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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28185: Historiografia da presença portuguesa em África (535): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (3): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Encontro aspetos surpreendentes nesta viagem do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada província da Guiné. Considero esta narrativa da melhor utilidade e sugiro a sua comparação com a do Tenente da Armada Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, já aqui publicada. Brosselard saiu de Bolama, que descreveu com detalhe, promete encontrar-se com Costa Oliveira em Kandiafara, no dia 12 de fevereiro, entretanto encontra-se com o rei dos Nalus, uma narrativa espantosa, e irá dar-nos seguidamente um retrato da visita que faz ao rio Nuno, dizendo erradamente que foi descoberto por Nuno Tristão em 1447 (Nuno Tristão foi assassinado no rio Gâmbia, norte da Grande Senegâmbia, nunca chegou a terras da Guiné e por conseguinte não podia ter chegado ao rio Nuno).

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (3)
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro Guiné Bilhete de Identidade Tomo II.

Henri Brosselard descreveu Bolama, onde se veio a encontrar com Costa Oliveira, procurou organizar os aprovisionamentos para a expedição, irão ser expedidos para Bissau, combinou com Costa Oliveira encontro em Kandiafara em 12 de fevereiro, por se supor estar situada na vizinhança da linha fronteiriça. É aqui que recomeço o texto de Brosselard.

Entretanto o Aviso Dakar veio fundear diante de Bolama, em 4 de fevereiro. A comissão francesa tomou mediatamente as suas posições para o embarque de pessoal e bagagens. No dia seguinte partimos para o rio Nuno.

Depois dos trâmites alfandegários, o Dakar passou o entreposto de Bel-Air e acabou por fundear no entreposto de Samiah. Desembarcámos e instalámo-nos na feitoria que pertence à Casa Blanchard, fomos amavelmente recebidos nesta propriedade fortificada.

Informado da nossa chega ao rio Nuno, o rei dos Nalus veio fazer-nos uma visita em Samiah. No dia seguinte, acompanhado dos meus oficiais, visitei o rei Dinah na sua residência. O palácio real é uma residência notável, situa-se à beira do rio, a povoação terá 600 habitantes. Desembarcámos sem dificuldade, havia maré-alta. O rei sabia fazer as honras da hospitalidade, revelava uma compostura europeia.

Atravessámos três filas de paliçadas e postigos de vigia bem defendidos, caminhámos à direita e à esquerda por muros altos que envolvem as casas das pessoas importantes do círculo real e penetrámos no reduto onde se encontram as cinco habitações reais, quatro das quais tinham a forma aproximada de casas europeias, as paredes são em adobe e a cobertura em palha, muito espessa; uma casa maior tinha forma circular, era o salão de receção, contiguo estava o quarto onde o rei dorme e toma as suas refeições. Ficámos na varanda onde os músicos manejavam os balafons e cantavam em homenagem aos hospedes do rei.

Após um compasso de espera, passámos ao salão, tinha uma mesa e cadeiras, um certo conforto europeu, e uma limpeza admirável, serviam cerveja e limonada como refresco. O quarto do rei Dinah, contiguo ao salão de receção, estava mobilado com um conforto que nos surpreendeu. Amplo, coberto com um teto, as paredes forradas com esteiras, uma grande cama no meio, coberta com mosquiteiro, aqui e ali cadeiras estofadas; nas paredes, havia gravuras francesas e inglesas, espelhos deslumbrantes e garridos, um relógio de cuco e a dar horas! No toucador, todo o necessário em porcelana e cristal; ali perto um cofre-forte contendo o tesouro e os arquivos do reino; é ali que está preciosamente guardado o Tratado passado em nome da França com o predecessor de Dinah. Uma outra habitação está reservada a morada das mulheres. Dinah apresentou-as com orgulho, se bem que elas sejam pouco prendadas pela beleza.

No pátio desta casa os escravos pilam o milho miúdo. Inútil dizer que estes escravos são mulheres, porque em África um indígena sentir-se-ia desonrado se fosse condenado a este género de trabalho. A quarta casa continha os abastecimentos de arroz e milho, bem como o local reservado aos estábulos. Dinah tem um cavalo, aliás possante e raro, e quase desconhecido nesta costa de África. Enfim, a quinta casa composta pela sala da Justiça e as prisões. Atravessando o pátio, o rei mostra-nos os poços onde o seu pessoal se abastece de água; vemos seguidamente a cisterna. É Dinah quem guarda a chave do cadeado da cisterna para se precatar de qualquer tentativa de envenenamento.

Na sua imaginação bárbara, Youra, o predecessor de Dinah, tinha inventado suplícios que inspiravam terror a todo o povo. Um desses suplícios, que ainda se praticava há pouco tempo, consistia em prender o supliciado no momento da maré-baixa a um porte no rio; quando subiam as águas, o infeliz via pouco a pouco a água chegar à boca que ele se esforçava por fechar, o nível da água, entretanto subia, invadia as narinas provocando uma asfixia lenta.

Dinah Salifou tinha sucedido ao seu tio Youra, conforme o costume que rege os direitos da sucessão. O filho mais velho de um irmão de Youra, um certo Tocha, primo direto de Dinah procura contrabalançar o prestígio do rei e ganhou adeptos que parecem ser em grande número entre os chefes Nalus. A influência moral de Tocha supõe-se ser mais forte que a do primo e Dinah, sem o apoio que lhe dá França, estaria provavelmente há muito tempo destronado. Os dois primos detestam-se, admite-se que pode haver atentados de um contra o outro (e o Capitão Brosselard conta duas histórias de tentativas dos primos em matarem-se).

Voltando ao relato na primeira pessoa, o Capitão Brosselard, que tinha curiosidade em ver frente-a-frente os dois, convidou-os a almoçar no mesmo dia em Samiah. No dia aprazado, perto das dez horas os cânticos barulhentos dos músicos que marcam a cadência aos remadores anunciaram a chegada da embarcação real, no mastro flutuavam as cores francesas. Dinah veste com aparato, traz uma espécie de estola de veludo coberta de bordados a fio de ouro; avança com passadas comedidas, com a gravidade que convém a um grande rei. Tocha chega por sua vez; o seu primo apresenta-o e expõe os laços de parentesco existentes.

