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sábado, 31 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28479: Os nossos seres, saberes e lazeres (757): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (277): Um jardim zen à moda de um jardim de Quioto, no Planalto das Sezaredas (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Outubro de 2026:

Queridos amigos,
Estava indeciso se vos devia falar hoje de uma importante exposição patente no Museu Nacional de Arte Contemporânea sobre as memórias do Tarrafal, com base numa obra de João Pina publicada na Tinta da China em 2024 ou dar-vos conta de uma amizade que ganhei a um pedaço de terra de barro duro e ácida, onde teimosamente se combate a dureza de um terreno infestado de pedregulhos e onde despontam árvores de fruto, imensos e inesperados catos, suculentos, bolbos, lírios bravos e agapantos. Ganhamos amor a um local, descobrimos nele o que há de belo num terreno cheio de acidentes que se veio encontrar cheio de mato bravio, dizia o anterior proprietário que não queria que ninguém por ali andasse para que não se dessem graves acidentes. Não é bem um jardim zen, é um jardim à medida dos sonhos que cada um de nós, por regra, acalenta, por amor à natureza.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (277):
Um jardim zen à moda de um jardim de Quioto, no Planalto das Sezaredas


Mário Beja Santos

Vai para uns anos bons adquiri num local chamado Reguengo Grande, uma freguesia do concelho da Lourinhã, já a abicar no distrito de Leiria e concelho do Bombarral, uns casebres que o anterior proprietário tinha em alojamento local. Fartara-se de obras, de desistências em cima da hora, de dificuldades em arranjar pessoal para as limpezas e até reparações. Pronto me afeiçoei ao interior das casinhas (um quarto, uma entrada/sala com cozinha e casa de banho, cada uma) parece terem sido moldadas para o dito alojamento local, o proprietário foi-me mostrando as dependências, os terraços e apontou para o que me pareceu um matagal, fiz-lhe perguntas, sim, o terreno fazia parte das casas, era muito pedregoso, temendo acidentes para os sucessivos usuários das casas, deixara crescer todo aquele mato bravio que indispunha qualquer curioso a meter-se por ali a dentro. Enquanto apalavrávamos o negócio, o dito senhor perguntou-me, depois de me dizer categoricamente que o preço não era negociável, que obras eu pretendia que ele fizesse antes da venda. Não fui peco a pedir: pinturas dos casebres, limpeza dos ladrilhos dos terraços e remoção daquela vegetação anárquica, queria saber o que me esperava para ali, tanto quanto possível, ajardinar. Cumpriu à risca, e quanto ao jardim dei com um declive tendo à entrada duas laranjeiras, uma infinidade de infestantes, um loureiro monumental e uma figueira.

Devo dar uma explicação para o título que usei para este texto, é um tanto bombástico e não cumpridor da verdade. De facto, um jardim zen tem a singularidade de assentar em rochas e muita areia. Este, que me coube, era uma terra barrenta e ácida, via-se imediatamente que tinha de trazer umas boas sacas de terra, testar o que ali podia medrar. Havendo barro pesado e ácido, era natural que ali se pudessem dar bem bolbos, catos, suculentos, narcisos, beladonas. Foi por aqui que começou a aventura jardineira, com o empolgante desafio de tentar de pôr plantas nas fendas e resquícios das rochas. Chegou a hora de mostrar as imagens e contar o que se ensaiou, o que resultou e o que fracassou.

