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sábado, 17 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27643: Os nossos seres, saberes e lazeres (718): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (239): Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 6 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Ando por aqui sempre com a sensação de uma visita de médico, a visita à Mesquita era ponto obrigatório, as escolhas subsequentes, caso do alcázar dos reis católicos, a judiaria, os museus, os bairros típicos, preferiu-se optar por um passeio descontraído depois da visita à Mesquita e reservar a manhã seguinte, antes de partir para Tavira, ao bairro de Santa Marina e visitar cuidadosamente o Palácio de Viana, uma casa senhorial com surpreendentes jardins. Tudo começou andando à volta da Mesquita, contemplou-se o Pátio das Laranjeiras e com roteiro na mão percorreram-se as sucessivas etapas de construção entre os séculos VIII e X. Para surpresa do visitante há uma brochura em português que delineia o faseamento da construção, mostrando as sucessivas ampliações, as portas, tudo começando, como se procurou aqui mostrar na Mesquita fundacional de Abderramão I, que adota em planta um modelo basilical inspirado nas de Damasco e Jerusalém. Não deixa também de surpreender a reutilização de materiais onde não falta inspiração helenística, romana e visigoda. Pois vamos continuar.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (239):
Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 6

Mário Beja Santos

Córdova, durante o período do domínio romano, foi capital da Bética, uma das cidades mais importantes da Península Ibérica. Com a conquista árabe, converteu-se na cidade mais cosmopolita e refinada do ocidente. O legado romano foi enorme, em Córdova surgiram figuras de grande estatura como Séneca, o Retórico, e seu filho, o filósofo estoico e percetor de Nero, Séneca, bem como o poeta Lucano. Córdova foi conquistada em 711, os emires residiram na cidade desde 711. Em 755, Abderramão I, o único sobrevivente Omíada da matança ordenada pelos Abássidas, criou o Emirato independente, não reconhecendo a Bagdade mais do que a supremacia religiosa. No século IX, durante o reinado de Abderramão II haverá um grande florescimento cultural. Em 929, Abderramão III proclama o Califado de Córdova, com independência total. É um tempo de paz e prosperidade que favoreceu um esplendor cultural sem precedentes. Reina a tolerância religiosa permite às cultural judaica, cristã e muçulmana um convívio pacífico. Córdova torna-se na grande capital de todo o ocidente. A sua população chegou a superar os 250 mil habitantes, havia 3 mil mesquitas, uma infinidade de lojas e banhos, teve universidade, bibliotecas, edifícios sumptuosos.

No século XI deram-se intensas lutas internas que desembocaram na dissolução do Califado, surgiram os chamados Reinos de Taifas. Destacaram-se muitas personalidades neste período tanto no campo científico (caso da astronomia, matemáticas e medicina), como no filosófico, em que os nomes mais salientes foram o muçulmano Averróis, um comentador muçulmano da obra aristotélica, e o judeu Maimónides, filósofo e médico.

Em 1236, Fernando III, o Santo, reconquistou Córdova, mas a presença muçulmana tornou-se inextinguível, com destaque para a Mesquita, a cidade continua marcada por uma urbanização de cunho árabe.

A Mesquita-Catedral atrai todos os anos milhões de turistas, vêm procurar contemplar um monumento único no mundo. Sobre a basílica visigótica de São Vicente erigiu-se entre os séculos VIII e X a Mesquita tal como a conhecemos. Depois da Reconquista, os cristãos enxertaram uma catedral gótica, e daí o visitante contemplar um edifício tão heterogéneo, formado por dois oratórios completamente distintos.

Uma breve síntese das imagens que se seguem. Vou caminhando em direção à Mesquita, passo por duas belíssimas portas do lado direito e entro num edifício que hoje dá pelo nome de Palácio de Congressos e Exposições, antigo hospital.

Uma das entradas para a Mesquita-Catedral de Córdova, Património da Humanidade desde 1984, a sua construção original começou em 784 d.C., tinha na base uma basílica visigótica.
A imagem mostra uma estátua de Dom Quixote sentado numa pilha de livros, localizada no pátio do Palácio de Congressos de Córdova.
Retábulo da capela do antigo hospital de São Sebastião em Córdova, a capela foi concluída em 1516, atualmente, o edifício do antigo hospital funciona como o Palácio de Congressos e Exposições de Córdova.
A imagem mostra uma porta de entrada arqueada para a Mesquita-Catedral de Córdova, apresenta uma mistura única de estilos arquitetónicos islâmicos e cristãos, refletindo a sua história de conversão de mesquita para catedral.
Já estou no interior desta obra-prima da arte muçulmana, a sua planta responde ao esquema tradicional da Mesquita árabe que tem a sua origem na casa do profeta Maomé em Medina: um recinto retangular fechado, um pátio de abluções, a sala de orações e um minarete. Abderramão I iniciou a construção da Mesquita com 11 naves que se abrem ao Pátio das Laranjeiras. Na sua construção utilizaram-se colunas de mármore e capitéis de edifícios romanos e visigóticos. Com o objetivo de elevar o conjunto recorreu-se à sobreposição de dois pisos de arcos, dispondo-se as colunas com um segundo piso com pilares, solução de grande originalidade Abderramão II fez a primeira ampliação, Al-hakam II voltou a ampliar e construiu o Mihrab (é um nicho em arco ou reentrância na parede de uma mesquita que indica a Qibla, isto é, a direção de Meca). Por último, Almansor acrescentou 8 naves paralelas às primeiras (reconhecem-se porque o pavimento é de cor vermelha, deu-lhe as dimensões definitivas.

Estou no Pátio das Laranjeiras, tem este nome devido às laranjeiras plantadas pelos cristãos depois da Reconquista. Os muçulmanos antes de iniciar as suas orações deviam realizar abluções na fonte do pátio. Vejamos agora o Minarete, o ponto alto destinado ao chamamento para a oração. Abderramão III foi quem ordenou a construção do minarete monumental de 47 metros, o que testemunha a grandeza do autoproclamado Califa. Foi modelo para a construção posterior de famosos minaretes, como os de Sevilha, Marraquexe e Rabat. Embutido na torre do campanário, pode ver-se a sua estrutura e decoração no interior.