Na sala de jantar cada um toma o lugar à mesa. Dinah senta-se no lugar de honra, à sua frente senta-se o Tenente Clerc, com o qual Dinah conversa em inglês. O rei tem boa figura, tem o aspeto de um europeu bem-educado, maneja com facilidade a faca e o garfo. Tocha é mais hesitante, antes de levar a comida à boca observa os seus vizinhos para os imitar. Na conversação, Dinah, por cortesia com o chefe da missão, recorda factos agradáveis sobre o General Faidherbe quando ele foi Governador do Senegal; são lhe dadas notícias do general, o rei mostra satisfação em voltar a vê-lo se puder visitar a exposição em 1889.

Durante este período em que a minha coluna está imobilizada em Samiah para recrutar carregadores, tive o prazer de percorrer o rio Nuno e de recolher informações sobre a situação presente e o passado deste rio.

É com esta descrição que iniciaremos o texto seguinte.


Praia de Bolama: Porto Beaver, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Territórios franceses da Senegâmbia e do Sudão, com destaque para a Guiné Portuguesa
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carregadores e guias, desenho de E. Ronjat, segundo uma fotografia
Ataque de abelhas, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
O rio Grande do Geba, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Interior do estabelecimento comercial Maurel e Prom em Bolama, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Carta do território francês do Casamansa e distrito do Cacheu, feita pelo Capitão Henri Brosselard, dá perfeitamente para ver a região do Casamansa que detinha presença portuguesa, com sede em Ziguinchor, e que nos foi surripiada pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. A República do Senegal vive em permanência a rebelião do Casamansa, por razões fortemente étnicas, os povos do Casamansa, Djolas, não querem pertencer ao Senegal.
Uma das muitas imagens da Exposição Universal de Paris de 1889, referida na conversa entre o rei dos Nalus e o Capitão Henri Brosselard

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 8 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28164: Historiografia da presença portuguesa em África (534): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (2): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28180: Notas de leitura (1938): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Catarina Gomes escreveu um livro de referência. Já nos chamara a atenção com outra obra Pai, Tiveste Medo? - sobre a forma como a experiência da Guerra Colonial chegou à geração de portugueses filhos de ex-combatentes. A primeira edição desta obra está associada a uma série documental Filhos de Tuga (RTP 1). Tudo começou em 2013 quando, em termos jornalísticos, ela partiu para a Guiné-Bissau para contar esta história no jornal Público, os filhos deixados para trás. Foi procurada por muitíssima gente. O testemunho de Fernando Hedgar da Silva, a associação que ele criou destes filhos de tuga estimularam a continuar a sua investigação, percorreu os três países onde houvera guerra, e aqui temos a história do movimento da Guiné, obra deste Fernando, a espantosa história de Óscar de Albuquerque e a sua tia Filomena, a mana Emília, a incansável Rosa Monteiro que tinha imensas saudades do pai sem nunca o ter conhecido. Sim, obra de referência, vale a pena confiar em futuras investigações sobre estas crianças que ficaram em África, filhas de pais desconhecidos.

Um abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 4

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Não sei se o leitor se recorda que suspendemos esta viagem contando a história de Celestina e o seu irmão gémeo Celestino, filhos de um major reformado que andou por Bambadinca, que até contou à mulher que aqui teve um “deslize”, os gémeos entraram em contacto com a mana branca, de nome Emília, esta vai dando conta das suas diligências em auxiliar os manos guineenses à mãe, Sara Martins Prado. Este nosso major fez várias comissões acompanhado pela mulher e as filhas, mas na comissão na Guiné-Bissau esteve sozinho, e a autora aproveita a circunstância para falar destes militares que tinham encontros com as lavadeiras ou combinavam com outras mulheres idas à tabanca.

Dentro do quartel era tudo difícil para as praças, dormiam em casernas lotadas de homens, os furriéis acomodavam-se em quartos de quatro homens, só de capitão para cima é que tinham quarto privativo. O pai de Emília fora um desses privilegiados. O nosso major reformado, confrontado por Emília, encolheu os ombros. “O pai aceitou falar com o dito Celestino ao telefone, mas percebeu pouco ou nada do que lhe dizia o homem guineense que afirmava ser seu filho. O pai está muito surdo, mesmo com aparelho, passou o telefone à Emília. Mas o filho distante agarrou-se àquele número de telemóvel que agora o aproximava do pai, e passou a ligar com uma insistência que, em vez de os aproximar, os afastou.”

Será Emília quem se encarregará de ir ajudando os irmãos, enviando dinheiro ou roupas. A conclusão é de que aquele pai via a relação da filha com os gémeos de lá, mas não queria falar de afetos ou reconciliação, no fundo uma história com um final como muitas outras.

Catarina Gomes dedica um capítulo aos chamados pais procuráveis, isto é, tomando como verdadeiras as histórias dos filhos, ela procurava os pais putativos para dizer que aqueles filhos existiam, e tentaria apurar se estes pais desejavam saber deles. A primeira dificuldade a superar era localizar os pais com as informações dos filhos, as pesquisas nem sempre são frutíferas, para a investigadora os resultados são mais amargos que agridoces. É neste contexto que ela pega num caso que obteve um grande tantã mediático, a viagem de António Bento que viveu uma relação amorosa com Esperança em Luvuei, leste de Angola, quarenta anos depois viajou para se encontrar com o filho, é um relato emocionante até chegar ao encontro com o seu filho Jorge Paulo Bento, conhecido entre familiares e amigos como o Pula ou o Branco; em Luena, o filho é membro da polícia de intervenção rápida, António Bento fala com os superiores dos filhos, conhece a nora e os netos e depois chega o filho, ele fora mandado de avioneta militar de Luanda para vir conhecer aquele pai, ressuma uma ternura neste encontro, nos abraços e nas lágrimas.

“António veio dizer-lhe a sua data de nascimento, 15 de janeiro de 1975, veio dizer-lhe que nasceu na enfermaria do quartel português e não em casa. Jorge gostou muito de ouvir do pai que o pai gostou da mãe, no livro que António escreveu propositadamente para o filho vem escrito que a mãe esperança é a mulher que eu amei. António diz-lhe que queria muito dar um abraço a Esperança, ‘agradecer-lhe por te ter criado sozinha’. O pai veio dizer-lhe o nome dos seus avós, Maria José Carita Reisinho e Júlio da Graça Bento, que estão na certidão de nascimento que vai usar para registar o nome do seu pai. Veio mostrar-lhe fotos de uma mãe jovem que ele não conhecia, numa delas apontou-lhe para a barriga, dizendo: ‘tu estavas aqui’.”