Encostado a uma parede do terraço, acredita-se piamente que esta glicínia, que já pareceu ter morrido duas vezes, desta vez vai singrar. A glicínia pode demorar 15 anos para florescer, aquelas lianas têm que ser fixadas, conduzidas em linhas horizontais ou numa pérgola, dá aqueles cachos pendurados, tantas vezes de cor roxa, com os anos os troncos robustecem, a glicínia dura uma vida. E há aquele combate constante de limpar à volta, as infestantes não dão descanso. Foi aqui que tudo começou à volta das duas laranjeiras, limpando todo aquele mato fora de controlo.
É um exercício feito de paciência, aproveitar estas trinchas e estar atento à evolução dos catos, eu maravilho-me com este fulgor da natureza, como arrebitam catos dentro destes pedregulhos de calcário que devem ser muito anteriores ao Quaternário.
Está na estação do plumbago, já por aqui perto andaram agapantos e lírios bravos
Perco-me, extasiado, com estes sinais da natureza, catos teimosos, resistentes, ornam estas massas calcárias de eras muito antigas, há catos que dão flor, percorre-se com cuidado à procura de frinchas para meter mais catos, isto quando também se anda à procura de como estão as árvores de fruto que se plantaram, houve uma pereira que deu sinais de raquitismo e depois espigou, houve uma ameixoeira no primeiro ano da compra da casa deu umas ameixas amarelas saborosíssimas e depois secou… a vigilância tem de ser permanente, felizmente que nas ausências a nossa amiga Susana, uma vizinha adorável e que mora lá em baixo junto ao vale, sobe até aqui e põe a mangueira a funcionar. Com o andar da experiência, as perdas são cada vez menores.
Não dava nada por estes catos há um ano, bem me enganei, olho-os com a emoção de sentir a natureza vibrante, lutadora, a seu modo espetacular.
Uma imagem de baixo para cima, impõe-se ter um caminho bem definido por aqui amarinhar, descendo vou todo lampeiro ver a pereira tratada, a figueira limpa de infestantes, saber, como agora se sabe, que aqui podem crescer fisálias, jarros, malmequeres, açucenas; o loureiro está bom de saúde e recomenda-se, há um loendreiro branco, há sálvia mexicana, sálvia branca e púrpura, nerina que tem uma cabeça como se fosse um agapanto, não falta lantana nem alecrim, nos meses de verão delicio-me com tanta policromia.
O antigo e o novo, a árvore já cá estava, o cato veio com os novos proprietários
Detenho-me a olhar para o vale e a ver no topo da colina moinhos e miradouro, cá em baixo a Susana e o Henrique têm a terra em pousio, agora dedicam-se também à vinha, estou ansioso que plantem abóboras para eu fazer sopas.
Andei à procura do ângulo para tirar esta imagem, não tive fé nenhuma neste cato, pensei que desaparecesse com a primeira invernia, agora estou de joelhos a fotografá-lo, viçoso e saudável.
Uma outra perspetiva, o casario no topo de uma outra colina, e moinhos não faltam
Chegou o outono, mas na aspereza deste solo de barro pesado e ácido, como gotas de sangue, estas flores voltam-se para a luz do sol.
Daqui a umas semanas tenho à minha disposição umas laranjas sumarenta, mas um tanto ácidas, nada sei da limpeza das laranjeiras e a saúde do meu amigo Henrique fraqueja, paciência.
Despeço-me com duas imagens que só são idênticas na aparência, um pouco de vale no seu pousio, e dois níveis do casario, detenho-me às vezes a pensar nas alegrias que a vida nos dá, este permanente combate para que a terra seja vicejante, e sempre num estado de fé de que este Planalto das Sezaredas não venha a ser alvo de cobiças que lhe retirem a placidez de uma orografia que nos fala do esplendor da pedra, como se tivéssemos saído ontem da última etapa da Pré-História.
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Nota do editor

Último post da série de 24 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28460: Os nossos seres, saberes e lazeres (756): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (276): Os quadros de António Palolo, a sua alegria luminosa, as cores incandescentes, as transbordantes secções do mundo (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28476: Notas de leitura (1975): Meio século de lutas no Ultramar (Guiné), pelo Tenente-Coronel Bello de Almeida, edição da Sociedade de Geografia de Lisboa em comemoração da Semana das Colónias, 1937 - 1 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 31 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
O Tenente-Coronel Bello de Almeida não se limitou a repescar dados publicados em Tributo de Sangue, monografia das campanhas da Guiné, de António da Silva Loureiro, consultou Boletins Oficiais, relatórios, pesquisou nos arquivos. Se fizermos agora o cruzamento de várias obras congéneres, verificamos que há dados pertinentes em falta, logo o chamado massacre de Bolor, que causou profunda consternação no governo de Lisboa e desencadeou a desafetação da Guiné de Cabo Verde.
Os pontos salientes deste trabalho são os locais onde houve sublevações, operações militares, defesa das praças, facilmente concluímos quais eram os pontos nevrálgicos da Guiné das praças e presídios logo Cacheu, Geba, Buba, Bissau, há um silêncio completo sobre Farim, Fá e Bijagós. O grande incêndio era o Forreá, Bolama está a nascer, a presença nos Bijagós é ínfima, a correnteza comercial do rio Geba ia da praça de Bissau ao presídio de Geba. As sublevações prolongar-se-ão até ao início do século XX; curiosa é a acalmia em pontos que ganharão efervescência no século XX em toda a região de Mansoa. É bom relembrar que só se poderá falar da colónia da Guiné e da sua superfície a partir de 1886, depois da Convenção Luso-Francesa de 12 de maio.

Abraço do
Mário



Meio século de lutas no Ultramar (Guiné), pelo Tenente-Coronel Bello de Almeida, edição da Sociedade de Geografia de Lisboa em comemoração da Semana das Colónias, 1937 - 1

Mário Beja Santos

Como todo e qualquer pesquisador, não é incomum sentir-me inquieto quanto à utilidade das investigações em curso, e pensava concretamente no levantamento crítico que fizera ao Boletim Oficial da Costa da Guiné, Colónia e Província da Guiné, se podia ser usado como termo de aferição para outros estudos em matérias congéneres. Quem me dá muito apoio na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, a Dra. Helena Grego, surpreendeu-me com esta publicação que, no fundo, é uma das possíveis respostas ao manejo da diversidade documental que subjaz ao rigor histórico. O trabalho de Tenente-Coronel Bello de Almeida é um levantamento de todas as lutas no Império, obviamente que aqui só se vai anotar os acontecimentos havidos na Guiné, começando pela sublevação de Cacheu, em 1871, era então Comandante das Forças Coloniais J. A. Marques. O que acontecera?

O Governador da Guiné, Mário Teles Caldeira, reagiu à sublevação com uma coluna expedicionária de Caçadores n.º 1, com a cooperação de navios da Armada e auxiliares, a povoação foi arrasada e os sublevados severamente castigados.

