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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27712: Os nossos seres, saberes e lazeres (721): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (242): Paula Rego na sala de espelhos, harmonia e disrupção, justiça e iniquidade -1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Diria que estas duas exposições dão margem de manobra a quem admira Paula Rego a poder conhecer melhor as sucessivas fases da sua evolução artística, a poder descodificar o porquê dos temas dominantes e transversais da sua obra onde o fio condutor se pontua em vórtices de dualidade - harmonia e disrupção, existencialismo e sátira, a paixão revelada pelas causas, o desvelamento da hipocrisia social e a galeria dos preconceitos, pensa-se na série que Paula Rego produziu sobre o aborto que confirma plenamente como uma imagem pode valer por mil palavras. Aqui e hoje começa-se a digressão por uma das exposições, na primeira vamos viajar pelos temas dominantes e transversais da sua obra e na segunda vamos confrontar o guarda-roupa do seu estúdio também no diálogo que estabelece com as suas obras. As exposições estão patentes até 15 de março, juro a pés juntos que são duas exposições muito enriquecedoras para entender a essência do trabalho desta genial artista, que é muito mais do que um ícone em Portugal e na Grã-Bretanha, é hoje consagrada uma das figuras maiores das artes plásticas contemporâneas.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (242):
Paula Rego na sala de espelhos, harmonia e disrupção, justiça e iniquidade -1


Mário Beja Santos

“Pintar é uma maneira de se lidar com a realidade, com o mundo de todos os dias, pois a pintar absorve-se tudo quanto há.”
Paula Rego


Estão patentes na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, duas exposições de arromba: uma, em que a coleção da artista parece entrar numa sala de espelhos, a coleção do Museu irá desdobrar-se pelos temas dominantes e transversais à sua obra; outra, a obra de Paula Rego é apresentada através da lente da moda e do vestuário, introduzindo pela primeira vez o guarda-roupa do seu estúdio num diálogo com as obras que lhe correspondem. Vastidão de leituras, justifica que se vá faseando o que o leitor pode visitar até 15 de março, asseguro-lhe que não se arrependerá de ir contemplar Paula Rego em corpo inteiro, entrando mesmo nos bastidores onde os adereços patentes podem ajudar a descodificar este carrossel de emoções, de encontros e desencontros e de uma grande fiabilidade na defesa de causas e desmontagem de tabus.

A curadora, Cristina Alfaro, no que se refere à exposição que tem a ver com o diálogo da coleção da artista é a guia deste conjunto de núcleos como escreve na brochura da apresentação.

Na sala 1, o visitante pode contemplar a vida da artista através de apontamentos biográficos e uma obra inédita, não datada, em que a artista se autorretrata, veremos retratos como os que foram tirados por Nicholas Sinclair e Eduardo Gageiro. Na sala 2 apresentam-se obras que abrangem o período de 1954 a 1977 e que permitem uma visão panorâmica da evolução técnica e estilística durante esses anos. A aprendizagem na Slade School of Fine Arts, em Londres, de 1952 a 1956, terá sido determinante para a estimulação de uma linha de pesquisa e a revelação de uma linguagem figurativa muito pessoal, é visível a interação com a cultura e meio artístico britânico. O sentido transgressor e a necessidade de desafiar não só os restritos códigos morais vigentes à época, mas sobretudo a operação sexual das mulheres como é patente na sua obra sobre o Marquês de Sade.

Nas distintas fases da sua produção artística, os contos tradicionais e os contos de fadas serão sempre uma fonte fértil para o desenvolvimento do seu trabalho criativo, é por isso que são expostos na sala 2 guaches realizados em 1974 e 1975. No rescaldo da Revolução de Abril, Paula Rego propõe-se ilustrar as histórias violentas e cruéis dos contos tradicionais portugueses, revisitando as suas memórias e medos de infância.

Registos pessoais de memórias familiares cruzam-se na sala 3 com enredos que exploram a sátira social. São as recordações da infância passada em família. As figuras maternais estão também em destaque nesta sala. Seis obras da artista de 2003 ilustram este conto universal. A Mãe a usar a pele do lobo representa o final da história e a mais importante inversão de sentido tradicional do conto pela artista, com a substituição do caçador pela figura da mãe que vinga a jovem filha, esquartejando o lobo e usando a sua pele como um troféu de caça.

Nos anos de 1980, a artista joga a fundo numa metodologia de total liberdade. É um tempo de abordagem eclética da pintura em que cabem os valores da fantasia, do humor. São estes os temas dominantes que se podem ver nas obras expostas na sala 4. E ficamos por aqui para que o leitor possa degustar algumas das obras expostas e ganhar ânimo para vir fruir de duas exposições incomparáveis.