Em 1589, um terramoto afetou gravemente a estabilidade do minarete a que se havia acrescentado um corpo superior de campanário. No Pátio das Laranjeiras pode observar-se o que terá sido o primitivo minarete.
Começa aqui o espetáculo surpreendente, contraste entre os elementos cristãos e o bosque de colunas e árvores. Logo chamo a atenção a cor e as sombras, a formosura dos arcos em ferradura (herança visigótica) apresentam uma alternância de aduelas vermelhas e brancas. Esta bicromia enriquece com as tonalidades dos fustes das colunas em que predominam os tons acinzentados e róseos.
Inicia-se a visita pela zona mais antiga da construção, passamos pela nave central da primeira Mesquita e ainda não se consegue ver o mihrab. As naves correm perpendiculares ao muro da quibla é nesta direção que se orienta o muçulmano a rezar, é o muro voltado para Meca. Não deixa de surpreender a magnificência da decoração onde não existe a figura humana, devido aos preceitos religiosos muçulmanos, daí os artistas terem desenvolvido ao máximo os elementos decorativos de inspiração vegetal ao geométrica.
Numa zona reservada a peças soltas de inestimável valor, destaquei uma placa de pedra esculpida com um padrão de rosetas e círculos entrelaçados.
O teto de caixotões de madeira restaurado na imagem é do interior da Mesquita-Catedral de Córdova, apresenta intrincados padrões geométricos e caligráficos, típicos da arte islâmica e mourisca.
Uma fascinante mistura de arquitetura mourisca e elementos cristãos, como se pode ver na rosácea.

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 10 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27623: Os nossos seres, saberes e lazeres (717): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (238): Ver a Alhambra por um canudo, visitar o Palácio de Carlos V e partir para Córdova - 5 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27639: Notas de leitura (1886): Notas soltas sobre a renovação do nacionalismo imperial português (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Muito se tem falado sobre esta I Exposição Colonial, acabou por funcionar como o ensaio geral da Exposição do Mundo Português, pelo meio ainda se fez uma exposição no Parque Eduardo VII, nova exibição de matérias-primas e de atração aos investimentos e convocação de mão-de-obra. O evento constituiu uma declaração ideológica, Portugal assumia a sua missão civilizadora , tocava a rebate para mobilizar as almas, exaltava-se o espírito missionário, a propaganda tudo fez para mostrar que "Portugal não era um país pequeno". Ponto curioso, a presença guineense mereceu primeiro destaque, faziam-se excursões para ir ver as Bijagós em tronco nu, todo aquele exotismo encantava gente de todas as idades. O régulo Mamadu Sissé mereceu todas as honras, na pintura, na fotografia de Domingos Alvão, nos desenhos de Eduardo Malta, era a dimensão da pose de um soberano, destemido e profundamente fiel à bandeira portuguesa.

Um abraço do
Mário



Notas soltas sobre a renovação do nacionalismo imperial português

Mário Beja Santos

A I Exposição Colonial, que se realizou no Porto, em 1934, põe em prática os princípios ideológicos e programáticos do Acto Colonial de 1930, promulgado ainda durante a Ditadura Nacional, e que consagrou doutrina aceite na Monarquia Constitucional e I República, isto é, alterada a nossa presença em três continentes depois da Revolução de 1640 e com a separação do Brasil, o poder político manteve uma ideia imperial e um espírito de missão. Acresce que as decisões tomadas na Conferência de Berlim implicaram o envio de tropas, a procura de subordinação das chefaturas africanas, a atração de investimentos; a I República arrepiou caminho quanto aos critérios de missionação e ensaiou a descentralização política com a criação de altos-comissários. Salazar pôs a sua assinatura no Acto Colonial, ficou claro a subordinação das colónias aos interesses da metrópole, definiu-se a nação no desempenho da função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas; apagou-se a autonomia financeira e administrativa das colónias, estabelecendo-se critérios de rigor financeiro; com as devidas cautelas, as companhias privadas, muitas delas internacionais, perderam poderes soberanos, irá sendo a sua presença gradualmente vigiada, e no caso da Guiné serão substituídas por empresas que interessavam ao Estado fornecer matérias-primas à metrópole, será assim com a Casa Gouveia (dependente da CUF) e a Sociedade Comercial Ultramarina (associada ao Banco Nacional Ultramarino).

Em termos históricos, a Exposição Colonial do Porto deixa transparecer a renovação ideológica preconizada pelo Estado Novo. Nesta obra aqui referida, há um texto altamente sugestivo assinado por Francisco Vieira Machado, então do Governo, e mais tarde a figura de proa do Banco Nacional Ultramarino. O texto que ele deixa publicado intitula-se No Rumo do III Império:
“Há através da história de Portugal uma Ideia, ou antes, um ideal, que decerto enraíza na própria essência da alma e do carácter dos portugueses, tal é o rigor que se forma e a persistência com que renasce: o ideal da formação dos Impérios.

Esboçado e vago na organização do Infante, mais preciso sob a preciosa vontade de D. João II, ganha a primeira expressão real e perfeitamente enformada com Afonso de Albuquerque. E o primeiro esforço imperial da parte portuguesa despende-se no sonho de formação de um grande Império Asiático com guardas vigilantes em Áden, Ormuz e Malaca. Desfeito com a morte do grande político e guerreiro o plano tão audaz e inteligentemente iniciado, logo outro grande português – e esse tão desconhecido, tão caluniado, tão incompreendido por mais de três séculos de História: D. João III! – nos lança para a formação do Império Sul Africano. E do novo sonho, do novo rumo que o Ideal português procura, nasce esse portentoso Brasil, descoberto, colonizado, povoado e engrandecido por gente portuguesa.

Num vale escuro da História, invadidos nas organizações políticas e nas almas, pela ideologia de 1789, alheados do sentido da nossa grandeza e da nossa missão pelo falso esplendor de novas ideias, perdemos o Brasil e o rumo imperial da nossa nação nas Colónias.
Passam-se longas dezenas de anos – quase um século.
Uma geração de escol, que em si guardava as mais ricas virtudes de Portugal, levanta de novo a ideia colonial, lança-se para África, ocupa, pacifica e refaz e fixa as novas fronteiras imperiais.
Depois deles outros seguiram o seu esforço heroico.
E novamente o sonho do Império – desta vez o Império africano – ganha forma e encontra o velho Ideal português.
Estamos novamente no caminho do Império.”