Em 1880, houve que defender a Praça de Buba, pois em 1 de fevereiro os Fulas atacaram a Praça e foram repulsos com grossas perdas. Os civis, entre eles franceses, participaram na defesa. Dois anos depois, no mesmo local, houve operações militares. Em julho, a região foi teatro de devastações e atos de rebeldia praticados por gente de Mamadu-Paté. Foi nomeada uma coluna para o Forreá, sob o comando do Tenente-Coronel Francisco Rosa e foi batido o régulo Bacar-Quidali, este apresentou-se na fortaleza a pedir a paz, pagou indemnização dos roubos feitos nas feitorias do Rio Grande.

Em 1884, houve operações em Cacanda (região de Cacheu), comandou a operação o Tenente-Coronel Eusébio Catela do Vale que desalojou os revoltosos e perseguiu-os nas florestas circunvizinhas. Em 1886, houve operações militares em Geba. Em 19 de junho, uns quinhentos Fulas comandados pelo filho de Umbuco, assaltaram duas tabancas na região de Sancorlã, que estavam sob a proteção de Mussá-Molô. Este régulo, em represália do ataque, avançou com a sua gente sobre algumas populações das imediações do Presídio de Geba, que nenhumas culpas tinham na ação dos Fulas. O chefe do Presídio, Tenente Francisco Marques Geraldes, organizou prontamente uma coluna de duzentos homens e atacou tabancas daquele régulo, arrasando-as e pondo em fuga os seus defensores. Não dispondo de forças suficientes para prosseguir no castigo e vendo que a paz ainda não ficara consolidada, preparou nova expedição, composta de oitenta Praças de 1.ª linha e de cerca de 4.500 indígenas auxiliares (Biafadas, Mandingas, Fulas fiéis). A coluna, em plena estação das chuvas, atacou Mussá-Molô nas tabancas fortificadas de Fancá, bateu o régulo – e assim acabou a lenda de invencibilidade que lhe era atribuída.

Temos novas operações militares em Geba, em 1889. O régulo de Ganadu revelava abertamente desobediência às autoridades, e o Governador mandou efetuar a sua prisão e de quatro dos seus conselheiros. O ato não surtiu efeito, a gente do regulado revelou-se hostil, houve que nomear uma coluna para rebater os revoltosos, comandada pelo Capitão António José Machado, depois de sangrenta luta conseguiu dominar os rebeldes.

No ano seguinte procedeu-se a uma diligência policial em Buba. Na tarde de 19 de junho, o comandante militar desta Praça ordenou ao Alferes José Moreira do Carmo para intimar o régulo Mamadu-Paté, do Forreá, a comparecer naquela Praça para prestarem informações sobre uma ocorrência. O régulo não acatou a intimação como tentou assassinar aquele oficial. Gerou-se confusão e Mamadu-Paté foi abatido a tiro. Saiu uma nova força de Buba que dominou os indígenas do Forreá que, amotinados, tentavam vingar a morte do seu régulo.

Nesse mesmo ano e até março de 1891 houve operações militares na circunscrição de Geba. A gente do território Fula nas imediações de Geba, vendo que os Papéis de Bissau ali entretinham as nossas forças com contínuos ataques à fortaleza, revolta-se contra a nossa autoridade. O régulo Mali-Boiá, um dos principais chefes Fulas, auxiliado por outros régulos, assalta à mão armada os povos nossos amigos, tentando expulsar de Ganadu o respetivo régulo, aliado dos portugueses. O governo da Província organizou uma coluna com as unidades da guarnição e numerosos auxiliares indígenas fiéis, colaboraram também três canhoneiras, castigaram-se severamente os revoltosos, infligiram-se numerosas baixas, Mali-Boiá, principal régulo rebelde, conseguiu fugir. Esta coluna ainda encontrou energias para auxiliar as nossas forças na defesa da Praça de Bissau. Era comandante das operações o Capitão Zacarias de Sousa Lage.

O que leva agora a tratar a defesa da Praça de Bissau e falar da sortida sobre Antim e Bandim em março e abril de 1891. Em fevereiro de 1891, a ilha de Bissau começou a dar indícios de uma emergente revolta. Por prudência, o governo mandou para a Praça a unidade de Caçadores n.º 1 e a bateria de artilharia. O gentio começou a atacar a fortaleza, organizando um alerta permanente, com o apoio de duas lanchas canhoneiras. Em 19 de abril, saiu da Praça uma coluna que se dirigiu a Antim, acompanhada de alguns auxiliares indígenas. Em Antim, a coluna foi repentinamente atacada, houve que retirar, veio em seu auxílio uma outra força de Bissau que livrou a coluna de uma chacina total.

O Tenente-Coronel Bello de Almeida cita como bibliografia a obra Tributo de Sangue, monografia das campanhas da Guiné, de António da Silva Loureiro, bem como Boletins Oficiais da Província da Guiné, relatórios de oficiais arquivados no Arquivo Histórico Colonial (hoje Ultramarino).

Tendo inicialmente referido que é indispensável cruzar os documentos e obras de referência, sugiro aos interessados por este estudo obras como A Presença Portuguesa na Guiné, história política e militar, 1878-1926, por Armando Tavares da Silva, Caminhos Romanos 2016, e A Tradição da Resistência na Guiné-Bissau 1879-1959, INEP, 1994, e Guiné Bilhete de Identidade, Tomo I, A Presença Portuguesa na Senegâmbia, 2024.