Casa das Histórias Paula Rego, Cascais
Paula Rego, autorretrato
O trabalho, a família, a artista
Paula Rego, autorretrato com as netas
Paula Rego, o exilado, um velho exilado sonhando com a sua juventude, 1963
Paula Rego, Marquês de Sade, 1957-1958
Paula Rego, a gata branca, 1993
Paula Rego, Brancaflor – as sete pipas de vinho, 1975
Paula Rego, Rei Canuto, 1977
Paula Rego, A Mãe a usar a pele do lobo, 2003
Paula Rego, Carga humana, 2007

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 31 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27689: Os nossos seres, saberes e lazeres (720): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (241): O Palácio de Viana em Córdova, termo da viagem pela Andaluzia - 8 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27710: Notas de leitura (1893): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Dezembro de 2025

Queridos amigos,
Bem procurei saber mais sobre este 6.º Marquês do Lavradio que acompanhou o Rei D. Manuel II no exílio, cujo pai foi diplomata, terá certamente vindo para Portugal depois da morte do último Rei de Portugal, beneficiou de um arquivo onde não falta a correspondência trocada pelo pai com as figuras gradas do poder britânico. O que o Marquês do Lavradio nos vai apresentar está nos antípodas da narrativa imperial do Estado Novo, desenhada para se enfeitar de heróis, conquistadores e muito mais. É verdade que muito irá mudar depois da Conferência de Berlim, quando se alicerçam os ideais do Terceiro Império, doutrina que fermentou em espaços como a Sociedade de Geografia de Lisboa. O Marquês pretendeu repor a verdade, antes de se agigantar a doutrina imperial do Estado Novo, mostrou o que era o nosso império em África antes de 1851 (ou seja, antes da Regeneração) e daí estas verdades com punhos, uma autêntica desmistificação da doutrina que vivemos nos tempos da escola. Ao lermos este soberbo trabalho do Marquês do Lavradio não nos sobra dúvida que se montou uma máquina de ilusão para a nossa presença em África, a ideologia forjou um cenário de ilusões que talvez ajudem a explicar o que se dizia de uma recente sondagem em que mais de um terço dos inquiridos gostava que Portugal ainda tivesse colónias.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio - 1

Mário Beja Santos

Foi uma manhã de boa safra, em sábado de Feira da Ladra, encho um trólei com livros e por uma ninharia trouxe esta obra que jamais ouvira falar do Marquês do Lavradio, nem me passou pela cabeça a surpresa que me estava reservada. Guardei a tralha toda em pilha, e depois de almoço, mordido pela curiosidade, preparei-me para folhear Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História), pelo Marquês do Lavradio, edição da Agência Geral das Colónias, 1936.

Só parei ao fim da tarde, o trabalho do Marquês do Lavradio, em boa hora, deu-me uma extraordinária companhia pelo fim de semana. Interrogo-me como só agora cheguei ao conhecimento deste livro. Nunca me fora dado a ler um relato tão denunciador das fábulas, devaneios miríficos, mistificações que virão a galope ainda antes de se iniciarem as guerras de África em 1961. O Marquês tinha a faculdade de possuir um arquivo de grande importância, o Arquivo Lavradio, o 5.º Marquês, por exemplo, será diplomata em Londres numa fase em que o Império Britânico pretende dilatar-se à custa do Império Português.

Confiro tal importância a esta obra que me proponho a fazer uma súmula de todos os seus capítulos. Logo revelando o estado das colónias portuguesas em 1851, em que o autor fala da nossa soberania muito problemática, o nosso domínio muito fictício e uma ocupação muito limitada. Ele passa em revista as colónias começando por Angola:
“Pelo norte, os pontos extremos que estão ocupávamos no interior eram: S. Salvador do Congo, Bembe e Encoge, a 100 km pouco mais ou menos uns dos outros e a 200 km da costa. No sul ocupávamos Caconda no interior de Benguela e Humbe no de Moçâmedes, a 250 km proximamente da costa. De S. Salvador ao Bembe e entre Bembe e Encoge, transitava-se quase sem dificuldade; de Encoge para Duque de Bragança não havia passagem; as comunicações entre Duque de Bragança e Malange eram, muitas vezes, impedidas pelos Gingas e Mabangas.”