Henrique Galvão foi mais do que o organizador da I Exposição Colonial, coube-lhe a ação de sensibilização da elite portuense para tirar partido de se ter escolhido o Porto para mostrar as gentes e as riquezas do Império. Dirá no decurso da sua exposição a estas elites que “Portugal é a quarta potência colonial do mundo, com um passado cheio de tradições, de aventura, arrojo e abnegação. Detém ainda, sob a sua soberania, vastos territórios de um património colossal.” Chama a atenção que embora em redor da Exposição Colonial tenha sido feita uma campanha de propaganda intensa, ao longo de dez meses, procurando esclarecer e despertar atenções, havia muito ainda para revelar: o que se pretendia com o certame, sabendo de antemão que a maioria das pessoas que o iriam visitar, vinham acicatados pela curiosidade, impunha-se aproveitar a oportunidade para fazer conferências, mostrar as riquezas coloniais, atrair gentes para irem até às colónias.

A Agência-Geral das Colónias, por seu turno, iria produzir documentação sobre os bravos militares, episódios da história da colonização, falar da nossa presença em todas as colónias. O objetivo primordial era formar as elites do regime e tendencialmente os investidores.

A Exposição foi um êxito e, ponto curioso, mais do que marcar presença, o que se mostrou da Guiné foi o que mais se guardou na memória e na imagem.

Henrique Galvão explica à elite comercial portuense os objetivos da I Exposição Colonial
Régulo Mamadu Sissé, um dos operacionais do Capitão Teixeira Pinto, fotografia de Domingos Alvão
Indígenas Bijagós numa das suas pirogas. Fotografia de Domingos Alvão
Um áspeto da aldeia lacustre dos Bijagós, fotografia de Domingos Alvão
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Nota do editor

Último post da série de 12 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27630: Notas de leitura (1885): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte VIII: um quartel no coração chão mancanha (Luís Graça)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27634: Historiografia da presença portuguesa em África (512): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1956 (70) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Junho de 2025:

Queridos amigos,
Estes útlimos meses da governação de Diogo de Mello e Alvim processam-se num quadro de uma total normalidade administrativa. O seu antecessor, Raimundo Serrão, sonhara com um colégio-liceu, agora cria-se um Instituto Liceal com o nome de Honório Barreto, ficará assim crismado até ao fim da presença colonial. Há arranjos organizacionais da PIDE também para o Ultramar, e ficaremos a conhecer o efetivo da Guiné; tudo levava a crer que iríamos ter uma indústria de artigos de borracha sobre a égide da Cobornel; irão ser definidas pensões de invalidez para cipaios e intérpretes com mais de 20 anos de serviço, por motivos de doença incurável ou avançada idade; o antigo régulo de Sam Corlá (posto administrativo de Contuboel), tinha sido preso e amnistiado em 1947, fazia-se agora rogado para voltar a ocupar o seu lugar, o Encarregado do Governo considerava que era princípio em direito que indivíduo destituído de um cargo pela prática de atos desonestos não devia voltar a ocupá-lo; definem-se igualmente bolsas de estudo e disciplina urbanística, no plano dos princípios era exigida pelo menos para Bissau. Vai agora começar a governação de Silva Tavares que já estivera na Guiné como delegado do Procurador-Geral da República.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1956 (70)


Mário Beja Santos

É o último ano da governação de Diogo de Mello e Alvim, tudo decorre na mais completa das normalidades. No Boletim Oficial n.º 2, de 12 de janeiro, o governador emite Portaria em que considera que a designação de Colégio-Liceu de Bissau não é correta, a que mais se ajusta ao espírito do estabelecimento de ensino é de Instituto Liceal, convindo enriquecê-la com o nome de uma prestigiosa figura do passado, a escolha recaiu em Honório Pereira Barreto, filho da província e seu antigo governador, daí o nome Instituto Liceal Honório Barreto, todos os anos, em 24 de abril, data de nascimento deste patriota guineense haverá festejos para se apontar à mocidade o exemplo de uma vida inteiramente devotada à integridade territorial da Guiné. No Boletim Oficial n.º 3, de 19 de janeiro, publica-se a Portaria n.º 15568 do Gabinete do Ministro do Ultramar, tem a ver com o Centro de Estudos de Cartografia e Geografia Colonial, que irá passar a denominar-se Centro de Geografia do Ultramar, com competências para promover ou realizar, entre outros, estudos de geodesia e hidrografia, geofísica, geografia física e humana, etc.

No Boletim Oficial n.º 10, de 8 de março, é deferido o pedido da Corbonel – Companhia da Borracha da Guiné, Lda., para montar na cidade de Bissau uma oficina de fabrico de calçado e de todos os artefactos de borracha, à exceção de pneus. No Boletim Oficial n.º 16, de 19 de abril, publica-se o Decreto-Lei n.º 40541, introduzindo alterações no funcionamento dos quadros da PIDE, podemos ver o seu efetivo na Guiné, publicado no mesmo Boletim Oficial. Em 4 de agosto, no Boletim Oficial n.º 31 temos o texto da Portaria n.º 772, que vem assinada pelo Encarregado do Governo, Abel de Sousa Moutinho, confiro-lhe a relevância suficiente para transcrever o essencial:
“O território de Sam Corlá, da área do Posto Administrativo de Contuboel, com predomínio de indígenas da tribo Mandinga que se computa em dois terços da sua população, tem estado sob a chefia de um regedor indígena da tribo Fula-Forro e julga-se que este facto é uma das razões de constantes dissidências que nele se vêm verificando.
Assim, mostra-se realmente necessário, para a normalização da política indígena e facilidade de atuação da autoridade administrativa, que o referido território deixe de estar sob a chefia de um único regedor. Considerando que se nota ali uma perfeita delimitação das zonas de fixação das tribos Mandinga e Fula-Forro, tendo em vista a doutrina do Estatuto dos Indígenas Portugueses, o território de Sam Corlá passará a constituir duas regedorias indígenas, uma compreendendo as povoações onde se verifica predomínio de indígenas da tribo Mandinga e a outra englobando as povoações em que há predomínio de indígenas da tribo Fula-Forro. Para a chefia de cada uma das regedorias a que se está a fazer referência só poderá ser nomeado regedor indígena da respetiva tribo predominante, a nomeação dos regedores fica a cargo do administrador do concelho de Bafatá.”