Se o leitor estiver interessado em conhecer mais pormenores da história, consulte o site https://acervo.publico.pt/sociedade/noticia/quem-e-o-filho-que-antonio-deixou-na-guerra-1699039.

Catarina Gomes fala-nos de Rosa que tinha saudades do pai que não conhecera, o que dele sabia resumia-se ao seu apelido, Monteiro, que ela usa; o pai fora militar em Metangula, no norte de Moçambique, de 1967 a 1968 (Rosa nasceu a 22 de maio de 1968). Metangula era porto militar colonial, dali partiam as lanchas da marinha portuguesa. Há fotografias da mãe tiradas pelo pai, Fátima Ndala com t-shirt de algodão justa ao corpo, mini saia de pregas em tecido de padrão escocês, sapatos claros estilo sabrinas. Rosa vai mostrando tudo a Catarina, queria mesmo apresentar-lhe dezenas de filhos de marinheiros portugueses da base naval de Metangula, é uma das histórias mais emocionantes pela persistência em conhecer o pai, socorrendo-se das redes sociais, até se chegar ao momento culminante de vir a saber que o pai falecera com 67 anos, ela não desfalece, insiste em contactar o irmão branco, este não quer comunicação, a irmã, a mesma coisa, Rosa guarda um álbum completíssimo com a sua família portuguesa, espero que o leitor não perca este capítulo intitulado Saudades do Pai Monteiro.

A investigadora vai colecionando histórias, ouvindo resignações, tomando nota de palavras associadas àquele tipo de relacionamento espúrio e que ganham valor complexo, tais como namoro, conversa, casamento, marido, esposa, e algo mais, matéria que merece a maior reflexão:
“Mal termino de escrever sobre estas mães, vêm-me à mente estes pais acidentais, homens que se deslocavam em bando à procura de mulher, uma qualquer, saídos de um Portugal das décadas de 1960 e 1970, em que as mulheres se queriam virgens até ao casamento, em que as famílias protegiam a castidade das filhas, em que para muitas famílias as filhas terem relações sexuais antes da noite de núpcias significava ‘desgraçarem-se’. Elas deviam vestir-se decentemente, prescreviam-se saias a ¾, das pernas apenas podiam revelar-se os tornozelos.
Longe deste Portugal, tais jovens, a maioria vindos de aldeias, encontravam-se, pela primeira vez, fora do país, num estrangeiro em que havia mulheres que não usavam sutiãs, nem saiotes e combinações, apresentando-se ao mundo estranhamente despidas. Eles podiam até assistir ao mais íntimo dos rituais: o banho.
Aportaram num mundo com uma moral às avessas.”


De uma dignidade sem mágoa do início ao fim, esta investigação aborda um dos maiores tabus entre os militares portugueses, as crianças que ficaram para trás quando terminou o conflito e que andam há anos à procura de uma identidade perdida, e onde não deixa de ser chocante a indiferença do Estado português para reconhecer a dimensão desta realidade.
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Notas do editor:

Vd. post de 6 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28161: Notas de leitura (1934): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 12 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28177: Notas de leitura (1937): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): "O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e, pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América." (Angélica Lima, escritora e ediucadora brasileira)

sábado, 11 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28172: Os nossos seres, saberes e lazeres (740): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (261): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 6 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Iniciei a visita à cidade museu de Gjirokastër, Património da Humanidade, possui uma das fortalezas mais imponentes de toda a península balcânica, casas de arquitetura otomana que cortam a respiração, tudo em pedra, um singelo museu etnográfico onde até se guarda o berço do ditador Enver Hoxha, nasceu neste local, Gjirokastër é também a terra natal do maior escritor albanês do século XX, Ismail Kadaré, preferi andar um tanto à solta a contemplar a cidade em pedra, possui uma mesquita bem curiosa que quando o regime de Enver Hoxha decidiu que a Albânia era um país ateu, em 1967, foi transformada em escola de artes circenses. Ainda houve a tentação de ir visitar o parque arqueológico de Adrianópolis, fundada pelo imperador Adriano, mas o deslumbramento de toda aquela pedra pesou mais alto, ainda tenho imagens para vos mostrar.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (261):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 6


Mário Beja Santos

Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido, no decurso desta viagem; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, graças a nova viagem em furgão chegou-se a Përmet, esperava uma maravilhosa igreja ortodoxa, como se mostrou; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade.

Chega-se à cidade e lembra o que me aconteceu quando se chega a Bérgamo, a parte de baixo é igual a todas as outras, toma-se um táxi e em dado momento ganha-se a perceção que entrámos num mundo antigo, ruas de Bazar engalanadas com tapetes Kilim, a grande mesquita, poupada aos acontecimentos de 1967, quando o regime de Enver Hoxha decretou que a Albânia era um país ateu, destruíram-se templos ou converteram-se em ginásios, escolas de circo e muito mais coisas. É em povoações como Gjirokastër que sentimos uma Albânia que tem um dos povos mais antigos da Europa. Aqui subsistem vestígios de uma fortaleza imponente do século XIII, não deixa de nos assombrar que em torno desta cidadela se expande uma cidade singularíssima em pedra, que se iniciou nos primeiros anos do século XIV. Com a ocupação otomana, tornou-se um centro administrativo, aqui residia o Paxá. A cidade começou a crescer no século XVII e teve o seu desenvolvimento final no século XIX, tal como a conhecemos hoje.

A vista não se cansa de olhar para esta urbanização, possui bairros próprios, mas a unidade urbana salta à vista. Casas em pedra, ruas em pedra. Obviamente que o edifício de maior grandeza é a cidadela, teve benfeitorias até à década de 1810, ao tempo de um senhor feudal que deixou marca, Ali Paxá de Tepelena. O mercado coberto foi no passado um dos conjuntos arquitetónicos mais importantes da cidade, veio depois aa ser reconstruído em finais do século XIX no local onde hoje o encontramos, o grande bazar. É evidente que o visitante vem condicionado pelo que vem escrito nos guias, dão destaque ao património otomano, casas de vários andares, construídas em terreno rochoso, com características na distribuição interna, o ponto máximo do refinamento é o quarto de acolhimento dos hóspedes, o interior das outras divisões é de grande sobriedade. Preferi andar um tanto à deriva, tive a sorte de ficar num lugar perto do grande bazar e comecei a incursão pela fortaleza que possui dois museus, preferi cirandar e viver a atmosfera nesta cidade museu. O andar à deriva fez-me perder a visita a um dos bunkers que o regime mandou fazer na década de 1970, quando se supunha, que dentro daquela paranoia das invasões e de guerra termonuclear, que era determinante salvar a vida aos quadros comunistas. Sobre este assunto, limito-me a reproduzir fotografias do interior dessa construção da Guerra Fria.