Mais adiante:
“O distrito de Moçâmedes havia sido, por vezes, inquietado pelas guerras dos sobas vizinhos próximos, naturalmente belicosos, e que desde longa data tinham o hábito da rapina. Os sobas vizinhos de Pungo Andongo e Duque de Bragança não estavam sossegados, os povos do presidio de Caconda consideravam-se quase independentes e os de S. José de Encoge pouca obediência prestavam à autoridade portuguesa (…) Pelo porto de Ambriz, que não estava ocupado, fazia-se grande contrabando para o interior, desfalcando assim a Fazenda Nacional. A instrução pública não se achava muito espalhada; existiam na Província apenas oito escolas de instrução primária, sendo uma para o sexo feminino. O tráfico da escravatura era fortemente reprimido tanto pelas autoridades como pela vigilância dos navios da Divisão Naval; contudo, era quase impossível acabá-lo por completo, pois pontos havia onde não existia autoridade alguma portuguesa. Dos lugares onde tremulava o pavilhão nacional ou onde havia autoridade portuguesa não saía um só navio com carregação de escravos, e nem um só navio com a bandeira nacional havia sido encontrado transportando escravos.
A população da Província era muito diminuta: 99% era absolutamente rude e inculta, selvagem, desobediente e em parte mais ou menos hostil.
A agricultura indígena era rudimentar e a dos brancos estava em tal atraso que pode dizer-se ‘não existia’; o preto só por exceção trabalhava por seu próprio impulso e o branco não tinha a precisa ação sobre o preto para o fazer trabalhar às suas ordens e sob a sua direção.”


E o Marquês do Lavradio dá-nos o retrato de Moçambique:
“Banhada pelo Oceano Índico em toda a sua extensão, desde o Cabo Delgado à Baía de Lourenço Marques, não tinha para Leste as suas fronteiras bem definidas. Dividida em distritos, estes dependiam do Governador-Geral, que residia em Moçambique, e com ele comunicavam dificilmente e só por via marítima; as comunicações por terra eram impedidas pela hostilidade do gentio. Lourenço Marques era um pequeno presídio sujeito aos ataques dos negros e com uma pequena guarnição por tal forma indisciplinada que em 1850 prendia e punha a ferros o próprio Governador. O presídio tinha 87 praças, das quais só dois soldados eram europeus, e talvez não excedesse a 20 o número de espingardas em estado de fazer fogo.

Em Inhambane o nosso domínio não ia além do alcance da artilharia da Praça, e quando em 1849 o Governador do distrito pretendeu livrar-se dos régulos que nos deixavam, sofreu um revés e encontrou na morte o prémio do seu esforço.
A companhia de Inhambane compunha-se de 140 praças; o número seria suficiente se aquelas 140 praças fossem soldados que tal nome merecessem. Eram esses chamados soldados que anos antes haviam lançado ferros aos pés do Governador do distrito.
Sofala, o estabelecimento mais antigo da Província e o mais famoso na história dos nossos descobrimentos do África, era o mais decadente e abandonado.

O distrito de Quelimane, ‘A Zambézia’, assim chamado por ser na maior parte da sua extensão regado pelo Rio Zambeze, era verdadeiramente o coração da Província.
Os jesuítas, que possuíam os prazos de Luabo e Caya, haviam com o Evangelho e a prédica conquistado tanto como os soldados com as baionetas. Nos seus prazos havia povoações e estabelecimentos agrícolas e eram um núcleo para qualquer melhoramento governativo.
Haviam construído igrejas em Quelimane, Luabo, Caya, Marranque, Sena e Tete. Expulso pelo Marquês de Pombal foram substituídos por frades de outras ordens, que não tiveram nem perseverança nem a coragem de continuar a obra daqueles, nem mesmo sustentar o que tanto havia custado.”


Depois de referir ainda o distrito das ilhas de Cabo Delgado, dirá que Moçambique era o único ponto fortificado indefensável. Dirá adiante que no interior da Província o nosso domínio podia dizer-se que se resumia à influência de alguns sertanejos e capitães-mores, e dá-nos um quadro das gentes:
“Os únicos colonos que para ali iam eram alguns militares e empregados civis, os degredados e gente das nossas possessões asiáticas que iam a África procurar fortuna. Inhambane era um dos mais populosos. Sofala achava-se quase deserto. A agricultura indígena era rudimentar e a dos brancos não existia desde que os prazos haviam sido abandonados. O comércio estava em bastante decadência. Comércio de exportação reduzia-se quase exclusivamente a 8 ou 10 mil arrobas de marfim, que embarcava a maior parte para Bombaím e EUA, portos portugueses de Goa, Diu e Damão e algum excecionalmente para o Cabo da Boa Esperança ou Lisboa.”

O autor fala-nos do comércio dos distritos, dirá que entre outras consequências da extinção das ordens religiosas nunca mais se cuidara nem de religião nem de instrução, as freguesias estavam quase todas abandonadas por falta de parcos, os que havia eram mandados de Goa por não poderem ali viver pela sua má conduta ou estupidez. A religião islâmica progredia extraordinariamente.