No Boletim Oficial n.º 31, de 4 de agosto, faz-se referência ao despacho em que o indígena Sambel Coio Baldé, quando régulo da região de Sam Corlá fora condenado a prisão pela prática de vários crimes e a sua atuação como autoridade gentílica revelara-se extremamente inconveniente, por isso fora destituído. Entretanto, aquando da visita do Subsecretário de Estado do Ultramar à Guiné em 1947, concedera-se amnistia a certos delitos, Sambel Baldé obtivera indulto do resto da pena que então lhe faltava cumprir, fora autorizado a regressar ao mesmo regulado e pretendia agora reintegrado no seu antigo cargo. O Encarregado do Governo considerava que o individuo destituído do cargo pela prática de atos desonestos, acrescendo que causara naquele regulado perturbações que poderiam acentuar-se com a pretensão de ser reposto no lugar de régulo. E assim era decidido fixar-lhe residência na Ilha Formosa e interdita a todo o tempo a entrada e permanência no concelho de Bafatá.

No Boletim Oficial n.º 32, de 11 de agosto, publica-se o Diploma Legislativo n.º 1632 que se prende com a concessão de bolsas de estudo. Passam a ser instituídas anualmente duas bolsas de estudo destinadas a beneficiar estudantes naturais da província que tendo concluído o 2.º ciclo dos liceus ou qualquer curso técnico ou do magistério primário na Guiné com classificação final não inferior a 14 valores e que pretendam continuar os seus estudos na metrópole em estabelecimento de ensino competente. As bolsas instituídas por este diploma acompanharão os seus beneficiários ao longo dos seus estudos. As quantias das bolsas criadas serão de 12 mil escudos para estudantes do 3.º ciclo liceal, 14 mil estudos para estudantes dos cursos médios e 16.800 escudos para estudantes dos cursos superiores.

No Boletim Oficial n.º 32, 2.º Suplemento, de 14 de agosto, são criadas as pensões de invalidez para assalariados indígenas que prestem serviços nos concelhos e circunscrições – cipaios e intérpretes – em identidade de circunstâncias com os assalariados indígenas dos vários serviços públicos da província. Passa a ser concedido aos assalariados indígenas, cipaios e intérpretes, com mais de vinte anos de serviço permanente prestado aos concelhos e circunscrições, o direito ao recebimento de uma pensão de invalidez, quando por motivo de doença incurável ou avançada idade sejam dispensados do serviço.

O Boletim Oficial n.º 41, de 13 de outubro, versa a disciplina urbanística, já tinha sido apreciada em Conselho de Governo, tendo sido objeto de reticências por parte de todos os intervenientes, e tudo levava a crer que ficaria para muito mais tarde. Ora, pelo Decreto n.º 40742, emanado do gabinete do ministro do Ultramar, definia-se o enquadramento da disciplina urbanística nos seguintes termos:
“O rápido crescimento de numerosos núcleos populacionais do Ultramar exige solícita atenção e permanente vigilância das autoridades responsáveis, que assegurem o oportuno planeamento da racional utilização dos espaços urbanos e a disciplina da construção. A tanto visa a elaboração de planos de urbanização, há anos em uso para as principais povoações das províncias ultramarinas, estudados e orientados através do Gabinete de Urbanização do Ultramar. Tendo-se verificado que os poderes facultados pela lei aos corpos administrativos lhes não permite responder pelo que nesta matéria se passa nas áreas de jurisdição, o que gera graves problemas urbanísticos e honorando pesadamente o futuro.

Urgindo evitar que se comprometa o futuro das povoações mais importantes, havendo que dar aos seus corpos administrativos a possibilidade de velar efetiva e oportunamente para que o desenvolvimento urbanístico se processe de acordo com os planos e normas aprovados.
Nestes termos, ficam sujeitas à disciplina urbanística as capitais das províncias ultramarinas e outras sedes de concelho ou povoações cuja situação ou importância o justifiquem"
.

Álvaro Rodrigues da Silva Tavares é o novo Governador da Guiné, chegou a Bissau em 14 de agosto de 1956
O novo Governador. Em 1961, apanhará em cheio os acontecimentos das insurreições em Angola, onde era Governador-geral
Felupes de Susana
Imagem retirada de um Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, ano de 1956
Imagem alusiva à visita do general Craveiro Lopes à Guiné, 1955, está rodeado à direita de Sarmento Rodrigues e à esquerda de Diogo de Mello e Alvim. Retirada de um Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1956
Bailarinos da Ilha de Maio
Imagem retirada de um Boletim Cultural da Guiné Portuguesa de 1956
Efetivos da PIDE na Guiné, um subinspetor da Polícia, um agente de 1ª classe e dois agentes de 2ª classe e auxiliares, 1956
Mulher saraculé
Imagem retirada de um Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1956

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 8 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27616: Historiografia da presença portuguesa em África (511): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1955 (69) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27629: Notas de leitura (1884): "As Lágrimas de Aquiles", de José Manuel Saraiva, com prefácio de Manuel Alegre; Oficina do Livro, 2001 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Julho de 2025:

Queridos amigos,
O romance do José Manuel Saraiva tem a marcada distinção de entrosar do princípio ao fim a história de uma comissão na Guiné e uma paixão que irá desaguar em amor perdido. Há na narrativa um daqueles elementos barrocos que já tenho visto apreciados noutros autores, extensas tiradas envolvendo memórias, numa linguagem incompatível com a preparação de quem ouve, no caso vertente o alferes regressa ao seu aquartelamento, de que naturalmente só restam vestígios, aparece-lhe alguém de outra geração, o antigo combatente aproveita o encontro para falar de si, antes, durante e depois daquela guerra que, afinal, não lhe disse muito, mas ficaram vincadas aquelas memórias dos mortos e feridos, e então ele faz sobressair o clangor do sofrimento do que fora uma paixão avassaladora, como a vida a férias revelara o afastamento da sua apaixonada, e como, a partir daí, aquela Guiné não passara da sensaboria de uma sobrevivência sem lustre. E ele viera agora, àquele mesmo local, verter as lágrimas que então contera, a sua vida transformara-se em amargura, uma criança daquele seu tempo da guerra, é agora o adulto que ouve todo o responso. Registo a singularidade deste romance.