Castelo de Gjirokastër, imagem retirada do site Tripadvisor, com a devida vénia. O castelo serviu de prisão durante o regime comunista, hoje a então área prisional foi transformada no museu dos armamentos.
Tanque italiano Fiat L6/40, de 1940, a generalidade destes tanques foi destruída em batalha, este exemplar foi encontrado na costa sul da Albânia, é uma peça de museu. Imagem retirada na visita ao museu dos armamentos.
Imagem da parte histórica de Gijirokastër, e, lá em baixo, coberto pela nuvem, a parte nova da cidade. A imagem é tirada do castelo, um dos mais velhos da Península Balcânica, parece um navio, como se procura mostrar noutra imagem, tem poderosas muralhas, uma área museológica, no seu interior realiza-se de cinco em cinco anos um altamente prestigiado Festival Mundial do Folclore, dado que a cidade é um centro de canto tradicional polifónico.
Vista aérea do Castelo de Gjirokastër
A torre do relógio do Castelo, a omnipresente envolvência das montanhas
Realiza-se neste local um dos mais importantes festivais de folclore de todo o mundo, de 5 em 5 anos
A Casa Zekate é uma das preciosidades do património otomano, construída entre 1811 e 1812, a casa pertencia a um dos servidores do Paxá. Na sua imensidade, dispunha de divisões para guardar os alimentos, entre a cave e o rés-de-chão, estábulos, o andar para os servidores e um amplo espaço para os proprietários. Impressiona com o seu aspeto de casa fortaleza.
Quarto dos proprietários
Quarto dos hóspedes
Na impossibilidade de aqui se mostrar o interior de todas as divisões, nomeadamente dos terceiro e quarto andares, divisões com muitíssimo interesse pela lógica de ocupação do espaço, pois há casas de banho com banhos turcos, salas de estar, espaços de convívio, etc. veja-se uma cama no terceiro andar, por baixo da escada.
Vista do quarto andar que permite ver a lógica de uma urbanização um tanto uniforme, transita-se sempre por chão empedrado.
Museu etnográfico de Gjirokastër, um pormenor
Duas imagens do bunker da Guerra Fria em Gjirokastër

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 4 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28157: Os nossos seres, saberes e lazeres (739): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (260): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 5 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28170: Notas de leitura (1935): "Lenços Negros, Lenços Brancos", memórias na primeira pessoa de um ex-combatente octogenário: Uma breve viagem pela literatura da Guerra Colonial (Intervenção feita na apresentação do livro, na ADFA, em 30/05/2026) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Junho de 2026:

Em 30 de maio fui à ADFA apresentar o livro do Coronel Manuel Martins Lopes, foi Ajudante de Campo do Marechal Costa Gomes e devo-lhe uma profunda estima. Lá fiz a minha intervenção com um papelinho de notas, tempos depois o Coronel telefonou-me a dizer que a gravação estava péssima e que eu me desse ao cuidado de alinhavar a escrita, será feito um suplemento do jornal ELO, o órgão da ADFA, nesse dia fez-se uma homenagem ao fundador da associação. Confesso que gostei do que escrevi e estou pronto a partilhar com malta do blogue, se achares útil.

Nada mais por ora a não ser um abraço fraterno,
Mário.



"Lenços Negros, Lenços Brancos", memórias na primeira pessoa de um ex-combatente octogenário: Uma breve viagem pela literatura da Guerra Colonial

(Intervenção feita na apresentação do livro, na ADFA, em 30/05/2026)

Mário Beja Santos

Quando e como se deu um corte radical entre a literatura ultramarina e a da Guerra Colonial

A literatura da Guerra Colonial é um subgénero literário, goza da identidade, a despeito da variedade de cenário que contempla, é do senso comum as discrepâncias geográficas dos três teatros africanos. Quando comecei a refletir sobre as memórias elaboradas pelo Manuel Martins Lopes, que combateu em Angola e que depois teve uma comissão com alta responsabilidade administrativa num ponto chave de Moçambique, julguei ter utilidade em comprovar a este auditório que há um corte radical entre a literatura do antes, durante e o após a Guerra Colonial. Na literatura ultramarina há temas-chave recorrentes, seja qual for o pano de fundo da colónia africana: o deslumbramento daa floresta, amores bem ou malsucedidos, envolvendo feitiços, usos e costumes étnicos, a dura vida de trabalho, em alguns casos a denúncia esquiva do trabalho forçado, a aproximação do colono aos ambientes locais, as páginas de descrição da vida na roça, a chegada do barco a vapor… quero só lembrar "Mariazinha em África", de Fernanda de Castro, "Chuva Braba", de Manuel Lopes, "Kurika", de Henrique Galvão, e "A Estufa", de Luís Cajão. Como é óbvio, nada de minas antipessoal e anticarro, as operações para prender ou aniquilar guerrilheiros, a dor da morte dos entes queridos, a tensão permanente na vida dos destacamentos defendidos por arame farpado.

Só mais uma nota sobre a literatura ultramarina. Permitam-me que exemplifique com o caso da Guiné. Em "Estudos Ultramarinos", publicação do Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, no seu número 3, de 1959, João Tendeiro publicou um artigo intitulado “Aspetos Marginais da Literatura na Guiné Portuguesa”. Diz o autor com a maior das clarezas:
“A Guiné não nos deu até agora um escritor nativo. No campo da ficção, as poucas obras de fundo têm sido escritas por europeus ou cabo-verdianos. É o caso dos romances e contos de Fausto Duarte e de vários contos esporádicos de Alexandre Barbosa e outros, publicados no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Mário Pinto de Andrade, se quis inserir, na sua Antologia da Poesia Negra, uma produção poética representativa da Guiné, teve de recorrer a um poema de um jovem cabo-verdiano, Terêncio Anahory Silva.”

