coloniais nas dinâmicas do presente”.

Texto de apresentação para a exposição Imaginários da Guiné-Bissau, reproduzido na contracapa do livro
Catarina Laranjeiro e Inês Vieira Gomes são as curadoras da exposição Imaginários da Guiné-Bissau. O espólio de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975), que será inaugurada no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, no dia 8 de Maio às 18h.

Partindo de parte de um acervo do Arquivo Histórico Ultramarino de cerca de 82 mil negativos (bem como um conjunto de slides e provas de contacto) da Guiné-Bissau e Lisboa, as curadoras investigaram o papel da fotografia na construção do argumento de “manutenção de paz” num território em guerra. Este espólio inédito, nunca antes estudado, exposto ou devidamente catalogado pertenceu a Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo de trajetória enigmática, cuja biografia fragmentada exigiu uma leitura crítica do seu legado. Através de fotografias de emboscadas, cerimónias protocolares e iniciativas militares e sociais, Catarina e Inês procuraram analisar criticamente como esse discurso legitimou e perpetuou tensões pós-coloniais ao longo dos séculos XX e XXI.

Para os interessados fica o site do Inventário do Acervo Fotográfico do Arquivo Histórico Ultramarino: https://ahu.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/24/2016/09/PT-AHU-FOT.pdf
Inauguração do cinema, Bolama, 4 de março de 1971
Slide, sem título, sem data, lê-se no cartaz de pano Nhacra Felicita Homem Grande
Horácio Caio, considerado o primeiro repórter de guerra da televisão portuguesa, chega a Bissau em 15 de janeiro de 1974. Diz no texto que o acompanha em segundo plano Baltazar Rebelo de Sousa, então Ministro do Ultramar, o que não é verdade. Mas, efetivamente, nesse dia chegou a Bissau o Ministro em visita oficial.
Acampamento da Mocidade Portuguesa, Quinhamel, 1 de abril de 1969, à esquerda pode-se ver o Secretário-Geral do Governo, Tenente-Coronel Pedro Cardoso.
Chegada de tropas e despedida de fuzileiros, 11 de julho de 1971. O capitão Salgueiro Maia em destaque.
Operação Sul, 21 de abril de 1972
Governador em entrevista com um elemento do PAIGC, 14 de junho de 1970
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Notas do editor:

Vd. post de 25 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28376: Notas de leitura (1965): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1 (Mário Beja Santos)

Último post da série de 28 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28382: Notas de leitura (1966): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 1 (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28391: Historiografia da presença portuguesa em África (546): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (14): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Em primeiro lugar uma explicação. Sou um tradutor não qualificado, depara-se-me em cada uma destas páginas termos que os dicionários nem sempre ajudam. O Capitão Brosselard fala em sabre, seguramente que quer dizer catana ou machete; a palavra marigot traduz-se por pântano nesta narrativa não tem tal sentido, tem a ver com bolanha; falando de árvores, sãos empre árvores enormes, da família Bombax, podem ser poilões ou outra coisa, são sempre árvores gigantescas, à cautela ponho sempre poilões. Este trecho da narrativa que envolve a descrição de Buba, onde se volta a relevar o estado de destruição e completa ruína em que se encontra o Forreá, a passagem por Bolama e depois Bissau, onde voltamos a saber que a generalidade do comércio está na mão de franceses, e Brossselard não esconde que o Geba pode transformar-se num potentado agrícola. Caminhamos a passos largos para a viagem até ao Casamansa e aqui findará a viagem do Capitão Brosselard que está a escrever um relatório para as suas autoridades, como é evidente há no documento informações políticas pertinentes.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 14
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

O Capitão Brosselard conta com muita vivacidade o mal-entendido que ocorreu à sua chegada a Buba, vários atiradores tinham feito fogo para o ar para pedir ajuda, os Biafadas vieram de catana em riste temendo um ataque dos Fula-Cundas, desfeita a trapalhada, a comissão francesa foi recebida pelo comandante de Buba, e Brosselard mostra-se impressionado com a postura militar da força portuguesa. Passamos-lhe agora a palavra.

A guarnição de Buba é de 50 homens, comandada por um oficial às ordens do Comandante da Praça. O recinto é formado por uma proteção contruída com peças de madeira bem apertadas entre si e solidamente enredadas. O dispositivo defensivo possui quatro peças de artilharia e quatro metralhadoras, a instalação militar é representada pela habitação do comandante, uma construção com rés-de-chão e primeiro andar.