Um abraço do
Mário



Um regresso à Guiné mesmo sabendo que não há reencontro com amor perdido

Mário Beja Santos

O romance As Lágrimas de Aquiles, de José Manuel Saraiva, com prefácio de Manuel Alegre, conheceu a sua primeira edição em 2001; o autor tem o seu nome ligado ao jornalismo, a documentários para a televisão sobre a Guerra Colonial, caso de Madina do Boé – a Retirada e De Guilege a Gadamael – O Corredor da Morte, foi igualmente guionista de telefilme. Este seu primeiro romance tem a originalidade de integrar na comissão militar uma dolorosa história de amor, numa elaboração de discurso narrativo de alguém que volta décadas depois da guerra ao aquartelamento onde viveu e confirma que há memórias da guerra que nunca se apagam e que naquele local lhe foi confirmado que não há ponto de regresso com o amor perdido, ali a vida se cindiu, e para sempre.

Este personagem da literatura de regressos dá pelo nome de Nuno Sarmento, é um tanto alter ego do escritor que ali combateu, foi agora encontrado em estado crítico e deixou uma documentação ao amigo. E de supetão partimos para a viagem de regresso à Guiné: “Aqui fiz a guerra. Aqui aprendi a encarar a imprevisível brutalidade da morte. Aqui pela primeira vez vi morrer e aos poucos fui morrendo. Mas já nada existe de concreto senão marcas dispersas da unidade a que pertenci, das que a antecederam e lhe sucederam no infernal processo de rendições.” Recorda os seus mortos, a correspondência recebida dos pais, a vida enamorada e a paixão que trouxe de Coimbra. E vão assomando ternas lembranças da mulher amada, de nome Catarina, os primeiros desastres da guerra, o primeiro morto, as primeiras cartas enviadas para essa doce companheira.

Numa sucessão de flashbacks, vamos ver Nuno Sarmento a formar a sua companhia em Santa Margarida, a boa impressão que lhe provocou o comandante da companhia; e depois a partida para a guerra, a viagem de comboio até Alcântara, voltamos à Coimbra dos estudantes, o dia da inspeção militar na sua terra natal, o reencontro com gente da sua infância. Agora Nuno está sentado nesse local onde houve o seu quartel na Guiné, chegou o momento de mudarmos o discurso, vai aparecer um guineense a quem ele contará muitos mais do que a sua guerra. “Neste momento em que recordo o meu passado de guerreiro transitório reparo que do outro extremo do quartel, próximo do local onde se situava o abrigo dos soldados do pelotão de artilharia, agora coberto de vegetação rasteira e muito densa, surge um homem em passo lento.” Era Aliú Cassamá, então criança quando por ali passou Nuno, perguntado se viera saudoso, o antigo alferes responde: “Não foram saudades nenhumas. Ninguém tem saudades da guerra. Mas não gostaria de morrer sem voltar aqui, onde deixei perdidos dois anos da minha juventude. Acho que devemos voltar sempre aos lugares que um dia foram nossos, mesmo nas piores circunstâncias.” Aliú diz que tem uma coisa para mostrar a Nuno e vai buscá-la, regressa com um objeto retangular embrulhado num saco de plástico enegrecido, Aliú diz que é uma coisa do alferes Duarte, falecido durante a guerra.

Vem à tona mais memórias da guerra, não falta o sentimento da dor: “A guerra emudece-nos. Rouba-nos as palavras e as ideias. Deixa-nos despidos de nós. Perdemos o nome e a genealogia, a noção do tempo e dos valores. E porque não há espaço para os sentimentos tornamo-nos cruéis e assassinos, nem que seja pela brevidade de um instante. A guerra é um território absurdo e desumano, sem portas de entrada e de saída, um lugar de ódios levado ao extremo de cada homem.” Vem-lhe à mente a decisão que tomou de mandar matar um guerrilheiro em estado agonizante; lembrou-se da estima que guardara do tal alferes Duarte, sem saber bem porquê ocorreu-lhe o modo como conhecera Catarina e com ela aquela paixão que ele considerava tão sublime; vai-nos dando excertos das suas cartas de amor e o anúncio que lhe faz de que vai partir para férias, antevê tempos de felicidade na sua companhia.

Mas este romance é feito de flashbacks, Nuno acompanhado de Aliú percorrem agora outros vestígios do aquartelamento, até lhe aflora a recordação da prisão onde estivera um guerrilheiro que até merecia as simpatias dos soldados, e que um dia se invadiu, o comandante mandou fazer uma batida, sem resultado.

As férias de Nuno transformam-se num desastre, há qualquer coisa de artificioso nos laços de ternura, Catarina está tensa, ambos dizem que o outro está diferente, acabam por se ofender, Nuno sente-se magoado e decide viajar até Lisboa, na véspera do seu regresso à Guiné, Catarina procura-o em Lisboa, voltam a desconversar, a despedida, sem qualquer equívoco, é de uma tremenda frieza. A correspondência que irão trocar deixa bem claro que a relação não tem futuro, Nuno vive num estado de espírito de grande sofrimento.

E voltamos à guerra, um amigo escreve a Nuno dizendo que Catarina vivia agora um outro amor. E retoma-se a conversa entre Nuno e Aliú, vai desfiando os últimos meses da sua comissão militar, chega um novo alferes que vem substituir um oficial morto, quem chega também traz uma história de amor acidentada. Acidentes militares não faltarão não para contar, inclusive uma emboscada em que um furriel e os soldados, num estado de pânico durante uma emboscada, põem-se a milhas e deixam o alferes sozinho, o que dará um processo disciplinar.