Nesta Guiné de que fala João Tendeiro o português era falado por 1157 indígenas analfabetos e escrito por 1153. A literatura que apareceu foi obra de militares ou funcionários coloniais, caso dos "Contos do Caramô", de Viriato Tadeu, os contos publicados por António Carreira, Amadeu Nogueira e outros, em o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Não ficaram testemunhos do uso do crioulo. O mesmo Tendeiro observa:
“O crioulo enferma de todas as características as linguagens faladas e sem grafia independente. Quer dizer: quando transposto para a escrita fica subordinado ao idioma escrito da região. Não existe uma correspondência entre o crioulo e a ortografia portuguesa. Enquanto em Cabo Verde o crioulo assumiu o carácter de uma linguagem substituta dos idiomas nativos primitivos, enfeudada à língua portuguesa oficial, na Guiné reveste apenas o aspeto secundário língua aprendida, desempenhando entre as populações locais um papel semelhante ao dos idiomas utilizados nas relações internacionais entre os povos civilizados.”


Adiciono mais um comentário sobre a essência da trama literária ultramarina: histórias de aculturação, tratamento de fábulas e contos, em circunstância alguma põe em causa conflitos entre colonos e indígenas, operações de pacificação ou a chamada missão civilizadora portuguesa.


As diferentes fases da literatura da Guerra Colonial

Quando surgiram as primeiras obras, no início da década de 1960, ninguém supunha qual o peso da identidade e da autonomia do subgénero literário. Creio não haver contestação que entre 1961 e 1974 se impuseram incursões literárias de pendor apologético, exaltando as qualidades do soldado português, o valor da missão patriótica em defender o Ultramar, episodicamente foram surgindo romances ou contos onde veladamente, a guerra era tratada como tema incandescente. O exemplo que me parece mais flagrante foram as obras que Álvaro Guerra publicou depois de ter vindo da Guiné, onde fragmentariamente se impunham os desastres da guerra. A este escritor se deve o parágrafo que ainda hoje me comove pelo vigor da sua explosão emocional:
“Por lá chafurdei na lama das lalas, debati-me no turbilhão dos tornados, derreti-me na fornalha de um sol invisível, dissolvi-me na chuva vertical, e amei como um danado aquela terra que me injetou a febre, me secou, me expulsou a tiro. Mas nunca o preço do amor é excessivo, nem a presença da morte o pode aniquilar.”
Houve livros apreendidos pela PIDE, caso de "A Praça da Canção", de Manuel Alegre, teve a sua primeira edição em 1965, penso que o mais belo poema que se escreveu nesta literatura é "Nambuangongo, meu amor", veio publicado logo nesta edição.


Há, como não podia deixar de haver, características diferenciadas de quem escreveu sobre a Guiné, Angola ou Moçambique: são paisagens bem distintas, como distinto era o poderia militar e a capacidade de guerrilha dos diferentes nacionalistas, o que confere aos registos da escrita um quase poder intransitável. No entanto, pode argumentar-se que havia a solidão, a angústia, o fragor do fornilho, o matraquear súbito das armas pesadas e ligeiras de quem fazia a flagelação, é evidente que a perceção destes elementos ganhava um cunho universal. Mas o peso da geografia era indeclinável: 10Km na Guiné ainda hoje não são os mesmos 10Km em Angola ou Moçambique. E mais: os palcos de guerra tinham designações muito próprias, as árvores gozam de nomes próprios, havia intempéries, chuvas diluvianas, mas algo que identifica a narrativa: o crioulo, o tornado, o macaréu, a lepra, os ataques com mísseis. Ora os mísseis fazem parte da evolução da guerra, quem, por hipótese, escreveu um romance com as suas memórias baseado numa comissão militar entre 1965 e 1967, tem de se confinar ao armamento português e dos guerrilheiros da época.

Com o 25 de abril, com a liberdade de expressão, foram surgindo obras, até reedições, caso de "Tarrafo", de Armor Pires Mota, que tinha publicado as suas memórias durante a guerra no Jornal da Bairrada, nem a PIDE nem a Censura deram por nada, publicado no livro, deram conta que se falava de bombardeamentos com napalm, isto quando Portugal negava categoricamente nas Nações Unidas o seu uso em África. A grande safra literária eclode nas décadas de 1980 e 1990, impõem-se nomes, alguns vindos do passado, como Carlos de Matos Gomes, Álamo Oliveira, José Brás, António Lobo Antunes, João de Melo e surgiram mesmo grandes surpresas no virar do século, estou a pensar em "Estranha Noiva de Guerr", de Armor Pires Mota, um romance excecional que a crítica praticamente ignora.

Quando chegámos ao século XXI eram múltiplas as manifestações literárias: estudos militares, excursos históricos, reportagens, olhares da memória, visitas depois da guerra, ensaios, poesia, contos. Não é necessário fazer a contagem de tudo quanto se escreveu, o romance e as memórias superam todas as outras manifestações. Como tenho de fazer aqui uma síntese não pretendo adormecer o auditório, quero também recordar que algumas destas obras são hoje motivo de estudos universitários: é o caso de "Lugar de Massacre", de José Martins Garcia, que perto do 25 de abril pôs as letras em polvorosa, caricaturando os grandes ícones em que se constroem as mitologias militares.

Falando dos militares, independentemente do genial "Nó Cego", de Carlos Vale Ferraz, há relatos feitos por militares que se vieram revelar documentos indispensáveis, caso dos escritos de Salgueiro Maia, que esteve na operação em que se rompeu o cerco a Guidaje, torna-se percetível como o teatro de operações da Guiné estava completamente condicionado à plena iniciativa do PAIGC.

Posto isto, quero recordar a importância das investigações monográficas, dos levantamentos da literatura da Guerra Colonial feitos por João de Melo, Rui de Azevedo Teixeira e Margarida Calafate Ribeiro. Dou ainda conta que apareceram obras diarísticas, umas raramente escritas em cima da hora, outras recompiladas.

Escrevi em tempos que a despeito de uma maioritária falta de qualidade desta literatura, há parágrafos estranhados, há memórias que nenhum investigador pode enjeitar pelo poder que assumem na atmosfera da descrição da guerra, escrita por gente que combateu em terra, mar e ar.