Bilhete postal do início do século XX
Bilhete postal do início do século XX
Bilhete postal do início do século XX
Bilhete postal do início do século XX

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 26 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28465: Notas de leitura (1974): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (3) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28469: Historiografia da presença portuguesa em África (550): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (18): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Ganha-se a perceção de que o capitão Brosselard está muito orgulhoso de ter visto hasteada a bandeira francesa em Ziguinchor, e em modo de relatório descreve as novas possessões francesas, deixa-nos um retrato minucioso até da presença portuguesa em Ziguinchor, deixando crítica velada às nossas autoridades por terem consentido que as populações mantivessem usos e costumes que ele classifica como ultrajantes e bárbaros.
Confesso que o aspeto mais luminoso de todo este relato de Brosselard é ele falar no norte da colónia da Guiné portuguesa e a sua grande coesão com o território do Casamansa, logo os negócios entre Cacheu e o rio Casamansa, as matérias primas que iam até Selho vindas do Gabu, o elogio que ele faz da exploração das madeiras, sugerindo que o mesmo deva ser feito no baixo Compony. Aproveita para visitar os arredores de Ziguinchor, e ficamos a saber que o mosaico étnico era praticamente similar, dirá mesmo que as populações estabelecidas no Casamansa e rio Cacheu eram Djolas, Felupes e Banhuns e que os Balantas e Mandingas habitavam no alto Casamansa e no distrito de Farim. Veja-se a ironia da História, o preço de separar povos, etnias vizinhas, com convivências multisseculares.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 18
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Após uma apreciação sobre as interligações entre o Casamansa e a colónia portuguesa da Guiné, falando inclusivamente das riquezas em madeiras que se podem encontrar entre o Casamansa e o rio de São Domingos, bem como no rio Cogon, o Capitão Brosselard volta ao Casamansa, vamos registá-lo no seu discurso na primeira pessoa do singular.

As florestas do Casamansa são muito abundantes em casa e servem de antro às legiões de panteras. Durante a minha estadia em Ziguinchor tomei nota que um desses animais vinha todas as noites roubar os porcos de uma povoação vizinha, então fui ao dito lugar e ao cair da noite escondi-me a trezentos metros das casas. Estava acompanhado de um caçador da região que gozava de grande reputação, teve o cuidado de fazer amarrar a alguma distância uma cabra cujos balidos só podiam encorajar o senhor da floresta.

Uma hora, duas horas de espera passaram-se sem que nada acontecesse, tínhamos a luz da lua; enfim, a fera apareceu, avança lentamente, para, parece escutar; não está a mais de sessenta metros de nós e dispõe-se a atirar-se à sua presa. A infeliz cabra treme e lança gemidos que parecem uma oração. Dois tiros ecoam quase ao mesmo tempo; o animal dá um salto formidável, creio no instante que se vai atirar a nós, mas cai e não se mexe mais; a bala da minha carabina atingiu-o no dorso.

Os negros acorrem da povoação, esfolam, cortam a mandíbula porque a pele com as garras e os dentes têm um certo valor. Esta pele é uma das mais belas da minha coleção. Em 1837, a ocupação de Carabane tinha sido cedida da posse da ilha de Guimbéring. Nesse mesmo ano, uma comissão foi encarregue de procurar no rio um lugar favorável para a criação de um posto. A comissão escolheu um lugar de Selho, no Poudhié. Situado no centro de uma região rica, e habitado por uma população inteligente e trabalhadora, este novo estabelecimento só podia prosperar, estando seguro por uma boa proteção. Também se construíram grandes estabelecimentos e rapidamente a escala francesa tomou o aspeto de uma pequena povoação. Encontram-se agora aqui numerosas fontes de água a correr; belas avenidas onde estão plantadas árvores magníficas; há caminhos bem mantidos; uma igreja e uma escola francesa em que prestam serviço missionário. Numerosas e bonitas povoações agruparam-se à volta de Selho cuja defesa está bem organizada.

O forte foi construído ao pé de Selho, à beira-rio, as suas muralhas estão perfuradas por seteiras e os seus bastiões estão equipados com cinco peças de artilharia. A escola se Selho funciona em excelentes condições; é habitualmente frequentada por 79 alunos, alguns são bastante instruídos e fazem exames com sucesso, no fim do ano escolar fazem exames de admissão à escola secundária de S. Luís. Selho recebe algodão trazido do Gabu, exporta muitas toneladas, o resto é empregue na região e trocado com os Felupes e Banhuns. Os principais produtos comerciais são o arroz e o amendoim. Ziguinchor é o grande entreposto do arroz e Selho comercializa o amendoim.

Ensaiou-se a cultura da vinha, uma cepa deu duas colheitas no mesmo ano. Nada tem de extraordinário, pois no Casamansa todos os produtos que enriquecem os países quentes e tropicais dão-se aqui admiravelmente, e os legumes da Europa são cultivados com sucesso. As populações estabelecidas no Casamansa e rio Cacheu são Djolas; os Felupes e os Banhuns no baixo Casamansa e distrito de Cacheu; os Balantas e os Mandingas no alto Casamansa e no distrito de Farim. Os Djolas apresentam muito pouca genuinidade da raça indígena e estão muito misturados por elementos estrangeiros dos países vizinhos. Estes negros embriagam-se com vinho de palma e aguardente, e sofrem a influência nefasta da feitiçaria. Os Felupes habitam sobretudo as regiões pantanosas da margem direita do Casamansa, eles trabalham de uma maneira admirável a cultura do arroz.