Iremos seguidamente ter o retrato de Cabo Verde, Guiné e São Tomé e Príncipe e ouviremos o autor falar das causas principais desta decadência.

D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 2 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27693: Notas de leitura (1892): "Náufragos do Império", por Albano Dias Costa, Prémio Literário Antigos Combatentes 2025, atribuído pelo Ministério da Defesa Nacional (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27693: Notas de leitura (1892): "Náufragos do Império", por Albano Dias Costa, Prémio Literário Antigos Combatentes 2025, atribuído pelo Ministério da Defesa Nacional (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Setembro de 2025

Queridos amigos,
Albano Dias da Costa é autor de um livro intitulado Os Celeiros da Guiné, de que em tempo se fez aqui a recensão. Recentemente, aludiu-se ao primeiro prémio literário de 2022 Antigos Combatentes, o seu livro Vida e Morte na Grande Bolanha do Rio Mansoa. Chegou agora a vez de referir o seu primeiro prémio literário de 2023, com o título "Náufragos do Império". É uma obra de carácter didático-pedagógico, é imaginada uma família Cardoso que participou em guerras que travámos deste Naulila, em 1914, até aos três teatros africanos, com realce para a Guiné onde Albano Dias da Costa combateu entre 1963 e 1965. Todos esses embates são passados em Angola, Moçambique, na I Guerra Mundial, há um Cardoso na Guerra Civil de Espanha e prisioneiro em Dachau, há um prisioneiro em Timor, há um prisioneiro após a invasão da União Indiana, membros da família Cardoso combateram em Angola, Guiné e Moçambique. É numa tirada inicial, no convívio anual da Companhia de Carlos Cardoso que o Coronel Calado, que fora o Comandante da Companhia, tece considerações amargas sobre as condições dos antigos combatentes. Para o autor, será a língua portuguesa o elemento mais aglutinador da irmandade que Portugal estabelecerá com as antigas parcelas do seu antigo Império.

Um abraço do
Mário



As guerras que travámos no Império, por longas décadas, agora em prosa narrativa

Mário Beja Santos

A obra intitula-se Náufragos do Império, o vencedor do Primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes foi de novo Albano Dias Costa. O autor parte de uma ideia tentadora, a que já se abalançaram, com fronteiras mais confinadas, escritores como João de Melo e João Céu e Silva, estes encontraram enredos em que os seus personagens percorrem, ao longo da trama, todos os teatros de guerra africanos entre 1961 e 1975. Albano Dias da Costa dilata o campo de ação. Há o ex-alferes miliciano Carlos Cardoso que parte para um convívio anual da sua companhia, descreve um convívio como aqueles em que nós participamos, aparecem filhos e netos e há cada vez mais desaparecidos. Conversa com outro oficial sobre a condição dos ex-combatentes, as críticas são duríssimas, o interlocutor do ex-alferes, o coronel Calado, tem mesmo um espírito bem funério sobre o nosso tempo:
“Eis-nos a padecer o esboroar da certeza adquirida da paz e da prosperidade económica; a ameaça da perda da coesão social e da insegurança nos espaços públicos; a trituração dos seres humanos pela crise financeira, económica, social e política a todos submergirá como onda imparável sem deixar ninguém a salvo; o confisco do pequeno património de cada um e das suas exíguas economias por impostos incomportáveis; a fatalidade da emigração dos nossos filhos, aos milhares, como na geração anterior, a da Guerra Colonial, nos anos 60, mas agora com um diploma universitário em vez da ‘mala de cartão’; a insegurança dos empregos com salários no limiar da sobrevivência e sem garantias de estabilidade; a angústia do desemprego dos nossos filhos com a deslocalização das suas fábricas para a Ásia, sobrevivendo de biscates, de subsídios do Estado e da venda do que têm à mão, tendo os pais de continuar a alimentá-los com as suas escassas reformas…”.

O ex-alferes regressa a Lisboa e vai visitar a sua mãe, fazia nesse dia noventa anos.
Acomodado no sofá, terminado o almoço, viu numa mesinha um álbum, já muito desbotado. Uma tia tinha nele arrumado as fotografias que os irmãos lhe foram enviando, de 1914 a 1945, e nesse mesmo álbum havia fotografias dos seus sobrinhos, tiradas entre 1971 e 1974. Ao lado, repousava uma velha caixa repleta de cartas, postais e papéis com apontamentos enviados pelos combatentes. Esta tia, sentindo a proximidade da morte, entregou estes testemunhos à mãe de Carlos Cardoso. Nessa noite, Carlos começou a folhear o conteúdo do álbum. É deste modo que vamos conhecer as vivências destes náufragos do Império, seus familiares.