O rio Grande de Buba não é um rio; é uma espécie de fiorde (entradas de mar entre alturas declivosas), muito recortado por numerosas calhetas (pequenas enseadas) que se ramificam. Buba está situada na extremidade de um desses numerosos pontos formados pelo fiorde principal com os seus braços laterais. A bolanha de Guinala (Brosselard refere sempre a palavra marigot, entre nós pântano, obviamente que tem a ver com campos alagados) é um dos braços mais importante do rio Grande de Bolola; foi sobre as suas margens que se estabeleceram os primeiros colonos portugueses.

Buba é considerada o local mais salubre da Guiné. Aliás, de um modo geral, o rio Grande de Bolola é salubre. O estabelecimento de Bambaïa, propriedade de uma casa francesa situada sobre uma ponta, à entrada deste vasto fiorde, frente à ilha de Bolama é considerado como o sanatório desta região costa africana.

Não se vê nenhuma povoação nas margens do rio Grande, elas estão no interior das enseadas. Veem-se somente sobre os pequenos promontórios algumas feitorias e armazéns, outrora florescentes, hoje arruinados e abandonados.

O Tenente da Marinha Hallez, Comandante da Mésange, informado da presença da nossa missão em Buba, aparelhou e veio fundear a três milhas da povoação. A missão francesa e os oficiais portugueses embarcaram neste aviso e regressaram a Bolama em 27 de março. É a época mais ativa do tráfico dos trabalhadores. Na Praça da Feitoria Maurel e Prom, os negros cortam as bolas de borracha para lhes retirar as pedras fraudulentamente introduzidas; as mulheres e raparigas transportam cargas de amendoim e uma montanha desta leguminosa está no pátio interior. Podemos observar o tipo Fula muito puro destes carregadores. É uma família principesca do Forreá que teve de fugir depois da deposição do rei Bacar Guidali. Estes infelizes exilados estão reduzidos à miséria. No dia seguinte, a Mésange partiu para Bissau.

Vista do mar, Bissau lembra uma pequena cidade da França; as casas estão próximas umas das outras e contruídas à europeia, os tetos estão cobertos por telhas; o recinto e a cidadela, do que nos apercebemos das muralhas, dão a ilusão de uma praça-forte. Existe um desembarcadouro que, na maré-alta, permite às embarcações que possam operar o desembarque das mercadorias; mas quando se desce a terra durante a maré-baixa o desembarque é difícil e, como em Bolama, tem de ser feito às cavalitas.

As ruas estão nitidamente desenhadas pelo alinhamento das casas, e estas estão bastante bem mantidas. O mercado realiza-se perto da aguada, à sombra de grandes poilões; é muito animado pela presença da gente de Bissau, de Manjacos e Balantas que põem à venda laranjas, bananas, galinhas, porcos e alguns legumes.

Em Bissau só há estabelecimentos comerciais franceses. No nosso ponto de vista, a situação desta feitoria é bastante superior à de Bolama. As grandes embarcações que hesitarão sempre a difícil navegação no desembarcadouro do rio Grande de Bolola, devido aos bancos de areia. Poderão vir sem perigo a Bissau. Durante as marés-altas os navios de uma certa tonelagem podem subir até Geba, situada sobre o rio do mesmo nome, cujas margens têm terras muito ricas. Aqui se cultiva um excelente amendoim, e também arroz, cera, coconote e borracha. Esta região possui também imensas manadas. O amendoim de Geba pode rivalizar com o de Cayor, e serve para a preparação de óleos de primeira qualidade.

As casas comerciais têm, vai para alguns anos, plantações de cana-de-açúcar no rio Geba, para a preparação de aguardente e assim evitar os pesados direitos alfandegários sobre álcoois à entrada na Guiné.

A população de Bissau compõe-se de dois elementos bem diferentes. O primeiro compreende os naturais; o segundo gentes de diversas etnias, todos cristãos e fiéis a Portugal. Estes têm o nome de Grumetes; é com eles que se armam as embarcações que sobem o Geba.