Chegou hora de fechar o pano a esta literatura? Impossível, a obra que hoje analisamos é uma incontestável prova de vida. Finalizo esta minha cogitação antes de passar para a obra de Manuel Martins Lopes retirando um parágrafo de um livro que escrevi sobre a literatura da Guerra Colonial na Guiné intitulado "Adeus, até ao meu regresso" (a literatura dos e sobre os combatentes da guerra da Guiné), publicado pela Âncora Editora em 2012:
“Até ao lavar dos cestos, até estar vivo o último militar, há que contar com as surpresas da vindima, não há um mês em que não surja um título, um depoimento, um olhar sobre aquela guerra que se travou enquanto se caminhava na farroba de lala, entre cipós e tabás, militares acoitados atrás dos morros das formigas, a resistir à fúria das emboscadas, ou dentro dos aquartelamentos, imprecando em noites de flagelação destruidora. Este subgénero literário está muito longe de ter fechado para obras e muito menos para mudança de ramo.”

A singularidade de um itinerário: a família e o lugar, um desvio na vocação, a aprendizagem da guerra, a comandar no terreno conflitual angolano (a identidade dos lenços negros), comandante da polícia na Zambézia numa cativante operação de paz, era o tempo dos lenços brancos, e resultou.

Não vou aqui repetir o que se disse atrás sobre a natureza caleidoscópica das memórias. Há vigorosos testemunhos memoriais há décadas, mas temos de reconhecer que a memória ganha sempre o amadurecimento, graças também à distância do que foi a experiência de guerra. Voltando à Guiné, foi depois do século XX que surgiram depoimentos de grande calibre, caso do comando guineense Amadú Djaló, do fuzileiro José Talhadas ou do paraquedista Moura Calheiros, não contamos já com os documentos deixados pelo major Lobato (o mais longo cativeiro da Guerra Colonial), algumas histórias de companhias, a torna-viagem de quem combateu e volta ao lugar marcante, isto para já não falar num fenómeno relativamente novo que são as memórias dos filhos de quem combateu e que também vão querer conhecer esses pontos em que viveu o pai ou os pais.

As memórias do Coronel Martins Lopes têm a razão de ser de um itinerário único: o orgulho pela terra que o viu nascer e os valores inculcados pela família; os estudos num liceu longe de casa; a inviabilidade de satisfazer a sua vocação, o dinheiro não chegava para tudo; a ida para a Academia Militar e a confissão de que havia um indisfarçável desajustamento; em minúcia, descreve o seu desempenho angolano, a formação da lenda dos lenços negros, que gerou uma convivência que não abranda ano após ano; a mudança de Angola para Moçambique, coube-lhe na roda do destino ter os sentidos apurados para saber comunicar com os dirigentes da FRELIMO as melhores diligência para chegar à paz, que emergiu com o 25 de abril e as decisões de Lusaka. É ocioso dizer que ele não esconde o seu orgulho no vigor da reconciliação que acompanha toda a sua trama narrativa e que o leitor irá conhecer através da história de uma Bíblia apanhada durante o conflito e que agora regressou ao seu lugar. É o simbolismo de uma manifestação que acompanha toda a narrativa e que ilustra categoricamente esta caminhada dos lenços negros para os lenços brancos, a metáfora do mundo lusófono em que nos cremos todos numa irmandade de boa convivência, a da língua e a da História comum.

Parabéns ao autor e a minha profunda admiração por aqueles que o acompanharam com lenços negros e com lenços brancos.
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Nota do editor

Último post da série de 6 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28161: Notas de leitura (1934): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (3) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28164: Historiografia da presença portuguesa em África (534): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (2): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Importa explicar ao leitor que me sinto numa fase experimental nesta tentativa de coligir importantes relatos de olhares estrangeiros sobre a Província da Guiné nascida em 1879. Estou absolutamente convencido que fazer a História da Guiné exige uma multiplicidade de relatos que se prendem com o espaço da Senegâmbia, há que ter em conta os contributos de Cabo Verde e de espaços que hoje se designam por Senegal, Guiné-Conacri, talvez mesmo a Serra Leoa. Fui atraído pela perspetiva de que na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa se possam encontrar relatos de primeiríssima água e então este projeto teria pernas para andar, vamos confiar que há matérias palpitantes para engalanar o barco. O relato do Capitão Brosselard pareceu-me da maior utilidade e premência, Brosselard irá falar também da Senegâmbia, da terra dos Bagas e do Futa Djalon, regiões que antes de haver Província tinham bastante trato comercial com a nossa Pequena Senegâmbia. Devia esta explicação ao leitor, pois não se deve excluir que em determinado momento eu possa sentir que as fontes se secaram ou que dei com o nariz na porta.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - I:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (2):
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

Não quero induzir o leitor em falsas esperanças, peço que se tome esta iniciativa de procurar ver a Guiné pelos olhares de estrangeiros, em tempos do Terceiro Império, ou seja, a partir do último quartel do século XIX, em publicações que estejam depositadas na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, a título experimental. Não consigo vislumbrar se há muitos títulos interessantes que aqui se possam reportar. O tempo dirá.

Na continuação do ponto 3 que vem do anterior texto, é importante dizer que o relato do Capitão Henri Brosselard-Faidherbe me pareceu um bom ponto de partida, e espero ampliar o que ele escreve sobre a Guiné mostrando o mundo envolvente do que então se denominava por África Ocidental Francesa. Como vivemos tempos de grande imprevisibilidade, repito que vamos ver se a experiência resulta e se será possível encontrar textos de indiscutível valia. É este o aviso à navegação que faço. A publicação Le Tour du Monde era de grande qualidade e há imagens de cortar o fôlego. Quem então a dirigia tomou iniciativa de convidar Brosselard a contar o seu ponto de vista sobre a demarcação das fronteiras entre a possessão portuguesa e as francesas. O Capitão é o chefe da missão francesa parte para Bolama e interrompemos a narrativa precisamente com a descrição que ele faz da ilha e de quem a povoa. Retomando o texto anterior, damos de novo a palavra a Brosselard, não nos esqueçamos de que estamos em fevereiro de 1888.

Bolama passa por insalubre de junho a dezembro devido às chuvas que começam no fim de maio e vão até ao final de setembro, nessa época de chuvas aumenta a humidade durante as noites, o que é pernicioso para a saúde.

Os indígenas dos Bijagós são pretos rudes, mas empreendedores e navegadores intrépidos. Podemos vê-los nas suas pirogas a afrontar o mar mesmo no mau tempo. Na época do tráfico negreiro multiplicaram-se as incursões dos Bijagós no continente, pareciam piratas costeiros, raptavam os habitantes para os vender aos negreiros. No século passado vendiam de 300 a 400 cativos por ano; a sua obsessão pela aguardente levava-os mesmo a venderem-se uns aos outros. Todavia, os negreiros tinham pouco interesse nos escravos Bijagós.