O tio Fernando em Naulila, no sul de Angola, 1914. Ainda não estávamos em guerra com a Alemanha, mas uma reduzida força alemã chegou ao Forte de Naulila para esclarecimento das circunstâncias porque entrara naquela colónia portuguesa, vinda do Sudoeste Africano; ocorreu um incidente trágico em que resultou a morte de dois oficiais alemães e na sequência deste incidente os alemães atacaram Naulila, devastando-a. Fernando Cardoso estava ferido e foi tratado por um médico alemão, regressou a Portugal em agosto de 1917.

Escreve o autor: “Naulila, uma batalha esquecida no fim do mundo, travada por uma tropa mal preparada, mal-armada, enquadrada por milicianos inexperientes, bode expiatório da incompetência dos políticos, foi o pronúncio do fim do Império: outras Naulilas se seguiriam, ao longo de sessenta anos.”

Havia no álbum fotografias do tio Alberto, que combatera em Moçambique. “Em Moçambique, morriam mais homens do que na Flandres, não pelas balas inimigas, mas pela sede, pela fome, pela exaustão física e, acima de tudo, pelas doenças.” Este tio Alberto na sua última carta, datada de 1917, referia-se a uma missão atribuída à sua Unidade, sob o comando do coronel Massano de Amorim, para ocupar Kionga, na foz do Rio Rovuma, no extremo norte de Moçambique. Nada mais se soube dele, um missionário escrevera que os mortos eram enterrados em qualquer lado.

Há também fotografias do tio Joaquim, soldado na Grande Guerra. Mandara postais ilustrados a partir de Brest. O regimento de Joaquim viveu a madrugada do dia 9 de abril de 1918 em La Lys, batalha em que o Corpo Expedicionário Português contou com mais de 7500 baixas, entre mortos, feridos e prisioneiros. Joaquim foi aprisionado pelos alemães, regressou do cativeiro em 1921.

Carlos Cardoso folheia agora fotografias do tio José, que combateu ao lado dos republicanos na Guerra Civil de Espanha, escapou por milagre de ser fuzilado, fugiu para França, foi colocado no campo de concentração de Dachau, escapou às câmaras de gás, terminada a guerra, depois de novas peripécias chegou a Portugal, aqui morreu.

O tio Manuel foi mobilizado em 1940 para Timor, viveu a invasão japonesa em 19 de fevereiro de 1942. Manuel escreveu uma carta falando da repressão brutal dos japoneses.
Numa tarde chuvosa e fria de novembro, Manuel apareceu em casa, extremamente debilitado pelos anos de cativeiro.

O álbum tinha agora as fotografias daqueles que representavam a geração dos combatentes da Guerra Colonial. João, o filho do tio José, embarcou para o Oriente, nos princípios de 1960, já nessa altura se temia a anexação das parcelas do Estado da Índia pela União Indiana. A ocupação ocorreu em 18 de dezembro de 1961. João foi prisioneiro de guerra, metido no Campo de Pandá. Regressou a Portugal em condições muito constrangedoras, quando desembarcou foi enviado diretamente para a sua Unidade mobilizadora, Vila Real, só passou à disponibilidade em princípios de 1963.

Temos agora a história de Pedro, o filho mais velho do tio Manuel, foi mobilizado para Angola, a sua Companhia foi transferida para a Fazenda de Cacuaco. Se a atividade operacional corria de feição até março de 1968, tudo se veio alterar quando a Zâmbia permitiu que Agostinho Neto instalasse as bases dentro das suas fronteiras, seguir-se-ão violentos combates entre o MPLA e as forças portuguesas, os guerrilheiros foram obrigados a recuar. A parte final da sua Comissão foi passada em Naulila. Pedro regressou a Portugal e a funcionário público.

Rui, o segundo filho do tio Manuel, partiu a Moçambique como capitão miliciano, colocado em Mueda, acompanhou todos os acontecimentos até ao final da guerra, quando se preparava para tomar o avião que o ia levar a casa o jipe que o transportava calcou uma mina, Rui Cardoso teve morte imediata.

Carlos Cardoso assistiu às cerimónias da morte da tia Maria. Mais tarde, regressou à Guiné, fala-se sumariamente da história desta colónia, da sua atividade operacional numa região perto de Bula, Binar e Mansoa, recordou um desastre ocorrido com a jangada de João Landim, vemo-lo de volta a Lisboa, rememora a diferentes vicissitudes por que sofreram os seus familiares, resta-lhe agora a esperança de que a língua portuguesa continue a irmanar os antigos territórios ultramarinos na CPLP, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

E assim termina a narrativa da família Cardoso que combateu em diferentes parcelas do Império ao longo de todas as guerras, são estes os náufragos do Império que deixam os portugueses de hoje praticamente indiferentes.