As expedições de Hilor e de Thiong, em 1860, asseguraram a soberania da França sobre os territórios dos Felupes. Mas de 1877 a 1888 estes territórios foram devastados por Fodé-Kaba e os infelizes habitantes que puderam escapar à escravatura refugiaram-se sob a proteção dos postos coloniais. Foi assim que muitos povoados se criaram à volta de Ziguinchor. Os seus habitantes vieram em minha solicitação prestar juramento de fidelidade à França.

A sul, os Felupes têm por vizinhos os Banhuns que foram no passado um estado poderoso, eles ocuparam a maior parte dos territórios compreendidos entre a Gâmbia e o Cacheu; os seus reis eram sagrados sobre as pedras fetiches de Piedras e o seu cetro de ouro está conservado em Diagnou, na margem esquerda do Casamansa.

Os Banhuns são afáveis e bons cultivadores; infelizmente, têm por vizinhos bandidos de profissão, os Balantas, que estão espalhados pela margem direita do Geba e chegaram no século XIX ao rio Cacheu, estabeleceram-se nas magníficas florestas de S. Domingos e abriram caminho até ao Casamansa. Caçadores intrépidos, procuram as florestas impenetráveis e cheias de caça, e põem com sucesso uma barreira intransponível ao fluxo mandinga na região compreendida entre o Casamansa e o Cacheu.

Os Mandingas são originários dos países montanhosos do Alto Níger. Contidos pelos Fulas, disseminaram-se na baía superior do Casamansa e conquistaram a região à volta de 1830. Muçulmanos fanáticos e muito guerreiros, eles trazem com eles os germes de uma civilização civilizada.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Bilhete postal antigo de Ziguinchor, chegada dos pescadores
Postal antigo de Ziguinchor, chegada do correio
Bilhete postal antigo de Ziguinchor, dançarinos da região
Bilhete postal antigo, Mandingas de Farim
Bilhete postal antigo, Balantas

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 21 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28453: Historiografia da presença portuguesa em África (549): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (17): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28465: Notas de leitura (1974): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
É graças aos transportes de mudanças Ilídio que vamos conhecer a evolução dos acontecimentos na Baixa, a carripana atulhada de móveis vai sendo impedida aqui e acolá de circular, regressa à base, um novo empregado chega ali pelas onze horas e conta o que se passa no Tejo e no Terreiro do Paço, os microfones a pedir insistentemente para que a população fique em casa, uma multidão que se forma ali para os lados do Carmo, um dos presentes do jantar recorda a sua infância, passada naqueles sítios, chega o general do monóculo, mais tarde sai uma viatura militar que transporta o fim do regime em direção à Pontinha, naquele dia, viremos a saber no romance Fado Alexandrino, que mudou a vida de toda a gente, de tenente-coronel a soldado houve amores e desamores, houve quem partiu para o exílio, e até quem defendia o Estado Novo se declarou prontamente estar ao lado da revolução, é aquela longa metáfora, permanentemente repetida, dos vira-casacas.

Um abraço do
Mário



Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê Fado Alexandrino, de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 3

Mário Beja Santos

Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de romances que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. Fado Alexandrino, considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de Abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo, tudo é passado entre um jantar verdadeiramente funambulesco, a passagem por uma boate no Intendente, haverá um surpreendente final, onde não falta uma atmosfera de orgia.

Digo e repito que encontrei neste romance algumas das páginas mais fulgurantes sobre os acontecimentos vividos em 25 de Abril, Lobo Antunes pretexta uma mudança que vai passar pela Baixa, não resisto a transcrever alguns parágrafos que revelam tal escrita vigorosa, mesmo incandescente, o tio do soldado vai ao lado do motorista, que ele chama o velho, começam a encontrar infantaria nas esquinas, carros de assalto, militares de capacete de bazuca ao ombro, um tenente novinho mandou-os parar:
“Trânsito cortado, amigos, Tenho uma entrega urgente no Chiado, respondeu o tio, não é a nossa camioneta que vos vai estorvar, recuaram, deram meia volta e meteram pelo Entreposto, pelo Rato, pela Escola Politécnica, o soldado ligou a telefonia e as marchas e as cantigas à viola atroaram a cabina onde tudo vacilava e vibrava, a música interrompeu-se, a voz locutora recomeçou a falar, Cala-me essa porra, minha besta, rugiu o tio, possesso, apalpando a bomba para a asma no casaco, edifícios dignos, antiquários, o jardim do Príncipe Real cintilante de luz e quase logo a seguir um tanque atravessado no pavimento, homens fardados, morteiros, viaturas da tropa, e agora um sargento a aproximar-se, abespinhadíssimo, de pistola na mão, Desapareçam daqui antes que eu vos pregue um tiro, A gente espantava-se, nunca tínhamos sonhado aparato de guerra nas ruas de Lisboa, alguns camuflados, em pinha num banco, escutavam de cabeças juntas os hinos bélicos da emissora, rodei o volante, engrenei a primeira, a marcha atrás, a primeira de novo, o sargento fitava-nos numa desconfiança veemente, e dali a dez minutos entravam aos solavancos no armazém, com a caixa da camioneta repleta de móveis.”