Recorde-se que o Sr. Galibert tinha deixado Kandiafara em 29 de fevereiro, com uma lancha desmontado e uma escolta composta de nove carregadores, três estivadores e um intérprete. No dia seguinte chegou a Chan-E-Biro povoação situada a uma hora de Koliba; e, no dia seguinte, atravessou uma sucessão de colinas e ficou surpreendido por se encontrar diante de um rio com uma largura de 500 metros.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Gravura representando trajes típicos da Senegâmbia, à venda na Galerie Napoleon, Paris, com a devida vénia
O cais do porto de Bolama em 1912
Ruínas de Bolama, imagem retirada do site Saiyu Travel Co. Ltd
Ruínas de Bolama, fotografia de Francisco Nogueira, publicada no livro Bijagós Património Arquitetónico, Tinta-da-China, 2016
Fotografia de Sorry Dara, chefe da Província de Telko, Guiné Francesa

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 23 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28371: Historiografia da presença portuguesa em África (545): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (13): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28382: Notas de leitura (1966): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 1 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
A iniciativa antológica de João de Melo foi o ponto de partida para outros estudos e investigações e é de elementar justiça recordar Rui de Azevedo Teixeira e Margarida Calafate Ribeiro. Estávamos em 1988 e o autor de "Gente Feliz com Lágrimas" questionava se havia uma geração literária da guerra colonial, pelo que hoje se sabe este subgénero literário cresceu e multiplicou-se, tem ficção e História, já conheceu algum esplendor na literatura memorial e iniciativas se multiplicam para conhecer outros agentes que não propriamente os ex-combatentes, caso das mulheres, das enfermeiras paraquedistas, de quem recebia correio com a assumida responsabilidade de ser madrinha de guerra e, mais adiante, filhos de ex-combatentes interrogam o significado da guerra que os pais viveram e, inclusivamente, como aquela guerra veio a confluir no destino das famílias.Vamos agora ao segundo volume, que este foi só o primeiro.

Um abraço do
Mário



Revisitar uma obra de referência sobre a história da literatura da guerra colonial - 1

Mário Beja Santos

Os levantamentos de obras literárias relacionadas com a guerra colonial são poucos e estão perfeitamente identificados. A primeira iniciativa coube ao escritor e ex-combatente João de Melo, a primeira edição de Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os portugueses em África, Crónica, Ficção e História, data de 1988 e abarca obras que se prendem com a preparação militar, os teatros de operações da Guiné e Angola, obra em dois volumes com edição do Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote. Como é óbvio, a edição está completamente esgotada, mas ainda é possível através de vendedores online conseguir adquiri-la por cerca de 30€.

João de Melo abre a edição refletindo sobre a colonização portuguesa, a literatura de guerra, questiona se há ou não uma geração literária da guerra colonial, põe em cima da mesa um lote de nomes da escrita, não esquecendo os nomes daqueles que escreveram literatura colonial anteriormente à guerra. Cabe a Joaquim Vieira um ensaio sobre África na década de 1960. À data em que escreve este ensaio, 1984, reescrevendo-o em 1987, falando desse lote de obras já publicadas, dirá não acreditar que existisse uma reconhecida obra-prima. Juízo temerário, digo eu, a este tempo já tinham sido publicadas algumas obras de arromba, e cito: Nó Cego, por Carlos Vale Ferraz, Os Cus de Judas, por António Lobo Antunes, Lugar de Massacre, por José Martins Garcia e Autópsia de um Mar de Ruínas, por João de Melo (a primeira edição é irrefutavelmente uma obra de referência. Acresce que Os Anos da Guerra é de algum modo uma conversa em sala de espelhos, aparecem os escritores portugueses e os escritores africanos independentistas, tais como José Luandino Vieira ou Pepetela.

Limito-me agora a algumas lembranças de escritores intervenientes neste primeiro volume.

Primeiro, um extrato do romance de Álamo Oliveira intitulado Até Hoje (Memória de Cão, 1967), nitidamente autobiográfico, um suspiro de quem vem da Ilha Terceira:
“Viera da ilha com seus horizontes azuis, punhados de verde e réstias de cinza. A grandeza da terra diminuía perante a grandeza do mar que assumira como seu. Viera como cavalo manso atrelado à carroça da Pátria – esse fetiche desmantelado que há muito lhe devorava os intestinos para vomitar de seguida o asco, a pobreza, enchendo o saco da sua história de lixo triste e podre. Era pela ilha que João se deixava escorregar, a memória atada a todos os tempos, lugares, pessoas, sonhos intemporais. Ilha redonda ou pão de milho, hóstia desconsagrada de franja roída, suas gentes voltadas para o mar – o deus do pão e da aventura e também do medo e da saudade. João vinha do lado norte mais alto e ventoso, os campos rasos e verdes, casas a brilhar de cal, pequenas, baixas, conchas perdidas na ilha perdida. Passara a infância embrulhado no cheiro saboroso que o suor empresta às pessoas, ao tempo, às coisas. Eram perfumes silvestres – muita bonina, conteiras, faias do Norte, quase bedum de esperma, queijo (…) E João, perdido naquele barco enorme, no meio de mil duzentos e cinquenta e três homens, lá ia a caminho da guerra como se fosse voluntário dela. Destino: Guiné.”