Albano Dias da Costa recebendo o Primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes das mãos do Ministro da Defesa
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Nota do editor

Último post da série de 1 de fevereiro de 2026 > iné 61/74 - P27691: Notas de leitura (1891): "O capelão militar na guerra colonial", de Bártolo Paiva Pereira, capelão, major ref - Parte VII: O "monge-guerreiro", Abel Matias, major graduado 'cmd' capelão, ref, esteve em Angola, de 1965 a 1971

sábado, 31 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27689: Os nossos seres, saberes e lazeres (720): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (241): O Palácio de Viana em Córdova, termo da viagem pela Andaluzia - 8 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 7 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
É bem verdade que há um riquíssimo património onde os espaços palatinos se conjugam perfeitamente com jardins de grande formosura, basta pensar no Palácio e nos jardins de Queluz. O que acontece no Palácio de Viana é sentir-se a palpitação, dentro de um bairro típico, como Santa Marina, uma residência faustosa acompanhada de um número impressionante de pátios, com toda a espécie de arvoredo, variedade de jardins, tanques, trepadeiras nas paredes do Palácio, cada pátio é uma surpresa, e confirma-se a singularidade dos pátios cordoveses, como tive oportunidade de ver quando andei a bisbilhotar nas ruas da judiaria, no bairro da Villa e à volta do Guadalquivir. Foi uma viagem inesquecível, o andarilho aprendeu a lição que não chega programar oito dias para ir ao encontro destes belos recantos andaluzas. Haja saúde, o retorno será em breve.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (241):
O Palácio de Viana em Córdova, termo da viagem pela Andaluzia - 8


Mário Beja Santos

Pelos alvores da manhã percorre-se o Bairro de Santa Marina, comprou-se antecipadamente bilhetes para uma visita guiada ao Palácio de Viana, uma bela casa senhorial que se foi ampliando com as habitações da vizinhança e que nos permite apreciar a evolução da arquitetura civil cordovesa desde o século XIV até ao século XIX. É um conjunto único e surpreendente que se espalha por 6.500 m2, dos quais mais de metade são ocupados por 12 pátios e o jardim. Não se visita somente o Museu, mas aquele que foi durante séculos a casa de uma família nobre. Em 1980, um Banco comprou o Palácio dos Marqueses de Viana.
Desde a Praça de Dom Gome acede-se através de uma portada em ângulo constituída por dois corpos: uma porta de lintel com frontão partido e um balcão tendo por cima guerreiros e depois os escudos das famílias dos Argote e dos Figueiroa; coroa o balcão o escudo dos Saavedra.
Já no interior, chama a atenção a escadaria principal, renascentista do século XVI, com um magnífico artesoado mudéjar do mesmo século, e não falta harmonia no mobiliário. E assim temos acesso ao salão principal também em estilo mudéjar e depois à sala do escritório da Marquesa.
Córdova é famosa pelos seus pátios, vamos passear pelos doze esplendidos pátios ajardinados deste Palácio que nos surpreendem pelas suas cores e odores.

Trata-se de uma visita guiada e logo somos informados que é totalmente interdito fazer fotografias e filmar no interior do Palácio. Iremos falar de memória das coleções do Palácio de Viana, no rés-de-chão temos porcelanas que vão do século XVII ao século XX, uma coleção muito rara de arcabuzes; no piso superior o visitante é surpreendido por 236 peças de cerâmica dos séculos XIII a XIX, couros riquíssimos, uma coleção faustosa de guadamecis e couros cordoveses dos séculos XV a XIX; não falta tapeçaria, flamenga, francesa e espanhola, há uma peça surpreendente que tem um cartão de Goya, as artes decorativas proliferam por todos os espaços e a biblioteca impressiona com os seus sete mil volumes que vão dos séculos XVI a XIX.

Temos uma boa guia que irá resumir a história desta residência senhorial que pertenceu ao Marquesado de Villaseca. Em 1873, a 9ª Marquesa, viúva e sem herdeiros, casou-se em segundas núpcias com Teobaldo Saavedra, filho do Duque de Rivas, a quem o Rei Afonso XIII conferiu em 1875 o título de Marquês de Viana. Como se referiu acima, o Palácio foi vendido em 1980 e hoje pertence a uma Fundação. É exatamente neste património da Fundação, pictórico, que começa a visita, daqui se passa para as coleções, a Galeria dos Azulejos, a Galeria das Batalhas, o Salão dos Gobelins; temos novamente a pintura, uma coleção flamenga onde avulta uma pintura de Bruegel O Moço, seguimos para a biblioteca, um espaço admirável com os seus manuscritos e primeiras edições, não faltam livros de caça, vitrinas onde podemos ver a documentação dos arquivos históricos dos Marqueses de Viana, segue-se a Galeria dos Couros e uma coleção de armas de caça. Recordo ao leitor que estávamos interditos de tirar fotografias.