Mas o dia mal começou temos mais peripécias para contar. “Às onze horas apareceu o Carmindo, de motorizada, um de bigode que entrara à experiência em março e vivia com a afilhada da contabilista, tirou o capacete e os cabelos puseram-se-lhe todos em pé, Foi o sarilho das Arábias para me deixarem passar, até barcos de guerra andam no Tejo, não querem que ninguém se pire de casa, e uma onda incontrolável de pessoas sobe o Chiado na direção da PIDE, na direção do Carmo.”

O senhor Ilídio, o tio do soldado, proprietário daquele serviço de transportes, não esconde a sua perplexidade, via o negócio a afundar-se, os móveis a desfazerem-se na arrecadação, as mudanças Ilídio sem encomendas nenhumas, congemina os cenários mais apocalíticos, cadáveres por toda a parte, os hospitais inundados de feridos, pelotões de fuzilamento, bandeiras vermelhas nos edifícios públicos.

E o escritor volta aos acontecimentos:
“O general de monóculo saiu por fim do quartel da Guarda, sem se emocionar com entusiasmo, sem corresponder aos aplausos, instalou-se no carro que de imediato principiou a rodar para fora do largo, iam chegando mais tanques de guerra que apontavam os canhões ao prédio deserto, mais oficiais, mais tropa, um fulano, munido de uma alcofa, distribuía cravos.” O senhor Ilídio encontrava-se num estado lamentável: “Se levarem o Presidente do Concelho num carro blindado estamos perdidos, lamentou-se com a cabeça entre as mãos. Não tarda nada vêm-nos buscar, de pistola, aqui ao armazém.”

Voltemos ao cenário do Carmo:
“O número de pessoas no largo não cessava de aumentar, muitas delas munidas de bandeiras e aparelhos de rádio como nos desafios de futebol, as árvores eram novelos de pernas e de braços e de olhos atentos, expectantes, vorazes, um tanque destacou-se da multidão, avançou para o quartel, bocas abertas, centenas de dentes rebrilhando ao sol na espuma verde coada pelas folhas, cotovelos que me empurravam, membros que se colavam aos meus, um suor entusiástico nas narinas, e, de súbito, meu capitão, senti-me de novo com quatro, cinco, seis, sete anos, submergido pelas fantásticas, espessas, terríveis proporções dos adultos.”

Todos berram pela liberdade, há perseguições, há correrias a eventuais membros da PIDE, e volta-se ao relato do que fora vito no Largo do Carmo:
“O carro de assalto, meu capitão, acabou por desaparecer seguido por um enxame de gente, e passados momentos a multidão abandonou o largo, entoando os hinos e as cantigas da rádio, a tropa retirou-se igualmente da praça à exceção de sete ou oito gajos de metralhadora e camuflado que protegiam o quartel contra o friozinho do crepúsculo.” No armazém do senhor Ilídio, um locutor triunfal anunciava na telefonia a vitória completa do Movimento das Forças Armadas.

O tenente-coronel também tem histórias para contar. Era comandante de uma unidade militar de peso, recebe de madrugada um telefonema do seu camarada Ricardo, está no Ministério da Defesa, diz-lhe que há uns tantos palermas que andam por aí a brincar às revoluções, deverá ir até à sua unidade, o mais depressa possível, pô-los na ordem, acabar com aquelas aventuras. “O Secretário de Estado diz que não temos tempo a perder, é necessário meter essa cambada de miúdos nos eixos, a bem ou a mal, antes que aconteça um disparate qualquer. O teu quartel controla a entrada em Lisboa de quem venha do Norte, bastam meia dúzia de carros de assalto por aqui e por ali. Tens de jogar com o teu prestígio junto dos oficiais mais novos, e é escusado sublinhar que todos contamos com isso, que te pedimos que ajudes a evitar custe o que custe uma asneirada infantil.”

Acontece que este Tenente-coronel Ricardo vai aparecer depois do lado da revolução, uma daquelas metamorfoses em que se dão cambalhotas do lado vencido para o lado vencedor, e este lado vencedor nem se inquieta com o ingresso dos cristãos-novos. O Tenente-coronel Artur apresenta-se na sua unidade, diz a todos que se está nas tintas para a revolução e até mesmo para aqueles que a contrariam, ainda não sabe que dentre em breve irá trabalhar às ordens do dito Ricardo saneando no Ministério da Defesa, pela mão do nosso Tenente-coronel Artur, uma barrigada de oficiais, mais tarde haverá saneamento ao contrário, é este o fadário das revoluções.