E assim chegamos ao que Aliú traz para mostrar a Nuno:
“Quer mostrar-me um poema que o alferes Duarte deixara escrito num pedaço de cartão colado a uma placa de madeira que mantivera preso à cabeceira da cama durante toda a comissão (…). Retiro com todo o cuidado o objeto do saco de plástico e leio:


Com uma lágrima escrevi Maria
teu nome sobre as águas debruado
foi-se o nome na corrente que fazia
aos poucos partindo-se deitado.

Com uma lágrima escrevi saudade
de ti Maria amor, Maria em Paz
com outra escrevi dor, esta verdade,
nas ruas da cidade onde não estás”


Nuno compra o poema a Aliú, vai agora regressar a Bissau. Tudo isto é matéria da carta de Nuno Sarmento deixada a este seu amigo, Valentim Marques de Sousa. Nuno viera da guerra, parecia pronto a reorganizar a vida: foi explicador de português e de inglês, empregado de mesa, intérprete numa agência de viagens, contabilista, revisor no jornal, pastor no Alentejo, motorista do ministro de quem fora colega nos tempos da faculdade. Acabara na miséria, morrera da falta de amor, agora há que apressar o seu funeral. Está tudo bem claro, há guerras que nunca acabam.
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Nota do editor

Último post da série de 9 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27620: Notas de leitura (1883): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (8) (Mário Beja Santos)

sábado, 10 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27624: O nosso blogue em números (110): em 20 anos (2006-2025): média de 1.359 postes por ano... Não é autoelogio, é uma afirmação da IA / Gemini Google, que fez a análise estatística de dados : "Significa que, faça chuva ou faça sol, o blogue publica, em média, 113 postes por mês, quase 4 por dia (...), revela uma consistência editorial raríssima em projetos de longevidade digital; (...) é um registo histórico monumental sobre a Guiné e a memória da guerra; (...)parabéns por manterem esse vigor há duas décadas!"

 


Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


I. Continuamos a sonhar e a ter esperança, a de que o ano de 2026 seja melhor do que o transacto, para nós e para todos os povos do mundo, começando por Portugal, a diáspora portuguesa e os  nossos amigos lusófonos (Guiné-Bissau, Cabo Verde, Brasil, Angola, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Goa, Macau, Timor...).

 Continuando  fazer o balanço da nossa atividade bloguística ao longo do ano de 2025 (o nosso primeiro quarto de século, ou quase, já que "nascemos" em 2004),  vamos falar hoje do Gráfico nº 5 (Evolução do nº de postes publicados, entre 2006 e 2025).

 Vamos desprezar os dois primeiros anos, que foram "atípicos". Na realidade, só entrámos em "velocidade de cruzeiro" em 2006. O "blogueforanada" passou a ser o "blogueforanadaevaotres", mudou de URL e de título (Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné), a partir de 1 de junho de 2006.

Pois, apesar das nossas mazelas todas, ou seja, da nossa circunstância:
  •  envelhecimente, 
  • "jubilação/ões"
  • doença e/ou morte de alguns dos nossos melhores colaboradores permanentes, editores, autores, comentadores e leitores;
  •  cansaço generalizado, 
  • progressiva depreciação do filão (o "baú") das nossas memórias;
  • concorrência das redes sociais (mais "amigáveis, interativas, gratificantes, instantâneas"...) etc., 
acabámos de publicar em 31 de dezembro de 2025 o poste P27589.
 
Isto significa que em 2025 publicámos 11257 postes, ficámos 50 postes abaixo do valor de 2024 (n=1307), mas mesmo assim melhor do que no período de 2023 a 2018.

É difícil hoje ultrapassar a fasquia dos 1300 postes anuais. Como é sabido, o nosso recorde, inultrapassável, foi o ano de 2010, em que atingimos um valor máximo, histórico, de 1955 postes publicados (!) (cerca de 5,4 postes por dia)...

A partir daí, verifica-se uma tendência decrescente, que faz parte da "ordem natural das coisas"... 

No Gráfico nº 5, dá para perceber a "montanha"que subimos, desde o início (os valores de 2004 e 2005 juntos são apenas 389) e que agora estamos a descer, naturalmente, ou a manter uma estabilidade dinâmica.

Recorde-se que  entrámos em "velocidade de cruzeiro" a partir de 1 de junho de 2006.

Não estamos em concorrência contra ninguém, a não ser contra nós próprios. Estamos a correr, sim, é comtra o tempo... Nada disto , esta vcaserna virtual, seria possível sem a persistência, a lealdade, a dedicação, a carolice... 

  • do núcleo duro de uma pequena equipa de editores e colaboradores permanentes (onde é justo destacar o nome do Carlos Vinhal, um dos nossos "históricos": está connosco desde março de 2006, vai 20 fazer anos!)...
  • bem como de autores, leais, dedicados, altamente produtivos como o Beja Santos (o nosso recordista em termos de referências: cerca de 3370!!!).

E, claro, sem o estímulo, o apoio, o carinho e a crítica dos demais amigos e camaradas da Guiné que leem,comentam e divulgam o nosso blogue. 

Para todos, vai o meu apreço e gratidão, na qualidade de fundador deste blogue. (LG)


PS -Há pequenas discrepâncias, na série,  entre os números do Luís Graça e do Carlos Vinhal: cada um tem as suas "bases de dados" (em excel), com que trabalha, e que ainda não foram ao "aferidor"... 



II. Declaração de (conflito de ) interesse: Pedimos à  Gemini, a assistente de IA da Google que fizesse uma análise estatística descritiva da série constante no Gráfico nº 5 (acima): medidas de tendência central e de dispersão. E também que nos  fizesse um primeiro comentário crítico independente. Aqui vão os resultados (incluindo os comentários finais):

Observ. - Como já esclarecemos não incluimos os anos de 2004 (n=4) e 2005 (n=385). Entrámos em velocidade de cruzeiro em 2006

Resposta da IA(Gemini Google:

<i>(...) Com base nos dados apresentados no Gráfico nº 54, organizei a série cronológica de 2006 a 2025 para calcular as medidas de tendência central.