Segundo, um extrato de Autópsia de um Mar de Ruínas, de 1984, também nitidamente autobiográfico:
“O furriel enfermeiro sacou rapidamente da faca-de-mato e cortou-lhe as calças, o dólman e a camisa. Fazia-o com a determinação dos homens perdidos, dos homens que não iriam, nunca mais, perder a sua memória dos outros e de si mesmo. Cortava grandes pedaços de tecido à navalhada e estava já ensopado daquele suor de lágrimas que tem a espessura da chuva e o salitre de uma navegação mortal. Ao ver os intestinos espalhados por todo o baixo-ventre do ferido, abriu muito os olhos e disse três caralhos à vida, duas porras e três conas de madrinhas-de-guerra aos capitães do Norte e, pondo-se a coçar a cabeça, sem saber o que faria àquele balão fumegante, começou por tomar as mãos do Gonçalves e disse:
- Juro que não te vou deixar morrer, irmãozinho.

Aquelas mãos estavam, porém, tão rígidas, nos dedos entrelaçados que formavam uma concha para segurar as suas vísceras, que nenhuma promessa as obrigaria a deixar de praticar o último grande gesto da sua vida.

- Pelo amor de Deus, meu furriel: tenho mulher e três filhos!

Um por um, os dedos do furriel soltaram os dedos do soldado, e então as tripas rolaram-lhe um pouco para as virilhas e pareceram aumentar de volume. Eu vi duas solidões – de – homem enfrentarem-se num olhar; ouvi que um deles continuava a lembrar três filhos e uma mulher, enquanto o outro dizia porra, porra, porra; dizia Chamem-me um helicóptero, Chamem-me um helicóptero com médico e serviço de sangue e dizia-me a mim Onde está o alferes? E disse-me ainda, sempre no mesmo tom, como quem comanda uma tribo contra um incêndio ou chama os náufragos todos pelo nome:
- Corre-me aí à frente a ver se há outros feridos graves, Renato. Chama-me o alferes. É preciso um helicóptero com serviço de sangue.

Corri, corri, corri, e nunca mais deixarei de correr por ali fora; tropeçava em tudo, caía, levantava-me. Havia na minha boca um sabor a vísceras expetoradas e eu caía de novo. Fugir por ali adiante e nunca mais deixar de correr o resto da vida, assim mo pediam todos os órgãos conhecidos e desconhecidos do meu corpo, enquanto não sobrevinha um enorme vómito de mar ou um tiro que pusesse termo à minha solidão de animal acossado pelo fogo. Aquelas coisas não podiam estar a acontecer-me a mim: vira-as algumas vezes nos filmes, ouvira falar delas à distância e com ouvido distraído; faziam parte da morte dos outros e só deles, não podiam estar agora a acontecer-me a mim (…) – Ajuda-me, Renato. Ai, que eu morro!

Ajoelhei-me ao lado de Sérgio e pensei em poder acariciar devagarinho o seu pequeno rosto ainda imberbe. Tinha todo o mundo fechado nas minhas costas: limbo, cemitério novo, morte miúda e cada vez mais numerosa da minha aflição, não podia ver nem ouvir mais nada. Dei uma corrida para junto do furriel enfermeiro, disposto a trazê-lo de empurrão na minha frente, e fui dar com ele de joelhos no chão, lavado em suor. Não era certo que rezasse, por quanto vi que procurava desesperadamente a veia perdida do Gonçalves. Que tenho três filhos e uma mulher, meu furriel! E pensava ainda poder aplicar-lhe um soro e cumprir a promessa de que não o deixaria morrer. Acabara de ligar-lhe todo o ventre e administrara-lhe repetidas doses de hemostáticos, os sopros angélicos das suas ampolas de cardiotónicos, os sininhos mágicos das suas mãos de fada com avental de mãe de Deus. Era um homem desesperado porque lutava contra esse cordão azul que se perdia no fundo da carne, tentado pescar o seu último peixe com o anzol da agulha mal biselada.”


Ex-combatente e escritor João de Melo
Álamo de Oliveira (1945-2025)
Manuel Alegre, deve-se-lhe o mais belo poema feito por um português sobre a guerra colonial
Álvaro Guerra (1936-2002)

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 25 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28376: Notas de leitura (1965): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1 (Mário Beja Santos)