António Lobo Antunes (1942-2026)

(continua)
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Notas do editor:

Vd. postanterior de 19 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28448: Notas de leitura (1972): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 23 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28456: Notas de leitura (1973): "Nós, Os Filhos da Guerra", por Frederico Valarinho; Âncora Editora, 2024 (Mário Beja Santos)

sábado, 24 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28460: Os nossos seres, saberes e lazeres (756): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (276): Os quadros de António Palolo, a sua alegria luminosa, as cores incandescentes, as transbordantes secções do mundo (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Outubro de 2026:

Queridos amigos,
A Galeria 111 teve uma influência determinante na formação do meu gosto pela arte contemporânea, pelas opções que fui fazendo nas minhas compras modestas. Devo imenso a Manuel de Brito que propunha a quem se lançava na vida compras a prestações, ficou triste quando lhe disse que não podia comprar aquela serigrafia da Sónia Delaunay com a chegada de uma filha, andava com o dinheiro contado por ter decidido retomar os estudos com o ordenado de Tenente, enfim, vida modesta mas com contas certas. Recordo-o com alegria e saudade, parece que estou a ouvi-lo a explicar-me o que havia de profundamente original na arte de Palolo, Brito amava profundamente o seu trabalho, tinha aquele seu ar ponderado a comunicar o que estava exposto e como ele próprio sentia as obras de arte ali expostas, e, como ele dizia, se vocês não têm dinheiro para os óleos e guaches comprem as serigrafias a prestações. Que boas lembranças deste homem e do que ele fez pela arte contemporânea.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (276):
Os quadros de António Palolo, a sua alegria luminosa, as cores incandescentes, as transbordantes secções do mundo


Mário Beja Santos

Conheci a arte de Palolo (1946-2000) quando um dia, aí por finais de novembro de 1971, a caminho da Faculdade de Letras de Lisboa, onde retomara os estudos e passar a fazer exames com o estatuto de estudante-militar, passei pela Galeria 111, a pretexto de ir comprar um livro numa das livrarias do quarteirão, chamou-me à atenção haver na montra pintura que me pareceu da Arte Pop, mordido pela curiosidade fui percorrendo aquela pintura acrílica sobre tela e guaches, rapidamente me apercebi que havia outras aproximações e derivas da Arte Pop, subtis compromissos entre o figurativismo e o abstracionismo, impressionou-me o encerramento em molduras estritas, um geometrismo com cores muito vivas, uma autêntica festividade cromática, simetrias rigorosas, quadros dentro de quadros, linhas dentro de linhas.

É nisto que se aproximou Manuel de Brito, o proprietário da galeria, sempre ansioso de conversa, sobretudo com os mais jovens. Retive que ele fazia apelo a influências internacionais, falava mesmo em neofiguração, abstracionismo geométrico, minimalismo, Palolo era exposto na Galeria 111 desde 1964, para Manuel de Brito era muitíssimo interessante ver a evolução do artista, a sua combinação de linguagens abstratas e figurativas, o seu grau de autonomia e originalidade, a despeito da influência norte-americana ou britânica (a cor, a imagem popular, a repetição) ia adquirindo uma linguagem própria, ali presente havia uma arquitetura geométrica realçada pela cor, a indispensável matéria-prima do artista, parecia que era a cor que definia o espaço, o espetador da obra era muito mais dominado pela cor em estado vibrante que pelo enquadramento da obra. Manuel de Brito propunha sempre aos jovens aquisição de serigrafias a prestações, naquela altura, com a previsão da chegada de um filho, eu só fazia contas para que nada faltasse lá em casa, o gosto pelas obras de arte seria consumado quando houvesse as competentes folgas, quando houvesse melhoria de rendimento. Nunca perdi Palolo e os seus trabalhos de vista e cheguei a ter uma serigrafia e um desenho.

Não sei há quantos meses voltei a passar pela Galeria 111 e lá estava uma homenagem a Palolo, voltei a entrar e a sair deslumbrado quão tudo é visível e oculto nos seus trabalhos, a sua originalidade, uma certa traquinice no seu comportamento criativo, ele um autodidata, revelara uma impressionante maturidade na composição de códigos internos sem prejuízo de haver na composição qualquer coisa de teatro popular. Naquele ano de 1971, em que conheci os seus trabalhos, já Palolo era o mais jovem dos pintores que foram selecionados para a nova decoração da “Brasileira” do Chiado, o mesmo quer dizer que quem o avaliara encontrara nos seus trabalhos pujança pela linguagem de alegria luminosa e rigor na apresentação geométrica dos seus conteúdos.

Nesta recente visita pus-me discretamente a um canto para ver as reações de quem entrava e saía, dei por casal a cochichar: “Que otimismo, que simplicidade aparente, ele tinha mesmo gosto nestas aventuras de cor, neste virtuosismo com fitas alegres, hoje já não há artistas que nos façam vibrar assim, não achas?”

Dei comigo a pensar que Palolo, que perdemos tão cedo, deixou toda esta festividade que é mais do que uma pintura ilustrativa, ultrapassou o abstracionismo, não se deixou compadecer pelo academismo, a frescura como o vemos hoje pronuncia que o mundo de Palolo aponta para o intemporal de todas as aventuras pictóricas que ajudam a mudar o mundo, anunciando-as pela cor vibrante, pela alegria e esperança que cabem dentro da tela.