Levados para o continente americano, só trabalhavam à custa de pancada, procuravam sempre fugir e acabavam por se enforcar.

As ilhas do arquipélago são muito vicejantes: a praia coberta de areia fina, as árvores chegam à beira-mar, as palmeiras e as laranjeiras formam espessas florestas. A vegetação é sempre verde. As bananeiras e laranjeiras dão frutos deliciosos. São ilhas encantadoras, mas o seu acesso ao navegador é dos mais arriscados, pois na orla marítima há muitos bancos do lodo mole, misturados de areia que as correntes deslocam muitas vezes, o que impõe imensa prudência na navegação; as correntes são numerosas e fortes, os barcos são facilmente desviados da rota ou podem mesmo naufragar. Quando um navio naufraga, surgem pirogas de todos os pontos do horizonte e a coberta do navio naufragado é tomada de assalto pelos Bijagós.

1 - As possessões portuguesas costeiras estavam dependentes da administração de Cabo Verde, do arquipélago chegava um Governador que dependia diretamente do Governador de Cabo Verde, dispunha de alguns subordinados e de uma centena de soldados, a maior parte eram indígenas de Cabo Verde.
Os portugueses ocupavam na Guiné Ziguinchor, Cacheu e Farim, Bissau e Geba. Em 1870 decidiu-se agrupar estes entrepostos em colónia autónoma. Bolama foi escolhida a Bissau como capital devido ao seu clima ser reputado como mais saudável.

Para criar recursos financeiros, estabeleceram direitos alfandegários e um ruinoso importo sobre a terra, dito imposto predial rural que imobilizou logo as tentativas agrícolas que estavam em curso em diferentes lugares devido a iniciativas de casas comerciais. A crise agrícola foi enorme, seguiu-se a crise comercial que atingiu muitos estabelecimentos franceses, que eram responsáveis por quase a totalidade do comércio da Guiné Portuguesa: Blanchard e Companhia; J.-B Pastré e Companhia; Maurel e Prom; Thiraiziot, Meinet; Oesliner de Conning. Estas casas eram as únicas a deter o monopólio da exportação, os estabelecimentos portugueses davam-lhe colaboração. A importação, salvo o tabaco que vinha da América, era essencialmente europeia. Hoje a importação diminuiu e a exportação não se dirige mais exclusivamente a Marselha, pois uma linha de vapores portuguesa serve a Guiné com um serviço regular, o que permite aos comerciantes portugueses poderem abastecer-se diretamente da metrópole. Parece à primeira vista que para eles seria mais fácil fazer concorrência ao comércio francês, já que eles estão protegidos por direitos alfandegários e municipais. Mas tal não acontece: estes comerciantes não têm um crédito suficiente para comprar as mercadorias que só são fornecidas em grandes quantidades e com obrigatoriedade de serem pagas num lapso de tempo curto; por isso os comerciantes portugueses continuam a fazer os seus negócios com as casas francesas.

2 - Apesar dos recursos de toda a natureza que a Guiné quase possui, o sistema de impostos introduzidos pela Administração arruína a colónia. Constatamos com pesar que os portugueses não parecem querer alterar esta deplorável situação. E na falta de artigos, porque não há por exemplo tabacos portugueses, encoraja-se o contrabando.

Desde a minha chegada a Bolama que me ocupei do recrutamento de transportadores. Pretendia recrutar entre 20 a 30 destes indispensáveis auxiliares. Em Bolama deparei-me com uma dificuldade intransponível para encontrar os auxiliares. O Tenente Oliveira, chefe da delegação portuguesa tinha arrebanhado ali todos os que estavam dispostos a cooperar com esta missão e dispunha já 50 carregadores, o que era ainda um número insuficiente. E punha-se, pois, procurar o aprovisionamento fora de Bolama.

Ficou decidido que a canhoneira Guadiana transportaria até Bissau os senhores Galibert e Cabral que iriam tentar recrutamento dos carregadores. Partiram a 1 e regressaram a 3, não tinham tido o menor sucesso. Decidi imediatamente que a comissão francesa deveria dirigir-se para o rio Nuno havia aqui uma maior possibilidade de arranjar transportadores que na colónia portuguesa.

Os aprovisionamentos, organizados em dois carregamentos distintos e destinados a subir mais tarde o rio Geba foram embarcados para Bissau, onde o senhor Galibert os confiou ao representante da casa Blanchard. Depois de negociar com a comissão portuguesa, acertámos o encontro em Kandiafara em 12 de fevereiro, por se supor que esta povoação estava situada na linha fronteiriça que tínhamos o propósito de determinar.


Praia de Bolama: Porto Beaver, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Territórios franceses da Senegâmbia e do Sudão, com destaque para a Guiné Portuguesa
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carregadores e guias, desenho de E. Ronjat, segundo uma fotografia
Ataque de abelhas, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
O rio Grande do Geba, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Interior do estabelecimento comercial Maurel e Prom em Bolama, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Carta do território francês do Casamansa e distrito do Cacheu, feita pelo Capitão Henri Brosselard, dá perfeitamente para ver a região do Casamansa que detinha presença portuguesa, com sede em Ziguinchor, e que nos foi surripiada pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. A República do Senegal vive em permanência a rebelião do Casamansa, por razões fortemente étnicas, os povos do Casamansa, Djolas, não querem pertencer ao Senegal.

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 1 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28147: Historiografia da presença portuguesa em África (533): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (1): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28161: Notas de leitura (1934): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Se já estava afeiçoado ao que Catarina Gomes nos oferecera na 1.ª edição deste livro, em 2018, consolidei que esta edição de 2026 comprova como esta investigadora intensifica o vigor e a luminosidade que põe nas suas reportagens, a ponto de a dor sentida por estes filhos de tuga mexerem connosco. É uma nova dimensão dos estudos da história da guerra colonial que Catarina Gomes abriu as portas. Estamos perante factos consumados, não se podem fazer contas a quantos filhos de tuga, uns se resignaram ao abandono, outros buscam a identidade, e a única coisa certa que conhecemos é que tanto o Estado português como Angola, Guiné e Moçambique não se prepararam para reconhecer a dimensão desta realidade que a autora tão meritoriamente veio desvelar, escancarando os tabus, não deixando de nos alertar para as suscetibilidades que envolvem antigos combatentes que não têm coragem de dizer às suas famílias que há "restos de branco", carne da sua carne, a pedir identidade no clamor lá longe.