Estamos agora na zona que era habitada pelos Marqueses: o Salão dos Sentidos, com pinturas morais com alusões aos cinco sentidos, porcelanas e cristais valiosos; o Salão Vermelho, também enriquecido por peças de arte decorativa de imenso valor; este salão comunica com o espaço íntimo da Marquesa; segue-se o quarto do Marquês, Fausto de Saavedra era almirante e a sua paixão pelo mar é patente na decoração do quarto, parece que estamos numa cabine de navio; por último, no decurso desta visita guiada, é-nos dado a ver o escritório da Marquesa com teto mudéjar e mobiliário barroco, os azulejos do pavimento representam um leão rastejante, símbolo do Marquesado de Viana.

Agora o visitante é abandonado à sua sorte, tem uma imensidade de pátios que mostram um fascinante reportório com diferentes arquiteturas, pavimentos de ornamentação vegetal. Agora já se podem tirar fotografias, só para ver este esplendor floral vale a pena vir a Córdova.

Já no Bairro de Santa Marina, uma casa típica onde não falta uma coluna antiga.
Entrada do Palácio dos Marqueses de Viana
Um aspeto da cozinha
Um esplendoroso corredor, com ligação às galerias
Sala das refeições da família, imagem retirada do site artencordoba, com a devida vénia
Pormenor da biblioteca onde se albergam 7 mil volumes, imagem retirada do site artencordoba, com a devida vénia
Pormenor do Salão Vermelho, imagem retirada do site artencordoba, com a devida vénia
No pátio guardam-se os velhos transportes, impecavelmente conservados
Pormenor do pátio principal
Não se pode resistir à beleza desta coleção de vasos pendurados e engalanados com plantas
O requinte do arvoredo, do buxo, das plantas trepadeiras e dos vasos à volta do tanque, tudo numa atmosfera de apaziguamento e bons cheiros.
Outro pormenor do tanque ricamente florido
Mais um recanto surpreendente, um ajardinamento sem mácula
Imprevistamente, depois de tanta flor um jardim onde não faltam palmeiras, cada pátio é um recanto, fica-se com os olhos esbugalhados.
Quando uma imagem fala por mil palavras
Outro ângulo deste pátio em recanto
É o momento da despedida, a simplicidade destes vasos é tocante, tudo diferente nos pátios do Palácio de Viana para comprovar que os pátios de Córdova ombreiam os mais belos jardins do mundo. Aqui me despeço de Córdova, tomo o autocarro e vou até Tavira visitar uma grande amiga que perdeu recentemente o seu marido. O leitor que não se esqueça que as viagens nunca acabam, só os viajantes as podem renunciar.
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Nota do editor

Último post da série de 24 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27666: Os nossos seres, saberes e lazeres (719): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (240): Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 7 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27687: Notas de leitura (1890): Apontamentos para a história contemporânea da informação na Guiné Portuguesa (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Sempre me deu que pensar não haver trabalho de investigação com base no levantamento dos jornais de caserna que foram publicados por um bom número de unidades; e este ensaio de José Júlio Gonçalves, datado até 1965, faz-nos entender que houve um elevado número de boletins e até de jornais de curta duração, como é evidente fruto do desinteresse cultural que se saldava na escassez de leitores e, curiosamente, há um período do Boletim Oficial que assume proporções de um verdadeiro jornal, como tenho procurado inventariar neste trabalho que está em fase de conclusão de um século de Boletim Oficial. Bom seria que as instâncias universitárias se interessassem por estas matérias.

Um abraço do
Mário



Apontamentos para a história contemporânea da informação na Guiné Portuguesa

Mário Beja Santos

Na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa encontra-se um volume intitulado Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, curso de extensão universitária, ano letivo de 1965-66, Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina. No volume consta um artigo assinado por José Júlio Gonçalves, professor catedrático da Instituição e mais tarde responsável pela Universidade Moderna, com o título A informação na Guiné, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe (achegas para o seu estudo).

O ensaio do José Júlio Gonçalves tem um prólogo que vai desde a política do Infante D. Henrique até ao século XIX, é este o período que vou procurar sumular, recordando ao leitor que, tanto quanto eu saiba, não há nenhum levantamento exaustivo e crítico que incida sobre a imprensa e a informações geral que abarque o período colonial.