Não ponho legendas porque elas não aparecem nas suas obras. No entanto, surfando na internet, encontrei uma tela de Palolo no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, tem título e comentários, que aqui se reproduzem com a devida vénia.


https://gulbenkian.pt/cam/works/horrido-silencio-do-teu-corpo-138882/
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Nota do editor

Último post da série de 17 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28444: Os nossos seres, saberes e lazeres (755): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (275): Uma inesperada Chuva de Verão no Centro de Artes de Sines, até 19 de outubro (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28456: Notas de leitura (1973): "Nós, Os Filhos da Guerra", por Frederico Valarinho; Âncora Editora, 2024 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Setembro de 2026:

Queridos amigos,
Por amável empréstimo da Biblioteca da Liga dos Combatentes li as memórias de infância de Frederico Valarinho em Tete, são tocantes como retoma um sexagenário à vida de uma criança num ambiente predominantemente militar e ao elogio que tece aos seus pais. Assim se vai abandonando o terreno da especulação de que a literatura da guerra colonial ou era domínio de reserva de ex-combatentes ou de estudiosos, está amplamente confirmado pelo que temos lido de Paulo Faria, Joana Pontes ou Catarina Gomes, entre outros, que os filhos da guerra, incluindo os filhos de tuga, são hoje literatura constante do dever da memória da guerra colonial.

Abraço do
Mário



Os filhos da guerra são hoje a geração a quem compete transferir a memória das suas vivências coloniais

Mário Beja Santos

O dever de memória, em termos literários da guerra colonial, começou por se manifestar por testemunhos de ex-combatentes através de romances, novelas e contos, poesia e memórias; outros deram seguimento por via da historiografia, do jornalismo, até da hagiografia, narrativas múltiplas, não faltaram posicionamentos ideológicos. Passadas estas décadas, assiste-se à consolidação da literatura memorial e à emergência de novos protagonistas, com um peso particular para os filhos, mesmo aqueles filhos de tuga que reivindicam o direito à identidade. É uma variante do subgénero literário esta maré de escritos dos filhos de ex-combatentes.

É nesse contexto que se justifica um comentário ao livro de Frederico Valarinho "Nós, Os Filhos da Guerra", Âncora Editora, 2024. Valarinho nasceu em Nampula, em dezembro de 1964, o pai, oficial do Exército, fazia ali a sua comissão. Valarinho é homem dos sete ofícios, trabalhou como jornalista e tem o seu nome ligado à esgrima, modalidade desportiva em que o pai foi ilustre pioneiro. O Major-general Pedro Pezarat Correia prefaciou estas memórias de Valarinho criança na cidade de Tete, onde o pai aparecia de vez em quando, o seu batalhão estava em área de refrega.

O prefaciador não esconde a sua admiração por este poder de regressar à infância, o brincar despreocupadamente com outras crianças, o ambiente escolar, o seu interesse em ter recolhido lembranças de amigas mais chegadas daqueles tempos. Também pesa como documento as notas de enquadramento, o adulto que foi jornalista não se irá coibir de contextualizar histórica, geográfica, política e militarmente, as memórias da infância. É deste prefácio que retirei o título que dou a este apontamento: “Os filhos na guerra são hoje a geração a quem compete transferir o legado dos seus pais aos seus filhos e aos seus netos.” Trata-se de uma aventura memorial: a interrupção de estudos na metrópole, a viagem com a mãe para Moçambique, dá-se uma boa página de enquadramento histórico. A vida em Tete, o alojamento, a vida do colégio, as brincadeiras no dia-a-dia, uma nota de enquadramento do aparecimento nacionalista em Moçambique.


E dá-se o enraizamento afetivo, as boas horas na piscina com os amigos, ao seu olhar de criança escapou a sociedade militar em Tete, a música que se ouvia, a roupa engomada com ferro a carvão, a nova casa, diz o térreo, o comércio dos monhés (designação dada aos indianos) mais notas de enquadramento, o que o autor pode apurar da evolução da guerra do tempo em que viviam em Tete, o funcionamento dos serviços de saúde, o que se sabe e ainda não se sabe dos massacres de Wiriamu; o passeio à cidade da Beira, como os moçambicanos, principalmente os colonos portugueses, viviam a guerra, importa não esquecer que a maioria esmagadora dos portugueses em Moçambique estava concentrada no sul.

Extensa nota de enquadramento sobre os acontecimentos vividos em Moçambique em finais de 1973 e até março de 1974. Memória de como se viveu o 25 de abril de 1974, o comovente elogio feito aos seus pais. Termino com a referência à apresentação do livro pelo seu autor:
“Por falar em memórias, convirá que fique desde já definida uma das regras que me impus ao escrever esta obra: mal ou bem, errado ou não, tudo aquilo que consta nestas páginas foi retirado exclusivamente da minha memória. Claro que poderia ter pedido aos meus pais, adultos com uma capacidade de observação e um discernimento completamente diferentes daqueles que eu à época dispunha, que me lembrassem factos e pessoas e corrigissem detalhes que pudessem ter sido alterados pelo olhar e pela imaginação de uma criança entre os 6 e os 9 anos. Só que, se o fizesse, estaria a adulterar o que aqui pretendia fazer. Este é um livro sobre aquilo que uma criança viu e sentiu.”


Frederico Valarinho
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Nota do editor

Último post da série de 19 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28448: Notas de leitura (1972): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (2) (Mário Beja Santos)