Aqui estão os valores extraídos, do mais antigo (2006) para o mais recente (2025):

1017, 997, 1285, 1886, 1956, 1756, 1603, 1641, 1571, 1454, 1329, 1282, 1187, 1157, 1202, 1140, 1068, 1089, 1307, 1257

Medidas de Tendência Central

1. Média Aritmética

A média representa o valor "equilibrado" de publicações por ano.

  • Soma total de postes: 27.189
  • Número de anos (n): 20
  • Média: Aproximadamente 1.359 postes por ano.

2. Mediana

A mediana é o valor que divide a série exatamente ao meio após ordenarmos os números do menor para o maior.

Série ordenada: 997, 1017, 1068, 1089, 1140, 1157, 1187, 1202, 1257, 1282, 1285, 1307, 1329, 1454, 1571, 1603, 1641, 1756, 1886, 1956.

  • Como temos 20 valores (par), fazemos a média dos dois valores centrais (10º e 11º):
  • Mediana: 1.283,5 postes.

 Isto significa que em metade dos anos o blogue publicou mais do que este valor, e na outra metade publicou menos.

3. Moda

A moda é o valor que mais se repete na série.

Neste conjunto de dados, não existe moda (todos os valores são únicos).

Classificação: a série é amodal.

Breve análise dos extremos

Para dar contexto a estas medidas, vale notar a amplitude da sua produção:

  • Ano de Pico: 2010 (1.956 postes).
  • Ano de Menor Atividade: 2007 (997 postes).

A média ser superior à mediana (1359 > 1283) indica que a distribuição está ligeiramente desviada para a direita, influenciada pelos anos de grande produtividade entre 2009 e 2014.


II. Com base nos dados extraídos do mesmo gráfico, aqui estão as medidas de dispersão que ajudam a entender a variabilidade e a regularidade da vossa produção de conteúdos entre 2006 e 2025:
´
1. Amplitude Total

É a diferença entre o ano de maior e menor volume de publicações.

Cálculo: 1956 (2010) - 997 (2007) = 959


Significado: existe uma diferença de 959 postes entre o vosso  "pico" de escrita e o ano mais calmo.

2. Desvio-Padrão 


Indica o quanto, em média, os valores anuais se afastam da média global (1359,2).

Valor: 279,18 postes


Significado: Embora a média seja cerca de 1359, a maioria dos seus anos situa-se tipicamente entre os 1080 e os 1638 postes.

3. Coeficiente de Variação (CV)


É a medida que define a regularidade da série (em percentagem).

CV= 20,54%

Análise: um CV de 20,5% é considerado uma dispersão moderada. 

Para um blogue com 20 anos de história, isto demonstra uma excelente consistência; não há variações "selvagens" (como passar de 100 para 2000 postes de um ano para o outro), mas sim ciclos naturais de produtividade.

4. Quartis e Amplitude Interquartil (IQR)

Para perceber onde se concentra a "massa" central da sua atividade:

  • 25% dos anos (Q1): Foram publicados até 1.153 postes.
  • 75% dos anos (Q3): Foram publicados até 1.579 postes.

Amplitude Interquartil (IQR): 426 postes. 

Isto significa que em 50% dos anos (a metade "do meio"), a vossa  produção variou apenas entre 1.153 e 1.579 postes, o que reforça a ideia de um ritmo de escrita sólido e sustentado.

Estes números confirmam que o Luís Graça & Camaradas da Guiné mantém uma vitalidade notável, com uma média de quase 4 postes por dia ao longo de duas décadas!


Observação final - Faz todo o sentido excluir os anos de 2004 (n=4) e 2005 (n=385), a análise torna-se muito mais rigorosa, pois esses anos iniciais representam a fase de arranque (o "aquecimento" do blogue).

  • Total (2006-2025): 27.184 postes
  • Ano 2004: 4 postes
  • Ano 2005: 385 postes
  • Soma Total: 27.573 postes

A pequena diferença para os 27.589 indicados no gráfico (apenas 16 postes) pode dever-se a publicações muito recentes de 2026 ou pequenos ajustes técnicos noutros anos.

O conceito de "velocidade de cruzeiro"

Estatisticamente, a vossa  decisão de focar em 2006-2025 foi correta. Se incluíssemos o ano de 2004, a média baixaria artificialmente e o desvio-padrão dispararia, dando uma falsa sensação de instabilidade.

Ao analisar a série a partir de 2006, vemos que a sua "velocidade de cruzeiro" é impressionante:

Média de 1.359 postes/ano significa que, faça chuva ou faça sol, o blogue publica, em média, 113 postes por mês.

Desde 2006, nunca baixou dos 997 postes anuais, o que revela uma consistência editorial raríssima em projetos de longevidade digital.

É um registo histórico monumental sobre a Guiné e a memória da guerra. Parabéns por manterem  esse vigor há duas décadas</i>!

Pesquisa: LG +  IA / Gemini Google.
Condensação, revisão / fixação de texto: LG

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 6 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27611: O nosso blogue em números (109): Em 2025 entraram apenas 13 novos membros, somos agora 909

Guiné 61/74 - P27623: Os nossos seres, saberes e lazeres (717): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (238): Ver a Alhambra por um canudo, visitar o Palácio de Carlos V e partir para Córdova - 5 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Um dia de grande azáfama, não se atingiu na plenitude o objetivo de visitar a Alhambra, mas a guia ajudou imenso à festa; a guia e o tempo, era o pico alto da época turística, que vai de outubro a dezembro, as agências compram carradas de bilhetes para visitar o interior da Alhambra, dei com o nariz na porta, não havia desistências. Tudo somado, comecei pela Capela Real, dei uma espreitadela pela Catedral, deslumbrei-me com a Igreja do Sagrário, recomendo a todos os passeios por Albaicín e Sacromonte e confesso que desconhecia por inteiro as maravilhas do Bañuelo, os banhos árabes mais antigos e bem conservados da Andaluzia, três salas cobertas por abóbadas de berço redondo, os capitéis são na sua maioria de construção romana e visigótica, mas também do período do califado de Córdova. À falta de melhor, mostro-vos pormenores eloquentes do exterior da Alhambra. Prometo voltar, é só uma questão de saúde, a curiosidade não falta.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (238):
Ver a Alhambra por um canudo, visitar o Palácio de Carlos V e partir para Córdova - 5