A introdução da tipografia na Guiné Portuguesa deu-se em 1879, a Guiné estava autonomizada, tinha capital em Bolama, e punha-se a publicação do Boletim Oficial, seus suplementos e apensos. Observa o autor que durante algumas décadas o Boletim Oficial da Guiné andou atrasado, não observando a periodicidade que lhe fora fixada por via legislativa. A situação irá mudar a partir de 1946, durante a governação de Sarmento Rodrigues.

A primeira publicação não-oficial impressa na Guiné foi um número único de A Fraternidade, editado em 30 de outubro de 1883 e que vai aparecer no Boletim Oficial. Tratava-se de uma folha de solidariedade dedicada à recolha de fundos destinados a socorrer as vítimas da estiagem que se estava a viver em Cabo Verde.

Em meados de 1924 começou a circular em Bolama o Jornal Pró-Guiné, órgão do Partido Republicano Democrático, vieram ao lume dez números. Vem a propósito referir que em 1918 fora indeferido pelo Governador o requerimento em que se pedia autorização para publicar um periódico com o título de Jornal da Guiné. Em 1925 iniciou-se em Bissau a publicação do Boletim dos Correios e Telégrafos, que teve curta duração. Em 1930, apareceu em Bissau, pela mão de Manuel Pereira Manso, a primeira tipografia particular, o que deu origem à publicação de um jornal da iniciativa privada; assim, apareceu entre 1930 e 1931 o jornal Comércio da Guiné, um órgão declaradamente vinculado aos interesses económicos. Em 1932, a Missão Católica de Bolama publicou um número único, denominado 15 de Agosto. Seguem-se outras iniciativas como publicações episódicas, até que em 1942 temos o aparecimento de o Arauto, o primeiro diário guineense, jornal católico, sucessivamente boletim, diário e semanário (policopiado) e depois mensário (impresso).

Em 1946, o Centro de Estudos da Guiné Portuguesa publicou o primeiro número do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, que continua a ser uma publicação de referência para a investigação histórica. Em 1956, por iniciativa da Comissão Municipal de Bolama, deu-se início à impressão do quinzenário Bolamense, publicação que se interrompeu m 1963. Na década de 1950 surgiram outros boletins, caso de Ecos da Guiné – Boletim de Informação e Estatística, o Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné e o Boletim da União Desportiva Internacional de Bissau.

Recorda o autor que o protestantismo teve as suas publicações periódicas e meios de comunicação social não periódicos. A Missão Evangélica da Guiné Portuguesa teve em Bissau a livraria Victória, que fazia a distribuição das publicações periódicas e não periódicas protestantes. Importa recordar que temos ainda os jornais de caserna editados pelas forças militares, o autor faz uma relação do que certamente lhe chegou ao conhecimento até à data da finalização do seu ensaio.

Também faz uma alusão aos jornais escolares impressos e de parede. Um ponto no mínimo muito curioso passa pela referência às publicações do PAIGC, o Caderno Escolar e O Nosso Primeiro Livro de Leitura, o que deixa surpreso o autor é tudo ser redigido em português. Para finalizar a súmula deste trabalho de José Júlio Gonçalves importa dizer que há referências ao cinema, à rádio e chama-se a atenção do leitor par ao número impressionante de cartas e aerogramas chegados em 1964, cerca de 300 000.

Como tive oportunidade de referir a propósito do Boletim da Associação Comercial Industrial e Agrícola da Guiné, toda esta documentação, mais tarde ou mais cedo terá de entrar no campo das pesquisas dos investigadores, um tanto à semelhança da investigação escrutinada do Boletim Oficial, são ferramentas auxiliares que nos ajudam a percecionar o quadro de mentalidades naquele tempo histórico da informação impressa, radiodifundida, as mensagens essenciais dos jornais de parede e até o estado de espírito daqueles muitos jornais de caserna que ainda estão por repertoriar.

Reprodução de uma página do caderno escola do PAIGC, tempos da luta armada
Primeira página de um jornal de caserna
Do tempo em que o Arauto era boletim diário
Uma só folha, dedicada à angariação de fundos para apoiar os cabo-verdianos vítimas da seca
Mais uma primeira página de um jornal de caserna
Porventura o último jornal da Guiné Portuguesa
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Nota do editor

Último post da série de 26 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27673: Notas de leitura (1889): "Vida e Morte na Grande Bolanha do Rio Mansoa", por Albano Dias da Costa; primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes, atribuído pelo Ministério da Defesa Nacional, 2022 (Mário Beja Santos)