Um abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 3

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Depois da história de Óscar Albuquerque e da sua tia Filomena, uma narrativa sublime, onde se cruzam a dedicação, onde subjaz sempre uma forma de ternura e há um pai biológico que se põe a milhas da vida desse filho, tudo entremeado por uma burocracia infernal, temos agora os manos Celestina e Celestino, irmãos gémeos, há também um jovem branco que é o pai destes dois adultos mestiços, por acaso oficial do quadro permanente, saberemos pela narrativa que há um major reformado que tem uma filha chamada Emília, que não ficará indiferente a estes dois filhos de tuga, seus irmãos, residentes em Bambadinca.

A história começa com uma fotografia do pai dos gémeos, que está emoldurada por decisão de Celestino, este escreveu muitas vezes ao pai, não obteve resposta. Os irmãos guineenses entraram em contacto com a irmã branca através de uma carta endereçada à Excelentíssima Mana Emília Martins Prado, pediram-lhe algum dinheiro para os ajudar a viver um pouco melhor e também a fotografia do pai dos três. Emília apresentou-se, professora de Geografia, com três filhas adolescentes, vivendo numa cidade no norte de Portugal. Em nova carta Emília foi muito clara: “Sou só eu que desejo contactar convosco. Como compreendes, não posso enviar uma fotografia de uma pessoa que se recusa a estabelecer contacto convosco.” Um início de história pouco promissor.

Contudo Emília não está propriamente sozinha nesta história, tem a mais improvável das aliadas, a sua mãe, Sara Martins Prado, 82 anos, também professora – a suposta mulher traída pelo militar que já era casado quando fez os filhos gémeos na guerra. Sara sempre desconfiou de qualquer coisa. Aliás, muito interpelado por Sara, o oficial contou a verdade, deixara crianças na Guiné. Em comissões anteriores, Sara e Emília, e depois uma outra irmã, acompanharam o militar em Moçambique e Angola. Ele esteve sozinho depois na Guiné, numa geografia inventada por um qualquer estratega chamada Setor L1, o pai de Emília esteve em Bambadinca, as crianças nasceram de uma relação com a lavadeira.

A história agora ganha intensidade, Celestino corresponde-se com a tia Emília, cada um dos gémeos tem um descendente. A situação de Celestino preocupa Emília. “Celestino é carpinteiro sem carpintaria. O que consegue construir fá-lo usar ferramentas emprestadas por um vizinho, a bancada improvisada debaixo de uma árvore carregada de mangas. Portas e janelas são o que mais sai, mas ele tem competências também para montar tetos falsos. E não só. Um baú de madeira em casa de uma tia está protegido por um pano que Celestino afasta, como uma cortina que protege um quadro numa exposição, para que se veja como o alindou com trevos de quatro folhas gravados na tábua; noutra das arcas da sua lavra cunhou palmeiras, numa terceira um pelicano.”

Vamos conhecendo a família, a discreta Celestina, o seu filho Nadu, o filho de Celestino chama-se Geovane, os gémeos mudam de nome, fazem desaparecer os apelidos da mãe, Gomes Correia, para os substituir por Machado Prado, o nome do pai. Emília vai sabendo de tudo, como funcionam as creches e as escolas, uma parente afastada dos gémeos que vive em Portugal, de nome Carla, aconselha Emília quanto aos critérios da distribuição de dinheiro.

Emília fica atónita quando sabe que Celestina e Nadu estão em Portugal, o rapaz tem um problema nos olhos, toca de ensinar português a Nadu, o português de Celestina também vai melhorando. Nadu vai para uma instituição chamada Casa do Gaiato, em Miranda do Corvo, estuda com aproveitamento, a tia estimula-o. A relação entre irmãos é permanente, Celestino envia um SMS à mana, a mulher dera à luz uma menina, o seu nome é Emília Carla. Emília manda sistematicamente roupa infantil para a afilhada e não só.

E o pai dos gémeos, continua indiferente? A história termina, sabendo nós que tudo irá continuar com as preocupações da mana Emília e os sucessivos percalços na vida dos gémeos, assim:
“Emília e o pai vivem perto e são próximos, ainda há pouco ele saiu de sua casa. Há, dobradas pelos cantos, roupinhas de menina pequena. Não tem qualquer preocupação em escondê-las, pelo contrário, inconscientemente talvez as queira expor, como quando a mãe quis deixar o artigo do jornal no caminho do olhar do pai.
É impossível que o pai não repare nas saiinhas espalhadas pela casa, como uma com galo e galinha bordados em tecido de xadrez colorido. É impossível que não se tenha apercebido da acumulação de meiazinhas, sapatinhos, e que isso não lhe cause estranheza. Não há crianças pequenas na família. ‘Ele vê.’ Emília soa a criança travessa quando diz, algo sonsamente, que cumpre o que o pai lhe pediu. ‘Não falo disso’.”


A saga de Catarina Gomes vai prosseguir, temos seguidamente pais procuráveis, provavelmente não resistiremos às saudades do pai Monteiro, que a televisão se encarregou também de difundir, e a autora irá despedir-se com uma listagem de filhos que procuram pais portugueses, do género:
“António Urbino Gonçalves Brito. O pai seria 2.º grumete, originário de Câmara de Lobos, na Madeira, nascido a 11 de junho de 1951. Consta que até tentou raptar o filho pequeno para o levar para Portugal, mas que os familiares da mãe o impediram. Vive em Bissau.”
E também:
“Erasmo Fonseca. Engenheiro mecânico agrícola, nasceu em 1969. Os seus estudos levaram-no até Cuba. A sua mãe, Maria Geralda Soares Cassamá, era professora primária em Quinhamel, perto de Bissau. O furriel, de quem usa o apelido, esteve colocado no quartel de Binar, onde conheceu a mãe, numa festa em casa de familiares.”


(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 29 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28144: Notas de leitura (1932): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 3 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28152: Notas de leitura (1933): "Retratos de Guerra", desenhos de Cristina Sampaio a partir da obra de Neves e Sousa, uma exposição a não perder na Livraria Municipal Verney, Oeiras, patente ao público até 14 de Novembro (Mário Beja Santos)