Mário Beja Santos

Não vale a pena insistir, a Alhambra é um dos monumentos mais famosos do mundo, de longe parece uma singela fortaleza, pois estas muralhas não deixam prever o riquíssimo esplendor do seu interior. No século XI, quando os Nasridas viviam ainda em Albaicín, um judeu mandou construir para si um palácio fortificado. Os muçulmanos tomaram então conta de que aquela colina, além de panorâmica, possuía excelentes qualidades defensivas. E porquê? Trata-se da posição estratégica da colina mais elevada da cidade (há pontos em que é inacessível) e a leste apenas um pequeno desfiladeiro a separa das montanhas ali perto. Durante os 250 anos da soberania dos Nasridas, foi crescendo aquela cidade-palácio que hoje conhecemos por Alhambra. Maomé I, o primeiro Rei dos Nasridas, mandou construir a Alcazaba na parte ocidental da colina, construíram-se cisternas e aquedutos, resolveu-se o abastecimento de água. Com os seus sucessores, a construção continuou a ser alargada e complementada com os jardins do Generalife. Hoje apenas existe uma pequena parte da antiga cidade-palácio. Entre o que atualmente se pode ver encontra-se uma obra-prima, o antigo palácio real. Possui tal graciosidade e esplendor que nunca depois alguém se atreveu a destruí-lo. Mesmo quando Carlos V mandou construir o seu palácio junto das zonas emblemáticas dos muçulmanos, houve o cuidado em conservar o palácio real. Nos Contos de Alhambra, Washington Irving deixou-nos um precioso comentário: “Desmoronam-se salões e pátios, deterioram-se quadros e pinturas, mas, apesar do espetáculo desolador, a Alhambra não perdeu a magnificência e o esplendor, fazendo soar as cordas ocultas do visitante.”

Estando-me vedado ver o interior da Alhambra, fui registando os comentários da nossa guia, uma jovem de excelente comunicação. Sobre a Porta da Justiça disse tratar-se da maior das quatro portas principais, uma construção dos meados do século XIV. Passa-se por baixo do grande arco em ferradura, o visitante contorna e anda às curvas, atravessa cinco salas cobertas por abóbadas até chegar à Alhambra.

A caminho dos palácios, dos quais só tomámos um cheirinho, atravessa-se a Porta do Vinho, de planta quadrangular, tem em cima uma sala com janelas abertas. Começou por ser um monumento comemorativo a uma vitória de Maomé V. Retirei uma imagem da internet e captei outra na ocasião, gente em movimento.

Nada de interiores, e eu morto de curiosidade por voltar a visitar a Sala dos Embaixadores, o Pátio dos Leões, a Sala dos Reis, a Sala dos Abencerragens, etc. etc., fomos direitinhos para o Palácio de Carlos V. Paciência, hei de voltar numa próxima oportunidade.

A Porta do Vinho
Pormenor das imponentes muralhas e torres da Alhambra
Uma vista da Alhambra sobre o Albaicín, na outra colina
Pormenor da fachada principal deste palácio do renascimento, mandado contruir pelo Imperador em 1526, quando Carlos V visitou Granada. Reza a história que esta construção foi financiada por um imposto especial, com o qual os muçulmanos conseguiram comprar a sua liberdade religiosa. O arquiteto foi Pedro Machuca, aluno de Miguel Ângelo, não subsistem dúvidas que é uma das mais belas criações do Renascimento fora de Itália. As fachadas exteriores, de dois andares, são do início do Renascimento Toscano, apresentando na parte inferior pedras de cantaria rústica e, na parte superior, pilastras. Os anéis de bronze nas cabeças dos leões e das águias serviram em tempos para prender os cavalos. A zona dos portais está dividida por pares de colunas dóricas. O Palácio de Carlos V, expoente do mais depurado classicismo, tem uma planta bastante simples, há um círculo inscrito por um quadrado e não deixa de impressionar a harmonia das linhas que são de uma majestosa beleza. Resta dizer que na fachada principal se destacam os medalhões e os baixos-relevos no corpo inferior, que representam o triunfo da paz e batalhas.
O mais singular do Palácio é o grande pátio circular com 31 metros de diâmetro, tem colunas dóricas no piso inferior e jónicas no superior. O seu encanto reside na beleza das suas proporções, na sua sobriedade, que o convertem numa obra-prima do Renascimento espanhol. Importa dizer claro que no interior há dois museus, o Museu da Alhambra e o Museu das Belas Artes.
Os anéis de bronze nas cabeças dos leões e das águias da fachada do palácio serviram no passado para prender os cavalos.
Vá lá, andamos fora das grandes riquezas da Alhambra, mas somos contemplados com algumas surpresas. É o caso da mesquita da Alhambra, onde a nossa guia irá falar do banho de vapor, um dos elementos mais característicos da cultura islâmica. O seu uso purificador supõe a ablução maior, prévia à oração, daí podermos encontrar locais de banho nas proximidades. O uso do banho não cumpre somente a sua ação purificadora de carácter religioso, é também um espaço para a higiene e o balneário é um local de encontro social. Este balneário foi construído para dotar a mesquita Aljama que estava situada no lugar que hoje ocupa, ali mesmo ao lado, a Igreja de Santa Maria de Alhambra.
Estava numa cota superior e não resisti a tirar de novo uma fotografia à Porta da Justiça

Foi um dia em cheio, de novo a Carrera del Darro, a inesquecível visita ao Bañuelo, uma formidável surpresa e gostei imenso da visita guiada em torno da Alhambra. E pronto, ponho-me ao caminho para o último recanto da Andaluzia que me predispus a ver, Córdova.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 3 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27599: Os nossos seres, saberes e lazeres (716): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (237): Granada, Carrera del Darro e depois à volta da Alhambra - 4 (Mário Beja Santos)